quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Na ópera, no teatro municipal de ego

tríptico

I

retumbam os sonáticos, anuncia-se a horda;

batem nas máquinas todas as suas teclas
não se preocupam com os seus gemidos de gelo

aceleram o ritmo num crescendo, ainda sinfonando
aumentam as batidas de corações afoitos de medo e ser

ultrapassam todas as limitações de sério e absurdo,
deixam de serem para serem outros eventos sem nome,
brancas nuvens de idéias e trovões, que de quando em quando
soltam raios e alucinações à multidão pasma.

gira, louco caleidoscópio, e te digo mais,
te rogo esta mandinga:
que cada uma das suas cores rodopiantes,
que cada um dos teus raios devoradores de egos imaturos
se torne um pequeno bebê, uma mistura de inocência,
novidade e, principalmente,
um mudo obscurantismo
daqueles de quem sabe tudo, mesmo sem nada saber.


II

ainda quero te prescrever remédios, brincar contigo de medicina vã;
sinto falta de tuas palavras marteladas nas bigornas,
quero o teu cheiro em minhas estrebarias.

não posso viver sem minha náusea diária de ti,
e disso sabes tão bem quanto eu.

III

não pude deixar de implorar até o fim.
agora, quando todos retiram-se do auditório,
nessa cidade meu pequeno ésquilo escreve seus pontos;

permeado por suas vírgulas eróticas,
sinto-me impelido a encerrar mais este colóquio
com algumas considerações pontuísticas;

nada mais tenho a dizer, parto sem dor, mas filho.

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