domingo, 7 de abril de 2013

O mágico






(luz fraca em ambos)

M - Conviver com o tempo...
C - ... significa sujeitar-se a ele.
M - Seus enigmas
C - Caprichos

M e C - (Riem)

M - Eu estou meditando no quanto éramos felizes.
C - Nunca o fomos.

(Pausa)

C - O tempo passou.
M - (como se não o ouvisse) ver os patos e os cisnes nadarem...
C - Os patos e os cisnes estão mortos.

(M choca-se. Silêncio)

M - Como para nós foi uma coisa boa, o canto do bem-te-vi.
C - Pare.
M - Como era bom quando fazia frio e sentávamos no tronco próximo ao lago...
C - (mais alto, mas com fisionomia impassível) - Pare.
M - Eu dividia minha casaca com você porque v. sempre esquecia a sua.
C - (grita, ainda impassível fisionomicamente, mas corre-lhe uma lágrima). Pare.

(M se cala).

C - Convivemos com o tempo...
M - (olhando p/C) Existe outra forma?

(entreolham-se_

C - (como se não o ouvindo) Convivemos com o tempo...
M - Seus caprichos.
C - Enigmas.
M e C - Sujeitamo-nos a ele.

(pausa)

C - É outono. As folhas caíram, amarelas. Os galhos estão secos e retorcidos. Os animais estão hibernando. Todos à espera da primavera.
M - (desperto de sua letargia) Primavera! As flores, a chuva, a terra, a grama
C - Que não virá. (M cala-se, letárgico). (C olha-o) Você sabe que é impossível.
M - Eu não sei.

(pausa)

C - (sem olhá-lo) Você sabe o que tem que fazer.
M - Eu não sei.

(pausa. M dirige-se lentamente, mas com gestos seguros para trás da cartola onde C está, enquanto C fala sem olhá-lo)

C - Você sabia desde o início que não tinha saída que a única coisa a fazer era esta que sua roupa iria corroer-se que meus dentes iriam cair que meus pelos iriam escurecer que a ilusão é breve demais para dirar mais que um instante que que que que que que... (M pega C pelos cabelos e decepa-o dentro da cartola.)

M - Eu não sei.

C se cala. M desce a cartola devagar dizendo seu texto, sendo que só à última estrofe ele sai de dentro da cartola segurando na mão esquerda uma cabeça de coelho pelas orelhas e dizendo a última parte, tronando-se visível à plateia.

M - Três ratos cegos/põem-se a roer/Roem Roem Roem Roem tumbas carrancas/Roem folhas madeira/Roem, crédulos,/o tempo.

(manuscrito s/d)



quinta-feira, 4 de abril de 2013

A um poeta




  30/02/84


Poeta é o ritmo da harmonia universal
Entre os corpos celestes
Uma grande dose de sensibilidade
(Não sem uma crosta de proteção
Contra todas as armas mortíferas
Ou não)
Uma colher (seria de sopa?) de amor
Para adocicar
O sabor da vida
Um charme todo intelectual
(Ou em parte principal)
Algumas rimas bem lançadas
Como fragmentos frágeis
Descartáveis
Uma solução de continuidade
Vocabular
Uma pitada de frescura
Ou loucura
Do tipo plena, totalmente assumida
Consumida, retorcida,
Sofrido parir
De um poema.
Aberrações gramaticais
Vernáculos
E otras coistas mas
Muita coragem para ousar
Um desbum em verso
E algumas
Desmunhecadas poéticas.
Muito humor
Pois já se vai o tempo
Da poesia de cemitério
Sacra, tumular.
Chutar estilos a esmo
Como pelotas caricatas
E divertidas
(Quebre muitas janelas!)
Abra as bocas, provoque caretas
Nos hipócritas, sorrisos
Nos conservadores, interjeições
Nos românticos, suspiros
Nos sérios, risos
Nos risonhos, divagações
Mas PROVOQUE!
Desequilibrados equilíbrios
Silenciosas gritarias
Caladas discussões
Constipadas disenterias
Cisões e rupturas
Que o seu objetivo
Seja o de inovar as almas
Transmita inusitadas sensações
Caminhe pelos caminhos turbulentos
Atravesse os mares bravios
Enfrente os monstros perdidos
Do ser
E encontre o "quê"
De criança
Esperança
Que repousa em cada ser
Humano
Ou não.

Valeu?

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Se o tempo chovesse





Se o tempo chovesse,
possivelmente
O tempo choveria longo,
choveria sempre.
Se a chuva fosse o tempo
(onde o tempo não é possível)
As primaveras seriam
Ampulhetas em flor.



O menor poema





Viver
Rejuvenesce.




quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A amada em abandono




Abandonada e só sobre a cama, outra lascívia
Abate-se sobre seu corpo, agora em tormento;
Em outro leito, o homem em abandono no momento
À brisa mansa entrega a memória passiva

E não pensa no abandono que legou num momento
Da noite perpetuada em dor em outro leito agora abatida;
Em outro leito, a mulher em abandono é consumida
E pela cama vaga como o mar por uma onda, e seu tormento

Abate-se em abandono no homem de músculos rijos
Onde o lençol em ondas afaga em brisa seu ventre e o corso
Onde aquela amada ardeu seu ventre em tons lascivos

E sua voz só faz acalmar à distância o amado torso,
Soprando o vento às naus distantes em águas esquivas,
O pranto da amada, seu ventre o mar e o cais seu dorso.


(manuscrito, s/d)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Eppur si muove:

Ah! Velhas paragens cansadas pela solidão
Bois magros a consolar sua desesperança
Clama como as águas de teus riachos secos
Resplandecendo velhas memórias.
A velha charrete ainda no mesmo lugar
Onde tantas glórias viveu; agora, esquecida
Recita mágoas às cocheiras pacientes,
Contando ciúmes do moderno quadrúpede
Nem mesmo o Sol mudou, cara risonha,
Avermelhado sorriso do amanhecer;
Tudo é ironia e desilusão no abandono
Que cerca esse lugar alegre que já foi feliz.
Os cabelos brancos, signo expresso, cavalgam
Ao vento esvoaçantes, soltando raios luminosos
Viajando sem rumo, o canto ecoa ao longe
Vozes apagadas do passado gritam velhos absurdos
Inaudíveis e irreconhecíveis aos de hoje.
O Homem vai a Lua, projeta viagens espaciais
Enquanto o cachorro sarnento rói seu osso, indiferente.
A mulher sem dentes lava a roupa suja
E as crianças pululam por todos os cantos
Irriquetamente - é a vida.


(manuscrito; 09/04/83)

Transitoriedade IV

Quando eu existia, o mundo era mais simples,
Confinava-se a perguntas e respostas.
Jovem, muito tempo pensei
Em perguntas que me eram feitas
E em suas respostas;
Pensei também nas perguntas que poderia fazer
E em que resposta obteria
Para elas.
Isso tudo foi há muito tempo
(E eu pensei que até havia me esquecido).
O tempo é uma farsa;
As perguntas não existem,
Tampouco eu.


(manuscrito/07/02...)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Repente



Da impureza do destino,
o mundo rateia
um menino;

(O sapo coaxa na lagoa,
se imerge em
uma vitória-régia
em carne viva)

De flor no chapéu
e pescoço na lapela,
no brejo se ergue
(o contornam os pés de juta
e canela)

O vapor o dissolve num beijo,
e o mumifica
Em resíduos de sal-de-fruta
amargo.



(manuscrito a lápis)

(sem título)


(sem título)

Minto
se te digo
que te venero
como o vento
À luz
Cálida.

Meu tormento,
Redemoinhos
São teus olhos
No meu globo;

Tu,
Que seduz
Gélido
Como nem tu és.


(manuscrito/sic)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Cristal

cristal (1)



seria ilegítimo acenar
tamanha estranheza;
choca-te os olhos
este meu olhar?
perdoa a ausência,
o tato é volátil.

cristal (2)



o que seria ser mulher?
o mistério persiste.
mas deita, amor,
e me permite
gozar
a sabedoria de teus lábios.

cristal (3)



pestanejei
e o mundo se desfez, refazendo-se
em seguida;
fechei as pálpebras por alguns minutos
e novamente ele silenciou;
só a eternidade do olhar impede
o calor de todos os rumores.




1989/manuscrito

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Temporalidade III

O mesmo que não o é;
É outro.



(manuscrito)

Portrato

Olhei fundo nos lagos azuis de
Bette Davis
E me descobri,
Descobri-me sentado num de
seus rochedos.

Caravelei até lá,
o vento em minhas velas de
Portugal,
rendadas em clássico.

Foi o mais belo naufrágio.



(manuscrito)

Ambiguidade

O mesmo que não o é;
É, isto,
Um outro.


(manuscrito)

Sociedade I – o moderno

O meu corpo é formado por algumas partes, a saber:
corpo 1, corpo 2, corpo 3.
O corpo 1 seduz o corpo 2 (que é virgem)
O corpo 3 seduz o corpo 2 (que é virgem)
O corpo 2 pensa ser um irresistível homem
O corpo 1 e o corpo 3 são muito mentirosos;
O corpo 2 é um eterno tolo.
O corpo 3 conversa, às vezes.
O corpo 1 escreve sonetos.
O corpo 2 e o corpo 3 são intelectuais.
O corpo 3 é viado assumido.
(Os outros dois são enrustidos)
O corpo 1 gosta de samba,
Enquanto 2 dança sobre veludo
E 3 toca um bumbo.
O corpo 2 é justiceiro,
O corpo 3 é locutor de rádio
O corpo 1 vai a Santa Sé aos domingos,
O corpo 2 levanta pesos,
O corpo 3 abre a janela.
Os corpos 1 e 3 são nudistas
(À revelia do corpo 2 que, como já se disse,
É virgem, além de puritano).
O corpo 3 bebe um wiskey,
O corpo 2, adrenalina.
O corpo 3 estava na Inconfidência,
Enquanto o corpo 1 viajava pra Parati.
Todos os três são bastante coloquiais.

Algo me diz que nenhum deles
Gosta de mim
Ou de você.

(São todos muito anti-sociais).


87/02 (manuscrito)

sábado, 26 de novembro de 2011

A gde. foda da vida




A gde. foda da vida
É torcer-se o coração
E notá-lo cheio
De amor e amargura
De amores não dados
De amargura recebidas
Porra, eu quero
Esporrar amor pelos poros
Mas nunca encontro óvulos
Fecundáveis
Mais:
Nunca encontro vaginas
Penetráveis
O que fazer?
Auto-felação,
Homossexualismo (não, isso não),
Castração
Ou suicide?
Vejo-me perante três hipótese
Tão horrorosas
Quanto prováveis.

Mas, enquanto minha insegurança
Segura as pontas,
Dos meus seios flácidos escorre
O colostro
Que, por razões desconhecidas,
Ninguém quer sugar.
Que terrível sensação
De ser uma ejaculação
Ambulante,
Das pessoas acharem-me
Viscoso,
Viscoso de sêmen maldito
Embebido em lágrimas
E sangue de abortos!
Quão pedante, quão indescritível
A emoção
De explicar-se como um coração vazado
Que tenta molhar tudo que toca
Num misto de amor e leite!
(Que noje!)
Vomitem, amigos e irmãos!
Pois, enquanto me decido
Minha posição é do chafariz
Jorrante
Assistindo a náusea da coletividade
Até que picaretas me quebrem
Ou que eu me afogue
Nos meus próprios excrementos
De afeto.

(manuscrito)

(sem título)



Se os sentidos me bastassem,
estar só seria o fato;
Se meu corpo fosse tudo,
estar só seria o tempo;

Como o que é eterno não se inicia,
estar só é o princípio.


(manuscrito)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Minha poesia

Minha poesia está assumindo em si um elemento de aridez bastante forte. Ela tornando-se árida, ultrapassando o estágio da ‘essencialidade’ de textos como ‘Tempora’ e indo mais fundo na redução de elementos. Ela começou como um homem que vislumbra de modo mais ou menos distante a possibilidade da própria extinção, da morte. Depois, este homem ficou por algum tempo num estágio liminar entre a vida e a morte. Uma vez morto, este homem-menos (porque a morte roubou-lhe algo à medida que lhe acrescentou outro algo) enquanto podemos crer que algo se passa com ele em outro lugar, que ele sobreviveu (ou sua – argh – ‘alma’) e que ele ainda existe – o que muda muita coisa. Observe um homem decompondo-se: pode-se sentir um vazio, um esvaziamento dele; ele tronou-se matéria reduzindo-se nos seus elementos mais primários de constituição, expondo as vísceras e estas, transformando-se em substâncias químicas mais e mais simples. Este processo segue. Neste momento, minha poética estrutura-se de forma tal que alguém que a seguisse em seu percurso e relacionasse seus momentos com esta analogia, ao defrontar-se com os textos de ‘Cinco prelúdios à Erma de Ronchavis, a Tesa’, não poderia deixar de achar bastante adequada a imagem de uma ossada humana recostada numa duna, o vendo carregando partículas de areia que pouco a pouco desgastam e criam sulcos naquela superfície amarelada pelo sol cáustico, vento que pode recobrir tais ossos e fazê-los desaparecer de nossos olhos definitivamente, a qualquer instante.

domingo, 17 de julho de 2011

Pulsar



Me sinto tolo como um menino
Atrás do seu pirulito
Perdido no parque,
Choro um choro baixinho e triste
Na balança, sem consolo.
Onde estás?
Será que eu o engoli
Numa antropofagia pirulítica?
Ou o perdi
Entre as dunas do escorregador?


Desisto da procura
E saio da metáfora.


Sou bomba ambulante
Prestes a explodir
Num puta delírio.
Sou um pesadelo dos homens,
O mais terrível deles;
Sou a imagem dos teus reflexos
Mais profundos e indesejados,
Sou a tua alucinação mais ausente,
E, delas, a mais constante
Nos teus lençóis;
Embebo-me em cada gota das tuas secreções
E, tal qual tumor maligno,
Me embrenho nos teus órgãos mais profundos.
Me cagas, me mijas, sou teu tormento
Diário à beira do vaso
Sanitário.


Bailo tua música
Como o cisne
Que aguarda o fim do dia
Num pas-de-deux
Fatídico e pulsante
Ao por do sol
No insípido horizonte
Dos teus sentimentos.


Sou pegajoso, gosmento
Escorro por teus olhos pela manhã
Saio do teu nariz nas gripes
Sou o pus da tua gonorréia
Podre parte pentecostaliana
Das tuas orações sórdidas
E caminho no fio
De tuas brumas
Cuspindo e arrotando
Esgotos e predicados
Que, por mais alternados e grandes,
Nunca penetram na tua couraça
De caramujo tolo,
Que num pisão,
Esfacelo e esmago.


Para depois lambê-lo,
Num misto de horror e ternura
E continuar meu rumo,
Não sem antes dar-lhe meu último afago
Por entre escarros a fio.

(89)

terça-feira, 12 de julho de 2011

Eu me amo

Serenamente, percorreu a face,
Trilha de sortilégios ocultos
E desmesurados;
Com audácia, tolheu-lhe o olhar
Sem expressão,
E sorriu daquilo que nunca pode
Compreender.
Tomou do lápis – lança de batalha –
E imprimiu o que seu sangue
Jorrava-lhe aos ouvidos,
Numa entonação ora doce e frágil,
Ora forte e resoluta,
Assustando até.


[Pausa para pequena tosse (cof!)]


Parou.
Abandonou o lápis e o parto
E olhou o fruto do seu labor inútil
Entre gritos e sobressaltos.
A expressão – ah, essa era indefinível
E indefinida; algo entre soluçar
E espasmo sutil.
Numa interrogação sem ponto,
Anzol ou gancho vulgar,
Postou seu corpo,
Tomou uma xícara de café
E sentou-se à mesa, dando risadas,
Esboçando sorrisos,
Contando histórias sem fim.

(1985/04)