quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Bestial (Catedral II)

É no Senhor que encontrarei a misericórdia de meus dia
E a sagração de minhas noites
Até à exaustão.
É nele que encontrarei o sussurro do não-dito
E o ritmo supremo de um nada infinito.
É nele que haverá a misericórdia de tudo que sou?
Não sei tampouco se seu abrigo tem a vastidão de suas posses
Ou se, nele estando, brilharei mais forte
Ou serei ofuscado por seu brilho;
Enfim, só sei, Senhor,
Que és incógnita
De questão ausente.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Das histórias da vida:

Para começar a história
Da vida
É preciso mais que a chama
Da vela
Ou umas cinzas de cigarro
Do bêbado
Para começar a história
(Velha história)
Da vida
É preciso as cinzas
Do isqueiro
Ou quem sabe até a chama
Do bêbado.
Não.
Da vida,
Só é preciso
O cigarro.
A chama, as cinzas
E o bêba-
Do
São só histórias
Da vida.

(Essas, ela as conta
Para ninar as estrelas
Que preguiçosamente recolhem seu brilho
Para um novo dia que nasce).

A vida tem seus sortilégios...



(1989)



(Curiosidade: esse poema está escrito a mão no verso de um convite para uma palestra do João Amazonas, denominada “O surgimento do movimento operário e a situação atual”, a ser proferida no Sindicato dos Jornalistas, em São Paulo, no dia 25 de março, às 15 horas. Assinatura do convite: Comissão pela legalização do PC do Brasil).

sábado, 25 de dezembro de 2010

BREAKFAST

O cosmos, esse agrupamento de pedaços de linguiça e pão.

Te conheço desde minha infância, quando te invejava eu sua grandeza de migalhas;

Hoje, sei que tenho a ti dentro de mim, que nos confundimos um ao outro em nossos folguedos de esconde esconde;

E tu, tu também sabes que na essência da minha vastidão tens uma parte do controle acionário.

E eu, eu me conheço como a teus mapas celestes,

sei onde cintilam minhas maiores constelações, e onde se enevoam plumbeamente

Minhas maiores nebulosas.

E caminho contra ti, em tua direção sinalizo e me agito.

Tuas migalhas são as minhas, teu sistemas refletem os meus, nos perdemos uns nos outros e nos encontramos.

Para finalizar, nos rompemos em fatias herméticas de pão sem casca, migalhas que os outros sartreanamente comem e digerem,

E se fazem maiores que na realidade o são; na real realidade, nesta presente verdade, nada mais são;

são mais que fatias, são a geleia que mela

que sela o pão.

Gela, cala então, e, quando se derreterem suas geleiras frígidas, encontrarão meia dezena de mamutes,

E se perguntarão pelo significado de mais esta metáfora.

Deixa que se sequem, que se sufoquem em seus próprios lenços, lençóis;

Que se atraquem entre si, nos portos, que beijem suas esposas e filhos e contem, emocionados, as peripécias desta viagem,

Das estrelas e dos cometas, dos dias e noites, dos pães e dos mamutes.


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Enigma

Senti o toque de teu olhar
Gelou-me até os ossos
Sorriso quebra-gelo boiou em minha face

A rispidez de tuas palavras
Rasgou minha pele e fez o sangue jorrar
Fiz transfusão de complacência e melhorei

Sua distância desfez-me em lágrimas
Tive desidratação
Bebi os oceanos e passou

Meus cérebros teus argumentos
Tomei de agulha e linha
E costurei tudo em ponto cheio e lantejoulas

Tentaste o último recurso: fingiste morrer
Morri também só para te caçar pelos cemitérios
Do meu corpo decomposto, só sobrou o coração
Embalsamado de amor por ti
E algumas lantejoulas do cérebro que brilharam
Mais intensas quando você chegou
Na calada da noite e roubou meu coração
Para não mais o devolver.

(1984)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Quando chegar, não bata a porta

Quando chegar, não bata a porta,
Por favor.
Seja silenciosa
Que tal antes um pequeno afago
Ou quem sabe um beijo
Por entre os olhos?
Podemos sentar-nos, frente a frente,
E entre um gole e outro
Sorver saudades amargas

Assente-se na minha poltrona;
Ela também é sua, afinal!
Relaxe,
Talvez eu esteja tenso
Talvez tremendo de febre
Ou bêbado, correndo ágil.
Talvez eu sequer esteja.

Mas não ligue para as formalidades;
Sem confissões, sem extrema-unção,
Nem uma praia deserta, ao luar
Ou um campo fértil, cheio de trigo,
Nada disso.
Quero morrer, viver essa experiência
Única e inusitada
Nesta selva, a única que sempre amei e amarei
E, quando estiver conduzindo teus caminhos
Por escuridões sempre presentes
E um verme ou outro, a esmo
Quero ver-te ao meu lado
E dar-te o último beijo.
E então o mundo estará mais leve.



(12.1984)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Fenícia

Sabeis o que sois
e de tudo aquilo que repica com o sino,
Fenícia pagã;
e tudo o que é no modelar incessante
de cada instante
e tudo aquilo que ressoa com o sino
é eterno
e tudo aquilo que fostes forma
é eterno
e no movimento do teu abandono
ressoa
e tudo quanto vibra com as cordas
é eterno
e tudo aquilo que parte
é eterno
e no movimento incessante do que gira
repica um sino.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Fenícia (demente)

já sabes o que sois
e de tudo aquilo que parte, Fenícia pagã;
pois aquilo que fostes
e o que sois formamam a roda do que
é eterno, e no movimento
incessante do que gira badala um sino,
repica.

Sabeis o quanto do teu abandono
se encerra nas feições? sabeis o quanto vibram as
cordas mais íntimas do ar insuflado em ti
quando teu nome se faz ouvir?

fenícia demente.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Fenícia (dulce)

descobri-me

sou fenícia, a pagã
demente

em mim, repica um sino
etenerante, funéreo sol
de cada instante.

e de todas as minhas cordas
ressonantes solidárias desse sino demente
cai o orvalho eterno
dos dias.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A ESCADA

a cascata retorce-se,
contorce-se
e desemboca num lago
a folha de vime se desprende
boiando num lago sem fundo,
principia a germinar
tapetes

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Poema desconexo – II

Ver-te num raio de luz
É a hora do adeus
Partir sem nem conhecido chegar
Êxtase performático
Simbolicamente sinestésico
Ou não.

As estrelas são teus olhos
A me observar
Indiferentes
Pentram no meu âmago
Minha essência
E saem, nunca os mesmos

Polarização amorosa
Sintetização dolorosa
Polimerização inerente
Sufocação permanente
Rupturas cruzadas
Amadas
Ou não.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Dívida: (pour Geninho)

O meu único pecado
É não ter feito
Um país.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Metáfora (pour Gilberto Gil)

Em dado momento,
Ergui-me acima do tempo
E vi os minutos passarem

Dias, meses, anos.

Tão alto subi, tantos séculos
Passaram perante mim
Que envelheci.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Pour enfants.

O que aconteceria
Se eu seguisse essa formiga?

..........................................

Da intentona, restou o dilema:
Sou eu grande demais
Ou você muito pequena?

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Pequeninos

I

Quem precisa de um cometa?
Eu tenho a chuva
Que escorre pelos vidros da sala.


II

Não olhe agora,
Mas um galho atrevido
Nos espreita pela vidraça.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

the four seasons – summer 1,2

intermezzo from ‘winter’

summer (1)

o incrível impostor tom castro

o evangelho segundo marcos
o tintureiro mascarado hakim de merv
as ruínas circulares
um teólogo da morte

intermezzo

(from ‘winter’)

le putain respecteuse leitura

summer (2)

a espera
o milagre secreto
os teólogos
a casa de asterion

elogio da sombra.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

No rosto sem cor

No rosto sem cor,
Os olhos gravitam.

Os lábios são filetes
Grisalhos na face já queda.

Filhos do tempo,
Sobrancelhas desbotam com o vento.

Reminiscentes, os cílios permanecem
Como árvores secas e retorcidas.

Narinas estáticas,
Tulipas que perdem seu perfume.

Descrição plena e exata
De um rosto que não se parece com nenhum
Mas se assemelha a todos.

(1985)

quarta-feira, 28 de julho de 2010

prenúncios

no início fora o silêncio. um silêncio tão grande que não se poderia dizer o seu tamanho. um silêncio onde seus olhos não desviaram dos olhos daquele homem que lhe abrira o abismo de si mesmo. um silêncio destes pode abarcar uma vida toda, às vezes. mas o homem era uma necessidade, e passado aquele instante onde eles se tocaram tornou a fisionomia mais contrita, mais circunspecta e um pouco compassiva. depois, pigarreou, desviando os olhos dos olhos suplicantes de César, desabrochando um incômodo. mas César teve forças para deter-se um momento mais, até que sucumbiu num sorriso.
- o senhor quer dizer que eu estou grávido?
o médico viu-se restituído à humanidade daquele silêncio anterior pelo espanto. sua fisionomia relaxou-se, a boca carnuda e vermelha entreabriu-se. com uma sabedoria que nem sua esposa o julgaria capaz, disse então, muito velho:
- sim. ele era de novo um médico, não mais um homem. sim, pode-se ver deste modo.
- e pode-se já saber o sexo desta criança?
- ah, uma menina, de grandes olhos...
- como os do pai, disse César num êxtase.
como se tudo houvesse sido dito, César ergueu-se.
- penso que você deve comunicar o fato ao...
- pai da criança? mas é claro, doutor. ele será o primeiro a saber.
o sorriso o havia deixado, mas não a alegria de seu rosto. o médico, sentado à mesa, não ergueu os olhos até que César deixasse a sala. ao som da porta fechando, recostou-se melhor na cadeira e lançou ao céu um longo suspiro.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Organum

Na catedral, os fiéis assistem quietos a celebração da fé,
Sentados, os braços cruzados numa atitude respeitosa.

Na sacristia, o clérigo ouve o silêncio de uma narrativa, uma voz escusa e silenciosa
E fria, que ecoa fundo, confundindo-se com a nave sob a batina branca.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Sem fim

Pequenino, nasce e crescendo descobre que melhor seria se não o tivesse
Conclusão tarde, tardia sedução de memórias envelhecidas enrugadas.
Se senta, se sente como se seu peito lhe pregasse uma troça,
Um prego fino, comprido e gelado fincado fundo no mamilo esquerdo.

domingo, 6 de junho de 2010

PÓS

Após tudo, me sento e me sinto refletido nas teclas deste piano
E, apesar de tudo e de todas as coisas que poderiam levar-me a ir,
Mergulhar fundo nas terras que cercam este lago, fábula intrínseca
E particular, tranco e cerro as portas de acesso
Afogo-me nesta gafe úmida dedilhando o amor escondido em nós, em
Todos nós.

sábado, 5 de junho de 2010

HAI-KAI REEDITADO

Calma.
Te sente e reflita sobre cada palavra sofrida que te sai dos seios nus.
Não permitas que este fluido ácido e tirânico te corroa as entranhas o papel na qual
As deposita
dia após dia.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Pescaria

O barco e as ondas brincavam; subia e descia, ia e vinha.
A linha translucidava e, lúcida, emborcava, mergulhava e emergia.

Neste aquário, o pescador solitário persistia em sua façanha:
Retirar destas falésia marítima o que nunca existira,
Romper o véu tênue que separa a realidade da fantasia.

Com sua vara e seu anzol, sua linha de nylon e suas iscas,
Submergia e respirava o ar puro de suas águas e nelas, delas
Renascia, anfíbio fragmento de uma infindável metamorfose, névoa serena de orvalho matinal.

domingo, 30 de maio de 2010

LAMBDA

Passada a tempestade, uma poça forma-se no calçamento de arenito rosa.

Um cãozinho sedento lambe e sacia-se no centro deste pequeno lago,

Passando a língua rosada e comprida no céu que se projetava, que nesta

Se refletia.

Amanhecendo um novo dia, vem o sol e evapora um sonho bom.

sábado, 29 de maio de 2010

ÉPSILON

Uma concha que rola pela areia fofa da praia.
Toma a mesma entre as mãos brancas, e ouve o mar,
Os sons serenos escondidos nos caracóis e medusas.
Atendendo ao canto desta melodiosa sereia, agarra-se à sua cauda aquática
E mergulha fundo, aprofunda-se nas cataratas abissais do espelho d’água.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

SIGMA

Marginais às águas lamacentas dos ribeirões, existem diamantes.

Com a bateia em punho, perscruta os depósitos de lodo e procura.

Surpreso, se depara com um caco pequeno de vidro fosco, sujo de areia.

Limpa a lama, sua imagem reflete-se emoldurada pelo céu aberto.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Eu andava na rua

Eu andava na rua
Quando o homem olhou-me;
Ele não viu meus versos de poeta,
Pediu-me pão.
E o poeta negou-lhe o pão,
Desviou o rosto.
O homem sujo poderia ter matado o poeta
E sua impotência,
Fazendo do poeta um homem
E do homem, poeta,
Mas ele preferiu buscar o próximo que,
Como eu,
Simplesmente o ignorou.
E a poesia tornada impotência
Aspirou à vida à própria morte;
Porém, covarde que é,
Fez-se verso,
Embora o poeta mentalmente beijasse
As mãos do maltrapilho,
Em bênção.

terça-feira, 18 de maio de 2010

prelado

minha alma tem catedrais de longas naves esparramando-se
para além do milharal de corvos negros e espantalhos de palha.
observo o horizonte e vejo a água do mar.
olho para cima e vejo o infinito pensar.
ajoelho sobre a terra e a acaricio, pois ela sou eu
ou o que serei um dia. minha é uma catedral de longo curso
onde padre navegante iças as velas e grita: homem ao mar!

minha alma menina urina na coma pela noite com medo do bicho papão
que o escuro do quarto esconde ao lado das bonecas perfiladas e minha
saia amassada é carranca sinuosa. mamãe, tira esse bicho daqui que
eu tenho medo. e a mãe cuidadosa é reverso de meu medo descuidado
virando para o lado, agarrando as cobertas como quem esconde
um segredo maior.

minh’alma seria chama, se todas não fossem
minh’alma seria sopro, se todas não fossem
minh’alma seria fóssil se todas não fossem.

mas mina minha alma o segredo de uma menina de mãe cuidadosa,
laço de fita em dia de festa, corando sazoneira como as cores de coralina,
alinhavada em bonecas de pano e uma saia passada, outrora plissada,
agora saia mulher, não menina. mas minha alma gregoriana canta sinuosa
a missa, e se esparrama na melodia salina subindo às naves soprando
as desditas, pensando o vento que assusta os corvos sobre o infinito da terra.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

mas será que o amor daria conta de todos estes dias? todos

mas será que o amor daria conta de todos estes dias? todos
estes seus dias em que te arrastas a meu lado, muda mulher,
tantos dias perdidos? e daria o amor conta de todos estes astros
ligados, assim como de cada um de meus poros? não, não pode ser
o amor um monstro tão forte e impiedoso.

eu sei que tantos líricos cantaram o amor como uma pedra de mil faces,
e destinaram a ele tantos motivos... disseram do amor muitas ações
mas eu o acredito semelhante a esse homenzinho pálido e frágil
que nos sorri a cada vez que chamamos por seu nome e, em silêncio,
deixa cair sobre seus ombros a culpabilidade de todo um mundo vazio.

amor, seria o amor capaz de tantas atrocidades?
sim, você me diria, pulsos cortados, o definhar lento da amada
ou o pranto desesperado, o amor é seu padrasto e pai.
mas, amor, como tu darás conta de todos estes dias e todos estes momentos,
uma vez que nem o amor pode ser tão grande assim?

e tu me responderias, ah, amor, eu não sou só um vocativo,
e meu hábito te revela minha procedência; eu venho onde todo homem é um rei
e todo rei é um deus, e todo deus é um homem, e onde todas as coisas
cabem perfiladas em seu pranto ou em seu raiar ou simplesmente
na evocação que as faz existirem. descansa, amor, este teu fardo.

e eu te olharia, os olhos da piedade, te veria não amor, este vocativo
inflado, mas mulher fatigada de amor, e eu veria em ti no não visto,
o fardo de todos estes dias emudecidos e líricos (e talvez eu te cantasse
uma canção). e talvez eu tocasse o teu hábito (tão diário), talvez eu
te evocasse. amor, piedade, amor, que não sou deus nem rei, mas mulher,
e pesado é este meu fardo, o dos dias, o do homem. talvez eu te tocasse as mãos,
mas isto pouco importaria.

domingo, 16 de maio de 2010

Ao nascer

Ao nascer
A beleza de uma tez infantil
Olhos azuis a refletir a luz do céu
Aos dez
Corria pela casa feliz
E o orgulho de uma de uma inteligência em botão
Que principia a desabrochar
Aos vinte
Garotinha cantada como mina
Pelos portões e barzinhos
E a Lua cheia a espelhar
Pérola noturna do sorriso teu.
Aos trinta
A primeira ruguinha desmponta implacável
E sente-se que a sua jovialidade
Sofre o primeiro baque
Perante a implacável (também) birthday date
Aos quarenta
Nem tudo é felicidade
Vaidade
A atormentar a tez que se dilui
Num mar de imperfeições
Talhada pelo tempo
Que já se esquivava nas trevas das
Lágrimas amargas (ou talvez não tão)
Aos cinquenta
Não mais a jovem de olhos celestiais
Cabelos escuros como a noite
E o sorriso lunar (cheio);
Os cabelos já mostram traços de Lua
Os dentes já atingem a noite
O sorriso cada vez menos celestial
Apesar dos olhos ainda evocarem estrelas
Um suave piano
Ainda que solitário
E tocado por mãos que não mais existem
Aos sessenta
A lua já dominava o seu cabelo
Os dentes já haviam sido devorados pela noite
Junto com o sorriso
Felicidade não mais.
Tudo ia assim
Tudo era assim
Tudo estava assim.
Até que, num dia qualquer,
Veio o céu
E tomou, suave, as estrelas
Para iluminar o crepúsculo que se aproximava

E ele veio
E, com ele, uma noite onde faltavam duas estrelas
Que tocavam piano
Para o Sol que se ia.

E se foi.

sábado, 15 de maio de 2010

No dia, de manhã bem cedinho, ele chegou, com seu peito arfante

No dia, de manhã bem cedinho, ele chegou, com seu peito arfante
E um pequeno silêncio de cão;
Recostou-se em meu colo, abração minhas almofadas
E recitou alguns versos que eu julgava
Desconhecer;
De súbito, lançou as almofadas contra as paredes da casa,
Olhou-me com piedade,
E partiu antes que eu pudesse acenar-lhe um lenço.



À tarde ele retornou, e daí eu o reconheci
E tentei impedir que ele passasse por minhas portas,
Mas não pude;
Mais uma vez, ele pousou suas asas em meu leito
E se disse cansado de seus voos;
Cantou-me uma ou duas canções de ninar suavemente,
No que adormeci;
Então, vendo-me tão desprotegido, de olhos cerrados
E em sono profundo,
Abriu as venzianas e voou alto, atravessando nuvem branca
E úmida
E roubando as palavras que outrora eu tinha nos lábios.



Cai a noite; fecho portas, janelas e frestas pelas quais
Ele poderia se inserir;
Tolo que sou! Descubro-o dentro de um cinzeiro, entre cinzas de sonhos
Que ele mesmo queimou.
Tolo que sou! Aninho-me entre suas asas quentes, respiro seu ar frio,
Fingindo creem seu seus versejos e cantigas
Enaquento não se vai.




(Tolo que sou,
Desta vez, canto com ele sua canção de adeus
Enquanto sumo como um ponto no horizonte.)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O CORREDOR

o corredor
para
frente
vai

no início
uma
porta
linhas
distantes
fundo
sem fundo

o
corredor

está
desnudo
por
sua
vez

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A CORTINA

poder-se-ia escrever um tango
sobre estas cortinas
(velame de algumas solitárias
janelas)

poder-se-ia agarrá-las
e esfregar-se nelas
num rito profano
de purificação

mas isto tudo é tolice.

terça-feira, 11 de maio de 2010

carta de caminha ao rei quando de sua chegada aos infernos

senhor, estas terras não ousamos navegar, ainda que nossa raça seja de destemidos e bravos; o lodo destes pântanos em muito se assemelha aos nossos mares. barcas e mais barcas poderiam flutuar por aqui sem se tocarem mutuamente. a ausência ecoa de forma a confundirem alguns de nós tal lugar com um deserto sem luz, ou um labirinto virtual, onde perdemo-nos em não nos movermos a parte alguma, mas a sensação infere algo destas. corre a lenda de que heráclito esteve aqui mas, aos seus primeiros passos sobre o leito de pedras de um dos pântanos, lançou um grito e desapareceu. dizem-no um dos pântanos, o único cuja água seria potável, reconhecível por seu uivo aos passantes. mas todos os pântanos aqui lançam uivos, talvez naquele instante heráclito tenha-se tornado todos os pântanos daqui ou outros homens tenham-se tornado heráclito e todos os pântanos. sabemos da profundeza das águas do mar, mas nada é comparável a isto. os homens aqui entreolham-se com muito mais profundeza, relatam-se até alguns involuntários afogamentos, o que leva os homens a evitarem-se mutuamente os olhares. o calor constante reconforta à exaustão, tem-se a impressão das águas daqui serem oriundas de nosso suor, alguns de nós temem desfazerem-se e tornarem-se mais um charco anônimo. mais que o silêncio, deve-se guardar o silêncio. a sede nos queima enquanto buscamos no profundo dos uivos o homem que é todos e nenhum, o homem que talvez seja qualquer um de nós, que sua água nos reconforte e nos redima de nossa culpa de ainda sermos nós mesmo, heráclito de éfesos e seu uivo, o primal de tantos ecos.

sábado, 8 de maio de 2010

o espírito santo, na forma de uma pomba, busca fecundar a virgem após a deposição de jesus morto.

estava na colina quando te vi vertida,
e a dor corrompe como a chuva ácida
sobre o solo despido: seu corpo hoje não é a chaga
de seu ventre (mãe outrora), mas jorra.
deita-te, mulher d alma pálida;
não faça da tua face o escândalo,
nem te surpreendas o gozo que te lanço;
assim como lançastes o corpo ao solo,
eu te lanço o sêmen para que o milagre se faça;
o que busco entre teus lábios entreabertos,
no silêncio abrigado, nas tuas entranhas
(pois já fostes mulher, mãe, e hoje
nenhuma palavra te apaziguaria a paz),
é menos esta fala que te soaria pouca;
meu anseio é retornar-te
ao mundo onde encontrarás teu nome
e, chamada, a paz tornaria à origem
pois o tempo se desfaria e,
em meu engodo,
seria como se tu nunca tivesses conhecido
o mundo mesmo que hoje carregas à treva.
permita-me afogar tua sombra no meu lago pouco,
mulher de olhos vitrificados,
antes que soe a hora
e eu parta – grão – para o lado da ampulheta
que a sombra mesma da vida encobre,
até que a morte também caia.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

meu navio tem dez mil velas, todas inúteis

meu navio tem dez mil velas, todas inúteis,
pois ele é do tamanho do mundo, de nada me serve;
seus cascos são de metal frio ao toque,
o dorso brilhante de toda alvorada.
montanhas não lhe faltam; é um navio singular
de colinas flutuantes que ameaçam soçobrar
por vezes. habitavam-no antes de mim aborígenes
e alguns animais de pequeno porte.

meu navio, eu lancei-o ao mar, e disseram os peixes:
não pode haver navio assim tão extenso, e eu repliquei:
sejamos justos, este navio abarca toda a extensão das coisas
visíveis (dez mil velas!), sejam razoáveis, rendam-se à evidência.
e disseram os peixes, nada mais justo, mestre e senhor,
se foi na eternidade que tal navio foi concebido nele devemos
existir (se o mundo nele cabe) para um dia sermos emanados,
e os peixes foram.

e foi o navio até as encostas mais distantes (que dele eram
próximas três dedos), e disseram os animais da terra:
ma que tamanha extensão é esta que nos abarca e lança-nos
a sombra do extenso?, e disse eu, amigos, vejam, esta é a
sombra maior, e eu lanço para tornar conhecido quão extenso
pode ser o manto da escuridão. não lhes direi que possuo o
sol, mas toda sombra é mina de direito e fato, já que é minha
toda a sombra do mundo, e disseram os animais, senhor, abrigai-nos
para além desta manta negra,
e os animais foram.

e disse noé, senhor, tua tarefa está cumprida, mas antes ela não o estivesse,
pois passei a eternidade, à tua semelhança, construindo a nau de deus, e hoje
sei como os peixes que não pode haver teu navio de dez mil velas
(como os peixes, rendi-me à evidência),
sei como os animais da terra quão extensa é a tua escuridão, senhor, eu te renego
e só te peço, faças-me navegante errante de dez mil velas, dez mil vezes, para além
de todo o teu.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Apelo à Lua

Numa de suas infindas sarjetas, o poeta murmurava.

Boa noite, piranhona. Você está bonita, sempre foi bonita. Só que nunca me deu atenção, só fica me seguindo por aí, para aonde quer que eu vá está você. Nos terraços das casas, debaixo de ti, eu só fico a me imaginar, a me locupletar de fantasias com você, sua piranhona. Você me deixa louco com essa sua cara branquinha, eu fico querendo te penetrar por todos os seus orifícios, sua maluca, e eu sei que você sabe disso. Por isso que você me azucrina, não me deixa em paz, me segue para todos os lugares que eu vou. Eu pulo, balanço os braços, tento voar para te alcançar, mas nunca consigo. você deve rir pra valer, achar uma puta graça de mim, aqui embaixo pulando e tentando te pegar, não é? Mas tudo bem, um dia eu a terei entre minhas pernas, e daí te farei gozar cem vezes, e nunca teu brilho voltará a ser tão intenso quanto nesse momento. Que eu invejo essas estrelas que estão ao teu lado, eu invejo. Gostaria de não ser tão efêmero, de ter mais tempo para te declarar amor, te deixar vermelha nas noites em que estás cheia, mais que uns míseros 40, 50, 70 anos, talvez menos que isso. Gostaria de ser como suas amiguinhas, ter milhares de anos para te dizer bobagens, para te excitar com minhas insinuações, para te levar rosas roubadas dos jardins de Zeus e escondê-las no teu lado escuro enquanto a noite não chega. Mas um dia serei como elas, as estrelas. Talvez eu consiga voar uma noite dessas, e ficarei ao teu lado. Vou te contar umas histórias doidas que te farão rir e sorrir, te encantarei com meus dotes. Serei poeta, e só então serei eu. Algo mais que efêmeras estrelas que o Sol encobre.

Levanta e se vai, sem mais nada dizer. As folhas caem de seu colo. Só a lua o acompanha em sua trilha de bêbado sem rumo certo.

Uma brisa bem, e as folhas se dispersam.

sábado, 1 de maio de 2010

Um homem docemente caminhou sobre a terra

um homem docemente caminhou sobre a terra
e não percebeu em seus pés
as raízes sólidas e dolorosas que criara,
à sua revelia.

mãe e filhos cresciam sob seus passos
como juncos desorientados e enfim feitos mais fortes
que a tormenta erguendo-o acima do solo
sempre para o alto.

gritamos todos, mãe e filhos – eu
que o amava como só se pode amar a um homem
mas todos os gritos só se perderam no torvelinho,
não grilhões, não correntes.

um homem docemente caminhou sobre a terra
e não percebeu em seus pés arrancados
nas raízes sólidas
minha alma que levava consigo.

tampouco o turbilhão;
mais e mais para o alto,
enquanto a terra de que fomos feitos gretava infértil,
à guisa de cicatriz.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

The four seasons – Winter – Adler – the sense of time

A triste umidade soprando nos vitrais das casas nas colinas
O vento
Transportando ao longe pesadas neblinas.

O chão subindo e atingindo o céu branco sujo, e com este se confundindo
Em mescla
A areia fina que cisiona-se entre os dedos e na água se diluindo.

A folha amarela que se solta e, solta,
Se queda;
A estática acalma dos seixos na beira dos riachos.

Descubro-me dentro de um mundo que não me é muito estranho,
E me embebedo de seu absinto lírico e gelado;
Movo-me dentro desta vertente.
Fantasio um voo inconsequente e me sinto içado,
Não piso no campo arado nem o no impessoal e duro cimento;
Neste momento, sou alado, e capturo em meus braços gaivotas azuis.

Molhado de chuva, pouso no raio e me faço sua luz,
Propago-me e possuo o domínio de todo o espaço,
Me faço, pelo instante de um relâmpago,

Mas apago.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Vede como somente os restos de lixo urbano

Vede como somente os restos de lixo urbano
Atingem o nível maior de perplexidade perante seus donos
E proprietários?
Quietos, silenciosos, espreitam os portões e vielas
Vigiam as sarjetas,
Atentos a cada movimento.
Olham as crianças correndo nas ruas,
As mulheres com seus sacos de compras e brincos de strass,
Os homens engravatados beijando os filhos sonolentos,
Os carros rodando a esmo;
E estes, perplexos, estes azuis, pretos e marrons sujos
Fedendo a laranjas e cinzas de cigarro (cheiro de certos maridos)
Não compreendem como tantos, em chintz ou lycra, no brilho ou na sombra,
Correm e andam, sentam e param, riem ou fingem sorrir.

Tanta energia desperdiçada,comentam entre si em seus redutos particulares,
Seus guetos;
Tantas palavras, gestos, atos, vácuos, vácuos,
Vácuos;
Estes, pensam eles, de tudo fazem para preencher seu intenso
Vazio;
E, no instante derradeiro de sua partida, quando homens alaranjados
(Uma cor entre o sóbrio e o alegre)
Capturam-nos por suas pontas, por vezes por suas alças,
Eles rompem com sua própria perplexidade,
Mas recusam a contemplar-se;
No seu instante de ida, eles mais intensamente observam a pequenez do homem,
A igualdade de suas condições
E riem, riem muito.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Conto tardio

E sabe o que mais eu fiz? Visitei aquele lugar quente e silencioso em que nos conhecemos (bem que podia ter sido um pequeno útero). Defronte aquelas pequenas inscrições na pedra, mantive-me numa espécie de transe respeitoso. Sensação estranha. O homem ao meu lado tinha uma expressão abrupta no rosto; trajava um casaco de abas longas e rotas, e olhou-me só uma vez, como que para certificar-se de minha presença ali, ao seu lado. Lado a lado como dois estranhos.

Cansam-me um pouco estas visitas. Quando sua expressão atenuou-se um pouco, pedi-lhe que fôssemos embora. Hesitou um pouco, releu as inscrições, beijou-me a testa e foi-se. Sozinho.

Acredito que nunca irei perdoá-lo por tamanha injúria.

domingo, 25 de abril de 2010

Só agora percebo

Só agora percebo que já é dia claro. O Sol surge no horizonte, mais invulgar que nunca. Como todo bom vampiro, ele se desvaneceu numa nuvem de névoa esverdeada. Finalmente cumpriu sua promessa. Em diversas vezes que parávamos para apreciar um prédio em construção – “os prédios quando estão sendo construídos assemelham-se às flores desabrochando; cada viga, janela, parede, é uma pétala que se acrescenta até o desabrochar, no final. é preciso ter a sabedoria de apreciar esse nascer”, dizia -, sempre com aquele ar absorvido, como um jardineiro observando atento e quieto o crescimento de suas hortênsias, pensando se elas precisariam de um pouco mais de adubo, sussurrava: “qualquer dia eu vou desaparecer numa nuvem de vapor verde, mas sei que você entender então.”

Nunca imaginei que seria tão compreensivo.

sábado, 24 de abril de 2010

Transei com um verso

Transei com um verso
E ejaculei
Palavras úmidas
Além de alguns
Espermatozoides poéticos.

Bem que mamãe falou
Pra eu casar virgem!


(manuscrito/0?/07/89)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

POESIA

E a poesia dormia,
E sonhava,
E em sonho cavalgava louca
Solta e pradarias
E uma poesia louca delirava
A pobre poesia era só sonho, e sonhava
Com seu grande dia
O dia em que, libertada,
Poderia sair do que se dizia
Impedir-se de ser mediatizada
Por um sentido que a trairia.
A poesia – amor platônico? – ria deitada
Em transe, e se imaginava poesia
Poesia não intermediada,
Poesia que o ar carregava, poesia viva,
Pois só a vida é poesia.
Mas nossa poesia, infeliz, não é vivenciada
E recusa-se a falar e, calada,
Só sonhava um sonho de maresia,
Uma maresia calma que a banhava
E cobria o sonho pouco desta poesia
De uma fina película de areia,
Areia fina,
Fria.

Poesia pouca e fria se deixava recobrir de areia
E a areia da maresia do mar da palavra porte forte de nossa pobre poesia
Calou-a, e ela se fez uma estrela marinha.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

PÔ, EMA!

“Como da planilha à flor,
No meio da quase-vasta planície,
Da pétala brota a rosa; triste rosa.
Por entre a neblina e a umidade,
Acende o cigarro. A chama é vômito do isqueiro,
E rapidamente dissipa-se na superfície.
Da luminosidade difusa, pendem as cintilações
Ora multicores, ora raiadas de preto e branco.”

Às vezes não se o por quê do tomar da caneta;
O por quê de palavras soltas às linhas/versos
O por quê dessa fluência plena de criação
Das razões que levam o poeta na sua caminhada
Pluritemática.
Mas talvez o poeta seja uma grande incógnita
Uma sinfonia e alguns concertos a cada poema
E, se sorte tiver,
Alguns secos aplausos.

E talvez seja o ser uma grande incógnita
A única razão da existência do poeta.
Incógnita que pode assumir todos os valores
Inclusive nenhum deles.

Talvez.

terça-feira, 20 de abril de 2010

O tempo

O tempo
é momento
insincero
nos leva
a pensar
que dele
haveria
uma leve
permanência,
mas nada fica;
pulsamos
em seus
pedaços
(fragmentos?)
e,
ao fim,
descobrimos
que o tempo
não existe.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

OS APOSENTOS

O QUARTO DE DORMIR

- Quanta coisa, né?
- É, é.
Pausa.
- É.
Mas por que ele tinha que falar das tantas coisas que se acumulavam? Talvez sem importância para nós – dois intrusos – mas, se aqueles novelos de lã pudessem dizer-nos algo, protestariam, veementes.
- Não nos toquem, intrusos.
- Vão embora.
- Deixem-nos em paz.
Pausa.
- Se a Velha Senhora visse o que vocês estão fazendo...
Nada de condenável. Mera curiosidade. Tanto ouviram falar daqula grande e interminável tapeçaria que quiseram vê-la com seus próprios olhos. Tocá-la, enroscarem-se nela. Fazer dela um objeto com uma existência, fios trançados, temente de Deus e de traças.
- Está vendo alguma coisa?
- Não.
- Nem eu.
Pausa.
- Talvez fosse melhor a gente ir embora.

O HALL DE ENTRADA

- Fiquei cansado de tanto andar.
- Eu também.
Pausa.
- Eu também.
A casa vazia, encolhida como um balão murcho e caído. Umas réstias de luz, um castiçal, cacos de copos trincados perto de nossos pés.
- Você acha que ela vai notar algo?
- Que nada.
- Tolice?
Pausa.
- Bobagem.
As réstias de vidro, nosos pés trincados.

O JARDIM DE INVERNO

- Talvez ela note algo.
- Talvez.


Pausa.


(Talvez).

domingo, 18 de abril de 2010

O grande erro de deus

O grande erro de deus
Foi não ter feito o homem
À imagem de Aristóteles.

Poderíamos ter tão somente páginas arrancadas
De um livro qualquer de álgebra booleana.

Ou quem sabe Platão.

Seríamos corações de longas barbas
E sem corpo.

Aos que preferem bigodes,
Nistszche é a solução.

(Que bigodão!)

Aos lustrosos,
Foucault e seus reflexos/reflexões
Históricos.

Uma macieira com cem quedas
para a política
De Newton/Washington,

Um corvo de Poe.

sábado, 17 de abril de 2010

Artistas, dizem as más línguas...

Artistas, dizem as más línguas, não tem os olhos de toda a gente;
Artista, poeta, tem olhos que são sádicos e masoquistas, tem olhos com cheiro de vinho
E sangue;
Artista de verdade não pode enxergar, tem que ser cego de todo
E só ter olhos para tudo que seus olhos não o obrigam a ver;
Ter olhos de vidro fundo, fosco, onde um toureiro acena uma túnica
Oscilante no seu desespero.
O olhar do artista é vazio como um buraco negro, para que todos enxerguem nestes
O mundo e o vácuo, os mesmos e seus parentes opostos.
O artista não tem mãos, pés, dentes, boca, tórax, coxas, sexo,
Cérebro;
Tudo nele é acessório e descartável, pois nele nada pertence aos séculos,
Nada nele é passível de ter uma existência,
Muito pouco lhe pertence de fato;
Seus olhos, eles exprimem este horrível de condição humana,
Esta farsa de arlequim;
Por se submeter mais que qualquer outro a este martírio voluntário,
Emerge nele a sua arte.
O artista deve ter olhos de feto, olhos que nunca viram nada
Ou que nada aprenderam a ver;
Suas órbitas devem ser infláveis ao ponto de se tornarem translúcidas
Para que todos vejam que ele é como todos,
Sem seu ser interior;
O artista apreendeu a melhor maneira de conviver com este fantasma encapsulado em nós que alguns chamam
Alma,
E a respeita como respeita todas as lendas, e a ama como a todos os ritos, e tem com ela conversas
Quase sempre intermináveis.
Nos olhos do artista, só um elemento é real, palpável: sua lágrima
Que é a única coisa que lhe dá um sentido de direção;
Ela brota de suas extremidades mais internas como um gérmen o faz no solo,
E caminha, rápida ou devagar, por toda sua face e, se apanhada por outrem,
Ela parecerá salgada, apesar de, para o artista, esta se tornar, neste exato momento,
Ainda mais doce, posto que, em sua mais profunda ausência,
Todo artista reside
Em sua lágrima.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A SALA DE ESTAR

não é possível que tantos pequenos objetos
(um buda, dois cinzeiros, poltronas)
possam ter
algum fim.

parece difícil de acreditar.

mas é mais conveniente acreditar no inverossímel.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

poema triste

na intensidade da poesia mesma,
escrevo uma poesia
que se pretende igualmente intensa

em minha tristeza de tango quieto,
delineio o que bem pode ser
um pedacinho do mundo, um cordãozinho barato.

o ar que respiro enquanto escrevo aqui está,
e contempla o resto do ar
e tudo lhe soa tremendamente indistinto.

em minha tristeza de menino sem doce,
eu olho.

a poesia que se apresenta aqui bem poderia ser
o copo de água ao sedento, brindado
com um sorriso manso.

ela poderia ser um porquinho-da-índia fugitivo
e inquieto, tão esvaziado dos adjetivos
que dele vemos emanar, um a um;

ela poderia ser aquele momento de silêncio.

ela poderia ser o bibelô lançado a um canto,
a xícara de asa quebrada, uma folha desprendendo-se
e tornando ao solo de onde veio seiva, um dia,

ela poderia ser a pergunta boba, a queda, o tropeção,
ou o caminhar sem rumo.

e meu poema triste contempla tantos outros poemas nobres
e resigna-se a comentá-los, fazê-los vistos, para que cada vez mais
a poesia volte ao mundo.

e meu poema triste sorri uma lágrima de embevecimento.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A gente senta no banco da calçada...

A gente senta no banco da calçada, num pedaço de sarjeta
e pensa na vida e em tudo que a cerca de fumaça
E neblina fria.
A gente para num canto da esquina e olha os carro passando tão rápido...
(Nem sei te dizer quanto)
A gente se descobre empacada como um burro velho num pichado de musgo,
E se pergunta o que fazer;
A gente rasga as roupas e xingo todo mundo bem alto na pretensão de se sentir mais livre,
E se percebe somente um pouquinho mais tolo que antes;
A gente que pensa ser tantos e tanto, tropeça num pedinte
e sente tanto, tanto nojo de nós mesmos......
A gente que sorri com os dentes perfeitos num peito enegrecido e cinzento,
a gente que só consegue sonhar com aqueles minutos de paz depois do expediente,
a gente que encontra o cinzeiro cheio de bitucas de ilusões amassadas nas mãos,
a gente que
a gente
a gente
a gente.

A gente que se cansa de tudo isso e se rasga nas costas pra ver se saem umas asas com muitas penas de qualquer cor, pra gente voar mais alto,
e percebe que só tem sangue.
A gente que pensa deveria ter um eco acoplado para poder crescer bastante, e ficar tão grande
quanto realmente é.
A gente, sentada num banco da calçada, olha os carros passando bem depressa e fica só pensando no que fazer,
enquanto mastiga o musgo do muro (que tem gosto de piche, cinzas,
sangue.)

terça-feira, 13 de abril de 2010

OPIUM

Tenho em meus pés o dom de minhas memórias, memórias que cheiram forte
e que tem calos e feridas
Aberta, além de cicatrizes.
Tenho neles todas as minhas andanças, tudo o que vi ou tudo o que viram por mim;
Lembro muito de Opium; era uma cidadela pequena, algumas mulheres nas igrejas
E nas janelas, um cheiro forte de feijão cozinhando na lenha.
Opium é um campo devassado, uma linha de horizonte no infinito das coisas
De onde objetos sobem e descem, onde à luz sucede-se o sonho e os fatos
(Que afinal, não são tão diferentes assim.)
Vi o homem que seguiu o Sol, paciente e lento, em sua jornada ao crepúsculo,
E o rodopiar alucinado da noite que o seguia.
Ele não se cansava; dia após dia, observava este movimento contínuo;
Somente em certas noites muito especiais ele descansava.
Aos poucos eu fui compreendendo sua paciência; sem que nada me dissesse,
Percebi que ele buscava, em cada dia, em cada noite, uma única diferença,
Um único pedaço ou partícula que diferenciasse os dias e noites de outros
Dias e outras noites. Minuciosamente polia suas retinas e, silencioso, observava
Cada movimento do sol em direção ao alto, cada raio de luz que chegava até ele,
As gotas de orvalho sobre as copas das árvores; tudo observava e analisava
Num trabalho arqueológico, mas nada conseguiu.
Pela primeira vez, sentou-se. A própria treva permaneceu indecisa mas, vendo-o
Sentado, imaginou que se tratava de mais uma suscetibilidade dos homens, e pôs-se
A rodopiar ao brilho da primeira luz da noite – não uma estrela, mas sim o lampião
Que sempre carregava consigo.
Era como se sentisse com ele seu peso, sua sensação de angústia, uma enguia
Agitando-se no baixo ventre. Tudo era tremendamente claro e simples: um pouco
De cada vez, sempre, irregular. Não mais se importava em perder a única coisa
Que talvez tivesse; noite após noite, até durante alguns dias, ia saindo de mansinho,
Devagar. Pouco a pouco fui deixando-o e, no último momento – o derradeiro – tinha
Uma violeta enrolada num pedaço de sua própria pele. Quando o deixei, seus olhos,
Apesar de úmidos, eram dois livros sem página, ocos, vagos.
Era outono; folhas começaram a cobrir-lhe as pernas e o peito
Enquanto eu contemplava, sentado numa beira de vidraça provençal,
As duas esferas de fumê que se aqueciam à luz desta noite de outono.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

PRE OPIUM Terceiro

Vi o homem que seguiu o Sol com seus próprios olhos, do nascer ao crepúsculo,
E a noite que se seguia ao cada dia;
Vi também o torpor que dele se apoderava, como um mormaço viscoso
Que nele se infiltrava e que, ao fim de algum tempo,
O arrebatava de si mesmo.

Vendo este homem numa tarde de outono,
Uma brisa fria soprou em minha nuca.

domingo, 11 de abril de 2010

PRE OPIUM Segundo

Libers, Libers, Libers.
Quo vadis?

Ha.

A liberdade de uma ave tem seus grilhões em seu voo.

sábado, 10 de abril de 2010

PRE OPIUM Primeiro

Sacolejar os elementais: alegria a tristeza techinicolor (R)
de Montparnasse
E afundar as braguilhas numa almofada em carne viva.
Ai ai, um cisco de ópio riscou meu olhar de vidraça fumê
E se pode ouvir
Burbulhos de sal de fruta, passinhos macios sobre a pele do asno,
Um brinco derrubado sem ruído nos pelos densos.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Gestalt

(a Délia)

Por tudo eu opto; por tudo, é uma questão de opinar
Ou não;
Opto nosso ópio, opto nosso opto; opto nossa onanição;

Ou ainda redijo linhas mal traçadas de intenções obscurecidas
Por névoa prenhe e batida de fera;
Revestida de linhaça e pão, recoberta de mofo e hera;

Por tudo procuro, e essa busca não me estafa, nem me conduz
A um supremo além;
Por tudo procuro, e isso me leva a todos e a ninguém;

Nestas tentativas, me centuplico e me retraio em meu corpo,
Me contraio em convu[l]sões em meu próprio ventre,
Talvez tentando nunca nascer, nunca este ser que não o é para sempre;

Invento as posturas e semeio o trovão,
Me pinto de picadeiro e pulo sobre o palhaço,
Só para, assim, sufocá-lo em meu mormaço;

Me distraio de versos modos, e em prosa também;
Nesta posta postura,
Me posto penoso num parto de alguém;

Desse alguém, que me leva a todos, que me leva a ninguém.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Emudecimento

E o homem confrontou-se frente a frente com seu silêncio
E principiou uma reflexão que nunca viria a terminar.

O homem viu-se calado na possibilidade de seu silêncio,
E viu o quanto ele permeava todas as suas falas e ações
O homem viu na morte o silêncio aonde o tempo se extingue
E viu na palavra o silêncio enganoso oferecendo-se em mudez
De princípios. E o homem pensou tolices.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Noite

Cada noite é um grito rouco e fino
Do que dia que se foi,
Falando da dor da partida,
Grito ferino
Anunciando a luz que breve
Se fará parida.

Esta noite, em seu gemido calado,
Expõe uns caninos amarelos de sol;
O céu de sua boca vazado em furos,
Alguns homens pichando os muros
Sob os rasgos deste vasto anzol
Aninhando-se aonde o horizonte fecha um olho cego.

A noite, sedução de quem busca aninhar-se nela,
E dela faz seu recanto, refúgio, vento, vago
Subterfúgio;
Noite mãe de onde todo homem tem seu início
E seu fim,
Sem precipício;
Noite de rangidos, de tudo o que é vago,
Em mim trago a noite,
Tanto quanto ela me traz,
Em mim,
O tanto de mim
Onde eu a trago.

terça-feira, 6 de abril de 2010

AMOR

o amor,
tempo vago;

o amor
é rede
vazada;
enlaça
e sobe
ao cimo,
enrodilha-se
e,
quando se dá
conta,
já nos recobre
de uma pele
segunda
e nos afaga
com um riso
maroto.

mas ele é mau,
uma estrela
sombria
piscando
e
piscando, mais
e mais, até que,
um dia,
nossa noite
amanhece
num sol cáustico.

se temos asas
em voo,
cegamos;
se nos dói
e fere, dentro,
quedamos e,
feridos,
estiramo-nos
à espera
que este sol
nos incinere.




até a próxima noite fria.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O LAR

O lar em que penso
Parece próximo,
Vizinho familiar
De tantos outros
Já conhecidos,
Todos semelhantes
E homogêneos.

O lar em que me proponho
Parece-me tolo
Com tapetes aspirados,
Como tantos outros
Já habitados;
Vassouras, esfregões,
Um pano de pó alaranjado.

O lar de que falo
É um lar adjetivado
E substantivo,
Singular no plural.

domingo, 4 de abril de 2010

Estou com uma percepção aguda e fria e cortante...

Estou com uma percepção aguda e fria e cortante: o quanto as pessoas comprazem-se em permanecer à superfície das coisas. Aprofunde-se um pouco, e todos sentem vertigens, ou contemplam o abismo com um ar bastante apalermado. Alguns – ou todos, cara bióloga? – dos peixes abissais são bioluminescentes. Lance-os em água doce; não soaria estúpido demais peixes – se peixes têm um senso, igualmente estúpido enquanto senso mas, ainda assim, um senso, de estupidez –, não soaria de uma estúpida estupidez um peixe iluminando, já que iluminado, um peixe em luz dentre tantos outros? E eu me pergunto: e durante a neste deste lago, não seria esta luz presença incômoda, medo, distanciamento entre este e outros peixes? A luz não atemoriza simplesmente por sua presença: ela representa uma abissalidade a que os peixes, em seu temor, nunca chegarão a atingir. A luz do abissal remete à noite: ela é a própria noite materializada em sua antítese e, por isso, mais forte. A noite do que é abissal, ele a carrega dentro de si: a luz é mero indício.

Mas, então, não torno irreconhecível, ilegível aos meus demais? Mas o que devo fazer eu? É certo que por vezes me comprazo nesta existência confusa – uma vez que, por vezes (muitas), indecifrável. Mas é de uma imensa dor que este homem se constitui. E trazer à dor o gozo é uma sabedoria que envelhece, é o sustentáculo, a condição necessária para que o abissal não sucumba à tentação de arremessar-se em seu abismo.

Ah, a queda, a queda. Às vezes ouço meu canto e encanto-me; penso: seria este meu canto do cisne? Estaria eu à beira de mim? Quanto ainda me resta de tempo, senhor? “... a ampulheta se quebra, o vidro rompe e a areia cai.” Não é este o fim da ‘noite 459’ d’O Lar’? Seria este meu canto o eco deste abismo, estaria minha voz ecoando na proximidade do mais profundo? Ah, eu vejo a dor e ouço meu canto, e sei que os pássaros cantam sua canção mais bela só por uma vez. Como eu disse, estou embevecido comigo mesmo; seria chegada a última hora? Quantos passos separam-me da queda, o vento açoitando-me o rosto, o estômago e as vísceras frias numa massa informe?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A ARTE DO POETA

O poeta, se sobrevivente de seu próprio parto, limita-se a agonizar
Quase que eternamente.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A AZIA DO POETA

Poeta, invariavelmente, sofre de náusea;
É sua condição de existência.

quarta-feira, 31 de março de 2010

A ALEGRIA DO POETA

Não sei se isto é verdadeiro
(corre de boca em boca numa sucessão infinita);
Diz-se que poeta sorri
Com todos os dentes
Que não tem.

terça-feira, 30 de março de 2010

A AGONIA DO POETA

Poeta se nasce de parto natural;
não se aceitam cesarianas,
Não insista, por obséquio.
Poeta é natimorto ou agonizante.

segunda-feira, 29 de março de 2010

A ANTOLOGIA DO POETA

Não é difícil para o poeta
Representar a farsa
De um ser
antológico.

Mascara seu fluido
Com fitas de muitos cheiros e cores
E, se alguém atenta a uma mecha de cabelos
Por debaixo da peruca,
com um ar de sábio
Ele a ignora.

sábado, 27 de março de 2010

O Espelho 051282

O espelho
Que ficava na moldura que ficava
Na parede que ficava no quarto
Que ficava na casa que ficava na rua
Que não ficava.

O espelho
Segredo da Vida e da Morte, essência pura
Refletor infindável, batalha incansável
Um dia se cansou daquele sinal fechado
E parou de viver.

O espelho
Se mandou da mutuca da parafina
Comunicou que faturara umas pernas tortas
Vindo na minha direção todo emocionado
Mascando chiclete.

O espelho
Almejou ser algo na vida escondida
Produzindo intermináveis sons e ruídos
Combinando palavras sem nexo ao acaso
Não aguentou.

O espelho
Quebrou.

sexta-feira, 26 de março de 2010

POEMA A UM PLANETA INEXISTENTE

A angústia de pressentir
Um amor inexistente
Sua falta pulsa
Nos corações alienados
Botões e ogivas
Mísseis e bombas
De um “ballet”
Macabro
Mortal
Sinistro
Basta!
Basta de crianças
Famintas
Basta de pessoas
Assassinadas
Por regimes insensíveis
Basta
A uma Humanidade
Que tem
Corações de pedra
Olhos vendados
Ouvidos tapados
Lábios cerrados
Bebês híbridos
Filhos radioativos
Pensamentos passivos
Cérebros inativos
E a rosa, a rosa, a rosa
A Rosa de Hiroxima
Perde uma a uma
Suas pétalas
De uma esperança
Maravilha
Agora sem cor
Nem cheiro
Insossa
Inconsistente
Caem por sobre um mundo
Que tem dias
Horas
Segundos marcados
Por relógios
Fissionários
Seu caule ressequido
Pende
Causticado pela chama
Radioativa
De um planeta
Qualquer
Que foi
Enveredando pelo Futuro
E que hoje
Não mais existe
Não mais.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Gostaria de poder te dizer muitas palavras

Gostaria de poder te dizer muitas palavras,
mas elas se param na minha garganta,
Minha garganta seca e sedenta de luz e ar.
Gostaria também de poder evocar algumas dezenas de anjos alados
daqueles que a gente vê nas igrejas
E na mente de alguns homens,
mas eles também me fogem ao alcance.
Fogem rápidas de mim as palavras que não digo; voam aladas
e fico sem voz.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Há um cheiro que se esconde

Há um cheiro que se esconde dentro de mim, amargo,
De mim emana-se;

Há muitas e mutas cousas escondidas neste odor.

No odor que escapa de mim como uma líbelula afoga-se no pântano,
Coaxam sapos sobre minha folhas;
Pode parecer tolo evocar tais imagens,
Mas de que se faz a poesia senão de uma série
De tais bobagens?

De tantas e tantas cousas outras, outras coisas
E enumerá-las pode ser uma tarefa
Arriscada.

No odor que de mim se exala esconde-se um fruto podre,
Fruto de podridão divina – a centelha da eternidade que em mim se acende
E que em mim se apaguem todos os pontos luminosos, circunscrevendo
Meu pensamento simplesmente a uma meia dúzia de pares de meias sujos,
O copo de leite esvaziado sobre a cabeceira, lençóis amarfanhando-se
Num colchão preguiçoso.
Um amanhecer onde os corpos recusam-se a deslizar
Para dentro do mundo,
Para fora de si mesmos e de seu mundo compenetradamente
Único, particular.

No odor libélula que de mim foge, batendo as asas com vigor,
Nesse odor fujão, coaxar matinal, tão amargamente cotidiano e vulgar,
Esconde-se um outro odor, esse sim,
Imperceptível.

sábado, 20 de março de 2010

CONTINUIDADE – o retorno ao discurso, o enganoso retorno

mas me disseram me que muitas palavras usadas no cotidiano eram pecaminosas,
e eu passei a tremer de temor a cada vez que uma boca aberta a proferir
sortilégios e sacrilégios;
passei a pregar o retorno à simplicidade, à vida campestre e à limonada,
apesar de mais ninguém querer me ouvir.

e ficar calado, num protesto mudo, passou a configurar-se para mim
como uma solução, a melhor que havia me sido apresentada até este dia
e os seguintes;
em silêncio, comia, andava, ia aos shoppings, datilografava no escritório,
tomava banho, dançava na noite, fazia minhas compras e, aos domingos, ia à missa;
foi uma heroica tentativa: em silêncio, algumas pessoas passaram a me ouvir,
sim, sem falsa modéstia, talvez possa dizer que todos me ouviram então e,
julgando-me amparado por meu gesto, passei a falar com todos, no mais absoluto dos silêncios,
e, mais uma vez, ninguém me ouviu.

perante tudo e todos, vi uma simples verdade, a verdade que não se discursa, o paradoxal
de minha necessidade de comunicação:
resolvi me calar, me calar, calar-me da maneira a mais absoluta possível,
faze de mim uma imensa lacuna, reticências infinitas (e não delas que saem os três pontinhos?)
e, no abissal oculto em cada segundo desta minha antirredundância,
fazer emergir (ou afogar, o que é o mesmo) meu Duplo, meu inexistente Outro,
meu improvável Eu.

(87/02)

sexta-feira, 19 de março de 2010

no meio do caminho

no meio do caminho tinha pedra no meio da caminho

que saco.


......


no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho

não sucumbirei.



já sei.



vade retro
escavadeira.



bri lhan te.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Poesia

E a poesia dormia
E sonhava,
E em sonho cavalgava louca
Solta em pradarias
E uma poesia louca delirava
A pobre poesia era só sonho, e sonhava
Com seu grande dia
O dia em que, libertada,
Poderia sair do que se dizia
Impedir-se de ser mediatizada
Por um sentido que a trairia.
A poesia – amor platônico? – ria deitada
Em transe, e se imaginava poesia.
Poesia não intermediada,
Poesia que o ar carregava, poesia vida,
Pois só a vida é poesia.
Mas nossa poesia, infeliz, não é vivenciada
E recusa-se a falar e, calada,
Só sonhava um sonho de maresia,
Uma maresia calma que a banhava
E cobria o sonho pouco desta poesia
De uma fina película de areia,
Areia fina,
Fria.

A poesia pouca e fria se deixava recobrir de areia
E a areia da maresia do mar da palavra porte forte de nossa pobre poesia
Calou-a, e ela se fez uma estrela marinha.

quarta-feira, 17 de março de 2010

NIGHT IN GLORY

p/rodrigo g. lopes
ieda regina tanaka




: see
autumn
out
and now
weightness
he gets
over
and gilds
(golds?)
october
(when
a leave
is so
that glows
on memory)
slow
each color
shining
the glory
the sun’s
to ours
see
it’s autumn
at all
(out
& now)
when
a face
(that’s all)
that falls
on memory

.

(18.11.88)

segunda-feira, 15 de março de 2010

SOBRE UMA CANÇÃO DE EGBERTO GISMONTI

Eis que nasce o mais belo poema
Sonho de luar
Diluído nas águas da noite
O coro se eleva
Cantando belos hinos
Ao Sol que já se vai
Pássaros em revoada
O farfalhar das asas planando
Doces e suaves
Pela infinita vastidão
Do meu Ser
Evocando belas sinfonias
A partida é uma necessidade
Tão dolorosa
Quanto imperiosa
Mas que se impõe
Majestosa
Como o final de uma música
O coro de vozes parece mais distante
A Lua já desponta no Céu
Seu
Manto de estrelas
O mar continua a banhar
As conchas angustiadas
Abro as asas
Voo de ida
Partida
Sem volta
Ao irmão céu.

É o fim.

Ou tavez o fim
Seja apenas o começo
Um eterno recomeçar
Que nos acompanha
Homens-fênix que somos
Ranascendo das cinzas
E de nós emergindo novas asas
Para alçarmos voo
E alcançarmos os Céus
Num esforço sublime
Suavemente adocicado
Constante.

Não sei.

domingo, 14 de março de 2010

POEMA IMAGINÁRIO:

Uma brisa suave
Uma gota de chuva entrecortando os céus
Num percurso desconhecido
Um raio de luz que o Sol pare
Desfaz-se em reflexos multicores
Pintando o céu
Uma nuvem a plainar no ar
Suspensa por fios invisíveis
Pequena marionete do cenário
Que se desvenda nesse único instante
Um sorriso baila
Gargalhada irreverente
Ecoando ar afora
E atingindo o Infinito
Um amor pairando
Mesclando todos os elementos
Com uma doçura indefinível
Paz
Bem quase que utópico
Mas ainda imaginável, enfim.

sábado, 13 de março de 2010

poema vão

Puxa vida, disse eu, quantas pequenas coisas a gente se esquece de dizer
E de fazer;
Tantos objetos passam pelas nossas mãos sem que sequer
Demos conta disto;
Muitas coisas há que poderíamos dizer, ou sussurrar
Sem que isto nos pareça tolo, fútil,
Inútil;
Puxa vida, voltei a dizer, puxa vida.

sexta-feira, 12 de março de 2010

CIRCENCE 2

Naquela noite,
Nem o Sol se pôs;
Ficou na expectativa
Escondido sob arbustos e folhagens
Esperando o desfecho

Todos esperavam tensos,
Numa pesada atmosfera pudica e esperançosa.

Aqueles
Ficaram em suas casas
Com suas janelas semicerradas

Aquelas
Que ninguém consolava
Postaram-se em suas camas
Sobre colchas e fronhas
Todas chorosas.

Subitamente,
Tudo se encerrou.

Com nada mais
Nada menos

Que um dramático
Ponto final.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Poema a um pequeno defunto

Extinta, a Alma se vai
Singela
Criança
Esperança
De que um dia
O que houver
Haja
De haver
(Semântico!)
Transplante meu lábio
Ao pequeno defunto
Não proferirei injúrias
Em teu nome
Sublime
So be
Só.


Adeus.

terça-feira, 9 de março de 2010

Mulher

Tenta-se passar de fininho
Na sua sorrateira posse,
Mas não se consegue:
Teus olhos de águia sedenta
Não permitem desvios
Nem desafios;

Tenta-se ouvir o teu canto
Um uivo ferino que raspa
O hímen da noite;
O negro no açoite
Diz que estás fora e não quer te chamar;

Tenta-se abraçar o teu corpo
De fêmea ardente,
Mas que ninguém tente,
Pois nas tuas armadilhas de fogo
Se perdem gregos e troianos,
todos os anos;

Bruxa maldosa, feiticeira do profano,
Perdoa meu engano;
Deixa eu coifar os teus pelos,
Brincar de amor em teus seios,
Pr’eu te afogar em teu manto.

Pr’eu, em tua tumba soturna,
Padecer em teu pranto.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sol poente

(a Gilberto Mendes)

perdão.
mas que tolice, vindo ao mundo,
entrar com um pedido de ressarcimento de despesas.


dois dólares, a casaca.
os fios crescem do solo rentes às telhas,
sim, senhor, aí, por favor, não me recrimine,
a tolice não é minha, apesar de todos os cuidados,
as meninas desabrocham pelas ruas às cinco,
o mundo perpetua-se por sobre todos nós,
à nossa revelia.









e essas longínquas regiões? alguém pensa nos homens dos desertos,
e esse homem há em alguma parte? não há o pigmeu senão
em suas imagens, não há a fome senão na piedade, não há
o estranho fora dos olhares espargidos, não há a natureza
além do Greenpeace, e que nos importa o quanto nos espojamos
nessa ausência do que é cúmplice? nada nos importa mais,
hoje e sempre, onde o mundo trespassa-nos, para além
de toda revelia.




perdão, o sol poente tampouco há de se importar, mesmo
que eu fosse a voz de Billie Holliday, quem sabe uma
tempestade venha? o raio é a lembrança mais próxima
daquelas mortes nas fogueiras, mesmo sem o tempo,
eu sei das horas. as meninas se espalham sobre o asfalto, amor,
os fios crescem, os homens dos desertos, o vento noroeste,
o mundo que nos esfola.

domingo, 7 de março de 2010

TESTÍCULO

ou a pedra de seu sumo agrotoxicamente
lambidas a fio
saborosas sucatas de lixo
eu não sei como
explicar
sou eu, e talvez alguém mais
queira
dividir os méritos de minha personna
(non grata)
não crias tu em meras viagens, e alucinações
não te comovam.

não valem a pena, não merecem uma parte sequer
de sua rara atenção:
são tão-só meras gotículas de strass, simples
reflexos de cintilações
em branco e preto.

sobre elas, não se derramam as lágrimas
não se simula a noite
num parco pedado de brisa marinha.

não se brinca mais nesse pátio de teias de aranha.

sábado, 6 de março de 2010

foi num dia qualquer

foi num dia qualquer, num canto de rua
num conto de lua
num concerto feito seresta

tentativas e seminários e emissões,
e beijos de lábios secos

a cruz pende sobre as cabeças
sobre a porta,
a cada entrada me angustio.

irás cair, pergunto-me intrigado?

nem violinos me respondem

no delírio deste recital,
os rococós se acumulam,
os rebusques e os detalhes se amontoam.

no delírio deste sonho,
quero ser este pesadelo sombrio
estas ovelhas que pulam e saltam cercas,
e invadem palco e plateia aos berros de oboés
e trompetes

a sereia pisca, e me retrio em meu banco aveludado.

sexta-feira, 5 de março de 2010

parcamente

parcamente, secreto secretos secredos
se credes em mim esparsa figuração cenicais
conclui teu credo (estas orações)
te aguardo
tesperoem cadacanto
nem sabes quen soy
nem eu
ma que minporta, pô
eu quero é mais.

quinta-feira, 4 de março de 2010

INTERFERUS INTERROGATORIUM

E não é que lá estava eu, sentado num banquinho de madeira
(Como se isso fosse a coisa mais importante do mundo)
Quando me descobri, descobri-me sentado num banquinho
De madeira;

Foi estranho;

Eu, me achando a coisa mais importante do mundo,
E descubro a coisa mais importante do mundo
Sentada num banquinho, fazendo nada (e em se tratando dessas coisa
A mais importante
Deve ter uma significação profunda e complexa o fato dela estar fazendo
Nada);

Comuniquei o ocorrido à minha mulher (como se isso fosse possível)
Mas ela riu de mim
E pediu-me que não a aborrecesse mais
Pois que tinha mais o que fazer (certas pessoas têm a mágica capacidade
De sempre terem mais o que fazer);
Ergui a voz a meus filhos e netos e a seus brinquedos de plástico
E carmesim purpúreo,
Mas eles não me ouviram.

Fiquei mais algum tempo sozinho com minha perplexidade.

Não, não me conformei: abri a porta da casa e saí às ruas
Tinha que avisar a todos de minha descoberta bizarra (quem diria!
A coisa mais importante do mundo – e, obviamente, aquela pela qual
O mundo rodava e as nuvens andavam, pela qual os orixás faziam previsões
E os soldados marchavam – ei-la inerte, passiva, com olheiras profundas,
Uma barriga flácida, a barba por fazer!); todos, todos, deveriam saber
Disto;
Eu gritei para todos os que passavam, rindo, assustando, e, quando isto
Não bastou, eu fui aos jornais matutinos e vespertinos, às revistas semanais
E às mensais; e, quando estes não me ouviram, eu acudi à sabedoria das
Emissoras de televisão dizendo-me um grande sábio, um conhecedor de
Oráculos; escrevi faixas, imprimi panfletos, realizei comícios,
Mas nada, nada adiantou,
Ninguém me ouviu;

Desacreditado, descrente, atravessei a soleira e fechei a porta que abrira
Com tanta força;
A mulher num canto, filhos de olhos esbugalhados espreitando do corredor,
Sentei-me no banco de madeira e, deste (aparentemente) simples banquinho,
Contento-me em contemplar a coisa mais importante do mundo
Sentada num banquinho de madeira
Fazendo nada.

quarta-feira, 3 de março de 2010

... e o tempo era uma casa de paredes largas

“... e o tempo era uma casa de paredes largas e caiadas quando o homem lá chegou. E estando ele cansado de sua jornada, as pernas doloridas e os pensamentos em desordem, resolveu fazer daquela pequena casa sua morada. Entrou e observou bem aquelas paredes manchadas de nada e procurou entre elas o que poderia vir a constituir o futuro, mas não conseguiu. O homem contemplava o tempo, e este, ao homem; porém, haja vista que ao tempo foi dado um fluxo, o homem, intimidado pelo que lhe pareceu uma sabedoria imensa, baixou os olhos e deixou-se contemplar. Uma vez habitando o tempo, o homem viu-se mergulhado nele; ele, um nômade, viu-se prisioneiro de um tempo que agregava tudo o que já não era – o tempo passado; de um tempo esvaziando-se a todo instante e a a todo instante remetido – o tempo presente; e de um tempo vago para o qual ele sempre se dirigia, independentemente de seu desejo – o tempo futuro. Uma vez habitando o tempo, o homem foi habitado por ele: o nômade quis partir, um dia, e, estando encharcado do sentido do tempo, este tornou-se tão caro a ele que o homem não pôde partir só. Então, tempo fez-se memória, para que o homem pudesse partir sem nunca deixá-lo.”

(Do ‘Livro de Memórias’ de Erma Bonchavis, a Tesa. Datado de 03.11.1565)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Poema gaulês

Ai, Deus:

Ora pois que mariposas
Perseguidas e sem caule.
Cujo gosto não se sabia
Qual,
Por minha sopa adentraram,
Comendo letras analfabéticas,
Linguagens, grafismos e,
De sobremesa,
Sonetos ao molho inglês.

Que dirá o Rei, ó fariseus
Sem nome, alma, piedade!
Que faria ele sem seu verso
Rítmico, sua estrutura
Rígida, seu provérbio
Gálico?
Sem o orgulho da labuta
Prestada ao ponto-e-vírgula
Senil?

Sabereis em breve, pequenos alados,
Pois que o juízo se aproxima,
E a espada curta,
Mas breve.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

RETIFICO

retiraram o relógio em frangalhos
não soube a hora, e isso foi demais para um relógio de família
até hoje não retornou.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

numa casa de família

tavali.
não cheguei a ver por algum motivo qualquer.
tavali.

não cheguei a notar não sei porquê.
não notei a presença
sequer a ausência
do mesmo.

tavali.

esquisito.

tavali.

nunca saberei o quê,
será eterno vácuo.

mas tavali.

um fragmento nulo de nada,
um pedacinho de algo que não sei o quê.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

PENUMBRA

É noite. A casa dorme soturna e sossegada na madrugada que acena longinquamente um adeus. O garoto continua em sua indiferença quase mórbida, de olhos cerrados, fechados, quietos com os lábios. A sala exibe sinais, código de uma festa antepassada, fóssil, antiga, anterior aos próprios habitantes. No armário da cozinha, esse recanto familiar e culinário, só a vela ainda pensa, maquina ebriamente, de pensamentos embargados de vinho, táticas e guerra, poderes e podres, lutas e batalhas. O mundo será meu, diz ela inaudível.
Estamos salvos. Pelo menos até a próxima festa.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

HEI

Tchau, tchau, tchau, ...................

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

BOLÃO

A criançada esfomeada resguardava impaciente um lugar, já que a disputa era acirrada. O garoto (ainda) indiferente tomava lugar de honra na mesa de fórmica. Patati, patatá, blábláblá. Glub, glub, glub. A faca penetra o bolo guiada pela mão certeira e indiferente do garoto. Nhac, nhac, nhac, nham, nham. A vela azul, antes acesa, recosta-se vagarosamente na dobra da toalha, descansando um pouco para, breve, dar início ao seu grande plano.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

RÉPIBÃRTDAITOYÚ

O bolo era redondinho e simples, de chocolate e coco. Coisa pequena para esses tempos duros de austeridade econômica. A mãe subia e descias as escadarias da casa tal qual barata tonta, apressada nos preparativos finais da festinha. O menino jogado a um canto da sala vendo televisão desatentamente. Num canto esquecido a vela azul eclodia em silêncio sua consciência adormecida por séculos e séculos, já imaginando algum plano maquiavélico. Dois aniversários nunca são iguais, meditava de si para si.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

SPLASHHH

E, por fim, veio o dilúvio. Raios saíam do olhar, faíscas nada desprezíveis de Belo e de Todo. Arrebatou-a com todos os drapeados num ciclone molhado de chuva e, sobre os pingos que lhe escorriam pelo rosto, nuvens descarregavam seu contéudo sem pesares. A borrasca foi intensa, e breve. Retirados os furacões pela porta dos fundos na cândida superfície daquele (assim suposto) calmo lago de águas calmas, restava um pequeno bote. Nele, um frade fazia o sinal da cruz.
Amém.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

OOOOOHHHHH!

De sandálias saltinho anabela, entra um daqueles franciscanos com cara de malucos que, quando em vez, apareciam nas portas das igrejas e dos açougues para pregar as tentações da carne e do espírito. Geralmente são divertidos, mas ligeiramente impróprios para os menores de treze primaveras, graças ao conteúdo explicitamente explícito de seu fraseado borbulhante como champagne e do cativante brilho de seu olho nu. Sentou numa das mesas de canto, discreto como nunca o fora. Anos e anos de sedento o fizeram assim, calmo, calado, apesar de agitarem-se as águas sob sua superfície de lago plácido. Uns pressentiram que sua tempestade se formava, mas outros nem isso fizeram.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

TRÈS EXCITANT

O perfume dele era estonteante, rescendia a fêmeas em êxtase, fogosas, sedentas, bem ao estilo sexo-explícito-em-cima-da-mesa-de-jantar-num-domingo-vendo-sílvio-santos. Ela era máscula em sua virgindade franciscana, só depurada e deliciada pelos dedos que lhe adentravam zíper nas noites de drive-in. Na danceteria da cidade, eram os únicos que dançavam em plena liberdade. Os outros se ocupavam com aspectos mais importantes desses mesmos eventos, como jogar dominó ou coçar ora com a esquerda, ora com a direita : um pouco de criatividade no sexo torna as coisas mais divertidas, sussurravam entre si, entre aspargos e cenouras defumadas que ninguém comia. Eu, hein!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

D’AMOUR

Parabéns, queridinha, dizia o noivo extasiado.Você está perfeita esta noite. Não sabendo o porquê da ênfase do dito cujo, apesar de também se achar ótima naquele drapeado, sorriu um sorriso descartável e ensaiou mais alguns passos ondulantes. Charlestown é simplesmente adorável, não é?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

surpresa

sempre me apanho em devaneios largos ou as coisas me apanham: um tropeção, o bom dia velho de todas as manhãs, ou mesmo um miserável anônimo. ontem foi um velho sem uma das pernas, esta manhã presenteou-me com uma menina e um bebê que ele carregava. não vi seus olhos (e eu sei, ela os tinha, quem não os tinha era eu); rápido, tirei uma nota dobrada e entreguei a ela, que assentiu. todos tão conformados, ela e eu, o devaneio e o bebê olhando sem surpresa para a fila de carros (que a ele devia parecer interminável). pressinto: passarão os anos, eu por eles talvez mais que eles por mim e, enfim, o reverso das coisas virá; serei eu o anônimo no vaso comunicante das misérias.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

CLIC

Acaba a força, os personagens estacionam. Parados na tela como imagens de vento, de vapor, de cera, estáticas, inertes, sem vida. O garoto faz um muxoxo, ameaça chorar. A mão da mãe sugere que desligue o vídeo, é hora de nanáa. Ai, tá bom, vai! Amanhã será um novo dia, amanhã haverá sol, brinquedos, sorvete no congelador, poeira no tapete da sala.
Clic. As manchas se desvanecem, e o bebê dorme quieto.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

OPS

Não sabem o que fazer quando veem-no com um Arno na mão. Céus, gritam em uníssono, sendo a cor rosada de suas faces lívidas subitamente substituída por um amarelo-bu-que-susto-não?. Nada se fala mais, nada se diz. Só o cheirinho de sachê de pêssego na sala de visitas. Quero mais bolacha, grita o minino. O filme tá bãããããão!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

FADUS FADUM

Ora, pois, pois, não é que adentra salão adentro um casal de portugueses abstracionistas (não sei se Mabe ou Fukushima). Plenos de vitalidade, a mancha amarela enlaça com pura graça o roxo-esverdeado da cintura, sorrisinho indelével, esboço de saltito. Mas que lindinhos são!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

AIUI AIAI UIAI UIUI

Rola a roleta, a esfera corre em círculos. Luz vermelha bate e volta ao holofote. Qual? Difícil dizer. São tantas as lâmpadas que eu me perco na procura. Esses cassinos são importantes apesar de não essenciais. No prazer do ludismo afoga suas mágoas, sufoca-se nas anáguas das prostitutas que povoam os dados. Uma, duas, três, quatro, cinco, sei em cada face branca. Façam suas apostas.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

GRANDES IDEIAS EM P&B

Pulou sobre os edifícios sem ter medo de se enroscar nos fios do terror
E passou por cima de nossas cabeças, com aquele inconfundível ar de bicha louca;
Jogou tulipas e madressilvas e outros apanhados pelas matas e jardins bossais
Sem se preocupar com os comentários dos pequenos burgueses das províncias locais
Que diziam ser ele a própria encarnação da erisipela, do sarampo e da disenteria amebiana
Ignorava esses comentários ofídicos com a sabedoria de um mamute (sequer os discutia!!!)
E, apesar do espanto de todos que ouviam, achando aquilo uma ave ou uma alucinação maluca,
Balançava suas trancinhas chiquita-baiana e nem ligava.

Era um rapaz com muita personalidade, um verdadeiro avestruz sem penas.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Definição – I

Era como uma trilha fraca, frágil,
Sem profundas intenções,
Nem idéias brilhantes e sóbrias.

Um paetê sem reflexos,
Uma pluma depenada na sua essência
Mais plúmbea.

Um balão cativo cheio de vácuo,
Um vazio de ser.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

trechos da bíblia da província

no fim dos tempos

I

e eu vi com meus próprios olhos quando as águas se incendiaram em lamas
onde se afogaram todos os ímpios;
e senti o cheiro da carne ardendo em chamas, e gozei neste inferno.
e os profetas também eram ímpios, impuros, não dignos das bênçãos do senhor;
e eu os espantei em pleno vôo, como se faz a um bando de moscas enxeridas;
e eles se assustaram, e se enraiveceram, e decaíram em direção aos templos de outrora
e eu me ri da sua tola infâmia.

II

pois o senhor é meu pastor, ele está ao meu lado
e eu sou uma tola ovelhinha de quem ele retira lã e leite
e eu me excito com seu toque macio em meus seios
e me masturbo pensando em seus lábios tomando meu líquido morno;
e todos se escandalizam, e me apedrejam, e me julgam um escriba, um fariseu;
mas eu simplesmente os ignoro, e sonho todas as noites
em afogá-los num copo de leite
gelado.

III

e eu finjo que vivo, e vi os verdadeiros viventes em um ou talvez dois palcos,
encenando diodos, e meu véu se ergueu de supetão;
e todos se assustavam mais uma vez, e mais uma vez eu não me importei,
pois o senhor está comigo, ele me acompanha para onde quer que eu vá,
e ele deu uma porrada nos que me incomodavam,
e eu o beijei com gratidão.

IIII

na madrugada, coloquei uma pitada de lascívia em seus dedos rosados.
pura gratidão pela riqueza de seus enigmas (sete deles).

domingo, 7 de fevereiro de 2010

livro das províncias de ego

a mitologia segundo id

I.

exaustamente, ele criou o universo e os outros deuses, além de algumas baratas
que não ignorou, apesar de serem vãos sopros de sua formosura.
descansou semanas a fio numa casa de massagens lendo tio patinhas nas bibliotecas sem escadarias,
e assustou-se ao ver como podia fazer o tempo passar depressa
se enrolasse seus bobs.
os homens nesses tempos bravios eram fortes e vazios, com membranas de éter,
e nenhum pensamento entrecruzava esse ar, permitindo total calmaria.
mas as tempestades começaram a azucrinar os seres mais susceptíveis de tal,
e ele criou a neblina para impedir que visse além
dessa tênue cortina
imóvel.

II.

e antes que viessem as religiões e os religiosos, ele criou os puteiros
todos se deliciavam nessas centrais de orgias.
daí vieram as freiras e os padres e os rabinos e a polícia e os vizinhos,
e ele criou a impotência para castigar aqueles que o combatiam
e todos, impotentes, bateram uma punheta
em retirada.

III.

e os homens se desligaram dele, e criaram seu próprio mundo, seus próprios refrigeradores e tapetes de camurça e capachos,
e se esqueceram que algo além de aves sobrevoava suas cabeças
e ignoraram que algo além dos ventos acariciava seus rostos nos dias de desesperança;
e ele ficou triste, e ele se retirou como um relógio velho, o relógio dos tempos que se foram
sem dizer tchau;
e até hoje não voltou de seu recanto de veraneio
desejo
e frustração.

saiu de fininho, deixando a porta entreaberta e dois tomates numa geladeira desligada.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

relatos verídicos da bíblia de ego

Quem seguiu teus passos na noite escura
e pelos degraus da catedral
central
viu quando fugias pelas sacristias?
Um mistério sem solução,
Vulgar sacristão.

deixa que a virgem te abandone nessa fuga de ti;
ela te deixará sobre macias almofadas de cetim, o tecido da heresia
e dirá para repousares que a viagem foi exaustiva
e que estás cansado de si mesmo, e que não queres mais profanar
seu corpo
que fostes o melhor amante de toda a Palestina e arredores do Oriente Médio;
que só tu sabias como acariciar sua pelae de um jeito que alucina,
que só teu corpo satisfaria seu ser,
mas que era necessário que parisse mais um neto das estrelas.
para que, no futuro, quando os italianos comessem macarronada com molho
ao sugo e um pãozinho,
se lembrassem que mais alguém curita bracholas.

levassem a mão ao peito em reverência

e dessem os restos ao cachorro mais próximo.

a virgem partiria, então, com seus apetrechos de mulher e sua carne macia,
e provavelmente a primeira noite seria a pior delas,
pois acharias que jamais se habituarias a sua falta,
como poderias viver sem seu hímen ambulante?
ela era a parte de ti que perdeste nos cassinos, com outros jogadores
era o que temias ser nas vielas das ruas, quanto fostes mero passante (lembras?)
mas te habituarás entre um trago ou dois,
e acelgas e estrelas do mar iriam postar-se ao seu lado, condolentes,
e quem sabe abrisses até
um restaurante natural.

apenas um vestígio ou dois indicariam à sua clientela o ocorrido;
uma almofada pendurada em berço esplêndido em lugar de honra e síntese,
as estrelas marinhas em teus olhos, as acelgas como garçonetes,
e teu hímen choroso, às busca de quem o desvirgine.

num canto da sacristia, o cão devora os restos de massa e molho inglês.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Quieto, pede o quorum.

há espetáculos que nunca se vê.
mas visões espetaculares os precedem.
anunciam-os trombones e gritos de cães vadios
(sem rumos)

sabem para aonde não ir, os vikings do pensamento.

delírios povoam o fogos de chams que se apagam
e que se acendem

minhas riquezas são sábias,
mas não fazem grandes enigmas:
elas o são, querida, e eis aí o nada mais óbvio.

as gripes as facinam, com seus vírus purulentos
de charme vão
sem sumidades;

perguntas populam e criam margaridas,
que vendem em pequenos ramalhetes
nas esquinas de mendigos e piranhas
fauna corner

inglês aprendi, e outras línguas que não a tua ferina
que entrecorta meus lábios sem mesuras
e percorre meu corpo sem licenças

cansou-me a loquacidade dos teur termos de sábio tolo,
e milhares de vezes li nas nuvens e nas xícaras
seu hieróglifos.

querido, eu sou semita
não peças para atingir o abissal
sendo eu mero pardal.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

THALASSA!

Escrever não deixa de ser um tipo mascarado de prostituição;
É render-se a uma tentativa de comunicação
Quando se sabe que tudo que diz respeito a tudo é completamente secreto, misterioso,
In co mu ni cá vel .
Escrever é fazer uma pantomima em duas dimensões, boa ou ruim, aceita ou
Inaceitável,
Sobre como seria a comunicação entre uma clausura e as demais,
Se isto fosse possível.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

ÓSCULO

Não tenho nada a dizer.

E é neste paradoxo que desenvolvo minha antifala, meu discurso vazio
(perdão!, não vazio, com um pontinho preto numa página
Amassada):
Nada a dizer, nada a declarar, não há nada a ser dito
(o que quer dizer que há algo a se dizer).
E é neste aparente paradoxo que desenvolvo minha procura entre tanto
E tantos que dizem e que se diz, sem que realmente nada haja para ser dito:
Procuro o que não dizer, e é só isto que digo:
O que não digo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

sim, escombros restam

sim, escombros restam,
esparsamente.
estrelas se aninhavam
na onírica liturgia
da noite.

na mística,
a luz se confundia com
o colostro morno,
que o bebê deixava
escoar
sem dissabores,
sem sabores.

minerva se recolhe,
em seu leito de paz
e luxúria.

domingo, 31 de janeiro de 2010

na entrada

pedem-se garantias aos que adentram estes delicados limites, já que nem molduras os delimitam em suas ruas
sem asfalto,
e não se garante que aqueles que o adentram lograrão sair,
já que das diversas serpentes que habitam suas locações
e das aranhas e tecelãs que tecem seus fios,
poucas não são venenosas, canibais,
ou coisas tais.
te cuida ao penetrar estas vielas, pois não só poemas e urinas se escondem entre os paralelepípedos de jade,
e não só os brilhos de seu povo refletem os espelhos espalhados em lugares não pouco estratégicos,
e não és o único ao sentires uma mão encostar em teu sexo;
são muitos, eu o juro.
procures tudo aquilo que não encontrares, e quem sabe um dia te encontres
rastejando nas estepes em busca de uma gota de ti.
sedento como só tu sabes ser.


ponha alguns espaços pelas linhas de suas memórias, mas não os amplies mais do que possa suportares,
para que teus relatos sejam equânimes e permeados de uma ironia de marmelo,
com pitada de canela;


te submetes à tua própria censura, te apresentas aos teus próprios temperos,
e sintas nas vísceras os próprios temores
enquanto teu gato manso ronrona em desprezo a tua pessoa.


é provável que não peasse, mas valha-se de um dos teus peculiares fonemas,
e saia em desafio.
leve contigo o gato, ele lhe será alguma serventia nas tarefas do lar.

sábado, 30 de janeiro de 2010

maria madalena contempla jesus morto

consagrei no teu corpo um pacto de pranto tolo,
o pranto que se faz força e grita uma canção.
contemplei os teus olhos cerrados, e me forcei a alçá-los
ainda que a manhã não me tivesse trazido a aurora
de outro dia.
calei no meu tato as páginas que escreveria sôfrego
e generoso, ávido, e elegi meu toque
à categoria linguística.
eu te observo agora, deitado sobre meu solo
e ouço um ecoar de desolação nestes horizontes desérticos
que se abrem agora. igualmente agora,
eu vi a piedade, a dor, a súplica e o silêncio;
meus olhos estão gastos.
o ar sopra e sopra agora, e sopra para além do agora,
e perpetua um sopro de pó.
a sua cabeça pende de meu braço e, se fosses joão batista,
ela rolaria para além de meus campos.
ah, e se tua voz se fizesse ouvir agora? e se eu tivesse
o teu verbo, qual seria?
o verbo se fez ausente; para além do quietar, do branco ou
de toda meditação possível,
a vida impôs-se em sua própria ausência.
eu verteria um pouco mais de pranto,
se ele não me soasse salgado do mar que minh’alma secou,
se o sal não afundasse nas fendas de meu rosto erodido
e gerasse outras dunas.
e o ventre mãe outrora retumba um surdo desfiar;
a memória é uma roca
e o tempo um tecelão.
fia, maldito, fia.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ET CETERA

a J.L.Borges


“... pois Alá é bom e justo, e fez com que o tempo escoasse dentro das ampulhates e nos sopros do vento e nas gotas da chuva e em tudo que cai, e fez com que a vida se vivesse em cada grão, por cada brisa e em cada gota e em tudo, um momento de cada vez, pois que o homem, em sua infame posição, não suporta sua vida se esta lhe é posta como um todo sobre seus ombros.

Só há dois momentos na vida de um homem em que o vidro se parte e toda a vida se lhe deposita e brilha em toda a sua perene intensidade, quais sejam o orgasmo e a morte, o que nos leva perceber que estes se assemelham, sendo a morte unicamente o último estertor de um último orgasmo, onde a ampulheta se quebra, o vidro se rompo e a areia cai.”


“Do ‘Livro das Mil e Uma Noites’, noite 459).”

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

PERPETUUM MOBILE

e os homens e os cães e seus passos
e as aves e o ar e as folhas se movendo
e os prédios e as valas e os carros e
os homens e seus passos e
os homens parados
que conversavam.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

poema em mar

a estrela marinha
perguntava ao seixo:
“como deixa o silêncio
cobrir-te as entranhas?”
o seixo, sábio, responde:
“calo e não me expando,
sou de meu tamanho.
o que não é pouco”;
estrela insistente,
“mas teu silêncio perdura
e dele nada emana
a não ser uma possível candura
daqueles a quem
nenhuma palavra profana
a estupidez!”
o seixo quietou-se
até que a estrela partisse
do mar e, feita souvenir,
percebeu no seixo
a sabedoria do semelhante,
do indistinto, do silêncio,
pois este é o único que sobrevive
à intempérie de se existir.

domingo, 24 de janeiro de 2010

POEMA QUALQUER EM TRÊS VERSOS

Fui amante de três séculos, passado, presente, futuro, e dos três senti na garganta
O gozo em espasmos regulares, em pulsações vigorosas como as de qualquer mamífero,
E três vezes, ao fazê-los adormecer, fui ao vaso e devolvi ao mundo seu gosto amargo.

sábado, 23 de janeiro de 2010

brecht

(elegia)

A alma do menino quando nasceu
prendeu-se na placenta e no cordão e ele a perdeu;
Curiosamente, o menino nasceu vivo, não perecendo,
e chorou longamente pela alma que nunca viria a ter
A mãe achou de bom grado tamanha vitalidade
e confundiu a dor do menino em vir
Para dentro do mundo desprovido para,
sorridente, ninar o filho até este dormir.
E ao acordar com o seio da mãe à face
o menino, ávido, pôs-se a este agarrar e morder
Na esperança de sugar nele a sua alma,
mas só colostro o seio parecia ter
E chorando foi este menino e sua mãe o cobria
de atenções, dando-lhe o seio, alimento,
Sono, brinquedos, tudo que ele pudesse possuir
mas do menino veio o homem
Sedento da sede do menino de outrora,
buscando em torno do mundo a alma
Roubada pela vida irrompida em seu dentro
naquela hora
E cansava-se das caminhadas que fazia,
esvaía-se em buscas incessantes e vazias,
Pois tencionava e esperava e seu verbo era a palavra,
e seu esperar era o vazar da fala que não se dizia.
E, calada e esvaziada, a palavra se ia
do homem, e a vida se consumia no seu
Buscar, dia após dia, da alma
tanto que lhe faltava a própria falta que esta lhe fazia
E, a cada palavra acabada no tempo da vida
vazada do homem, o homem vislumbrava sua vigília
E cerrava os olhos, recostava o rosto, adormecia
como se no seio do mundo que o devorava
Pouco a pouco ele encontrasse o repouso de sua procura
Até que dele saiu a última palavra, e o homem foi mudo,
para ter finalmente de volta a alma perdida pois,
Retornado ao silêncio de sua origem, o homem atracou-se
com firmeza à alma de todo o homem
Pois a alma de todo o homem só há
onde a vida do homem não haveria
E o mundo lavou-lhe o rosto com as águas das chuvas, das borrascas e das tempestades
E a vida levou as ausências em suas bagagens
E o homem, atingido por sua alma,
teve o silêncio como morada.


(dedicado a maria alice vergueiro).

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Peirce (II)

sei que posso parecer estúpido,
(tolo)
ou meramente pretenso
em meu gesto de equívoco
(ou quem sabe em bênção)
onde se solvem
todos os findos instantes.

me tremem um pouco os nervos
(coisa pouca)
mas tudo é tão imanente
em meus gestos equívoco
(ou quem sabe em bênção),
equívocos estes solvidos
em toda linguagem possível.

e, findos todos os gestos,
só me restam estes pequenos equívocos;
estes (como já foi dito)
tornam toda linguagem
possível.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

E os silêncios sobrepuseram-se uns aos outros

E os silêncios sobrepuseram-se uns aos outros, o do homem à pedra,
O da pedra ao cão, o de nossos três personagens
Ao leitor.

Eles sentiam-se um pouco sufocados pelo enorme volume das palavras que não eram ditas;
Havia, porém, nesse procedimento uma força insuspeita. Sim, eles pereceberam que poderiam
Simplesmente calar-se, e que o narrador – um espectador pobre de tantos diferentes eventos –
Acabaria por fartar-se em descrever um homem, uma pedra e um cão entreolhando-se
Numa absoluta ausência de sons, que se aproximava bastante
De uma reverência profunda e mútua.
Sim, surgiu entre eles algo semelhante a um elo, uma aliança, uma simbiose.
Eram três entes: um homem, uma pedra e um cão.

Mas tal silêncio emanava das entranhas desta pedra mesma – entre o silêncio e a pedra
Havia somente a distância de uma metáfora.
Súbito, a pedra pareceu uma rocha imensa ao homem; este viu-se invadido por um sentimento
Ambíguo, de desejo de possuir tamanha grandeza dentro de si e, ao mesmo tempo, teve medo,
Medo de tornar-se tão vasto a ponto de perder-se, uma planície imensa ao horizonte,
Tão vasta quanto inespecífica, aberta sobre os abismos de suas fronteiras
E queda nelas.
O homem olhou a pedra, ainda observado pelo cão;
Olhou a pedra com o olhar mais profundo que um homem já dirigiu a uma pedra.
E afastou-se.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

TEMPORA

este tempo
tempo mesmo que nos circunscreve
a tantas monótonas ações
tempo insincero
simulando inscrever em seu ego
a tantas e tantas intenções
é tempo tolo
que finge esgotar em redoma
e engana a si mesmo
dissimulando
sua temporal finitude

este tempo
que se diz conhecer
refluindo
é tempo que,
vindo,
perpassa-se
esgota-se
vaza pelo ladrão
do mundo
e, no fundo,
tudo se passa
como se tudo
não existisse.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Fleuma

O silêncio é uma rocha de poros abertos no vazio das coisas,
E o homem segurava esta rocha com as duas mãos, com os ossos expostos.
Ele lançou para longe de si esta pedra que lhe parecia sulcada demais,
E, pela primeira vez desde que ele foi concebido, tornou-se um mortal.
O homem não notara a mudança que se operava, nele e em seu mundo, este que sempre o rodeava à exaustão.
O homem viu seu gesto transformar-se em algo efêmero, viu o gesto encerrando-se
Sobre si mesmo, e emudecendo seu momento no momento seguinte a este,
E preferiu um mundo aonde todos os momentos fossem os seus mesmos seguintes,
Onde o gesto de seus braços movendo-se no ar fechasse sobre si seu espanto
E ele ficasse ali, braços estendidos, por todos os tempos,
E as pessoas passassem por ele, observassem e dissessem umas às outras,
“Este é o homem de que lhe falei outrora.”

O homem e a rocha mantinham entre si uma relação ambígua, tão ambígua podem ser
A dor e a cumplicidade.
Era a dor que o homem sentia ao contemplar-se nos poros desta pedra,
E era a pedra que via no homem imagem e reflexo desta mesma dor,
A dor de um espelho vazio no reflexo da imagem deste mesmo vazio,
Vazio imagem reflexo inominal de três outras imagens: o homem, a pedra
E um cão vadio que observava a ambos.

O homem e a pedra contemplam-se, ainda hoje,
Apesar da vacuidade que nos assombra quando falamos do tempo deste evento.
Ainda assim, acima de todos os fantasmas que poderiam tê-los assolado,
Um homem e um pedra contemplam-se, ainda hoje,
E nada neles pode nos levar a crer, nem a nós, nem ao cão,
Que um dia alguma das dores destas imagens ainda tão vívidas
Irá tornar-se mais amena
Na memória
Do vazio.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

maresia

aos jesuítas

eu me iludi por muitos tempos julgando-te mais próximo de mim
nos movimentos, no vento, no caminhar, nos passos dados, nas marés
acotovelando-se,
eu iludi-me achando que a cada onda o mar iria ser mais próximo de mim.
até que me tragasse e me fizesse onda, sereia,
ou espuma roçando a areia.
eu até fecundei a orla com um bastão. dediquei-lhe, senhor, palavras
afogadas nas salinas do mar dessas águas, senhor,
serei eu indigno?
senhor, este teu servo deitou-se durante dias e noites à beira de teu ventre
e estas águas tão-somente mantiveram-se distantes, circunspectas,
impassíveis ao meu silêncio (não respondido), às minhas súplicas (desesperadas)
eu ignoro,
eu ignoro, senhor, porque não me recebes em tuas águas, porque não me comunga os pulmões,
ignoro o porquê deste mar vasto sobre quem caminhei com pernas de raízes decepadas
ignora-me,
logo a mim, senhor, a mim querendo estar dentro de ti em sua divindade,
compartilhar de sua luz. eu, aos pés de teus pés à espreita, estirado,
em silêncio, em oração,
em espera.
espero as águas ascendentes das marés, espero os teus braços molhando
minha túnica, conduzindo-me ao teu interior. sim, o teu dentro.
pois onde mais podes estar, senhor,
senão nestas vagas, serenas águas do mar?
senhor, não te afastes assim. não me exijas a temperança,
a exaustão, a contemplação; duas ou três vezes vi seus olhos distantes
e não pude ler nos olhos mortos deste homem afogado, senhor, que eram teus olhos,
mortos, olhos além dos homens, olhos daquele que hoje habita o seu lado.
senhor, eu me deitarei aqui agora, e permanecerei para todo o meu sempre
que eu sei pouco perante a eternidade a quem pertences, mas serei como ti,
o homem de olhos umedecidos por suas águas, o homem transfigurado como tu
o homem que vestiste em um manto de algas, o homem, ah, senhor, isso,
me abraça, a tua túnica é fria, a tua morada é longínqua, eu o
vejo melhor agora, ele tem os olhos marejados. isso senhor,
cega meus olhos para tudo o que não for teu, me leva à
luz do

teu amor

domingo, 17 de janeiro de 2010

e o tempo era uma casa de paredes largas e caiadas

“... e o tempo era uma casa de paredes largas e caiadas, quando o homem lá chegou. E estando ele cansado de sua jornada, com as pernas doloridas e os pensamentos em desordem, resolveu fazer daquela pequena casa sua morada. Entrou e observou bem aquelas paredes manchadas de NADA e procurou entre elas o que poderia vir a constituir o futuro, mas não conseguiu. O homem contemplava o tempo e este, ao homem; porém, haja vista que ao tempo foi dado um fluxo, o homem, intimidado pelo que lhe pareceu uma sabedoria imensa, baixou os olhos e deixou-se contemplar. Uma vez habitando o tempo, o homem viu-se mergulhado nele; ele, um nômade, viu-se prisioneiro de um tempo que agregava tudo o que já não era – o tempo passado; e de um tempo esvaziando-se a todo instante e a todo instante remetido – o tempo presente; e de um tempo vago para o qual ele sempre se dirigia, independentemente de seu desejo – o tempo futuro. Um vez habitando o tempo, o homem foi habitado por ele: o nômade quis partir um dia e, estando encharcado do sentido do tempo, este tornou-se tão caro a ele que o homem não pôde partir só. Então, o tempo fez-se memória, para que o homem pudesse partir sem nunca deixá-lo.”



(Do ‘Livro de Memórias’ de Erma de Ronchavis, a Tesa. Datado de 03.11.1565)

sábado, 16 de janeiro de 2010

o pequeno metro

o metro de cem centímetros parecia-me ter bem mais deles, eu sei,
mas era pequeno e contrito como a piedade de um ímpio, e lembrei-me de alguém
medindo-se, mantido dentro de seus limites, equilibrado como um pêndulo.
de que me vale o metro, se ele não me mede a fé? mas mede meus passos,
e sei: nada sei sobre quantos me distam de ser salvo, perdão, ó pequena salamandra,
é minha alma quem zomba de ti e que te diz assim, não eu.
eu sei que em três ou quatro voltas em torno de mim, de meu gibraltar a meu polo sul
(onde está meu desejo), depois de um extremo a outro de meus braços generosos e meu peito
magro, sim, você me mediria e me teria assim em medidas precisas, como meu corpo me tem
em mim, mas a alma sorri e espoja-se em sua sombra, pois dela você nada sabe, os passos
a serem dados à danação ou ao êxtase.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

guerra

diriam os relatórios oficiais, os jornais, meia dúzia de livros publicados três anos após tal holocausto: mais de dois milhões de mortos nos países baixos, centenas de milhares de bebês chacinados, algumas dezenas de cidades em escombros. penso eu em todos os outros escombros e penso em mim debruçado sobre eles. mas são sete horas, sou um bom menino, meus pais dizem que tudo isso não me diz respeito, e o corredor morno de nossa casa nem me permite a piedade nem o espanto, e a guerra é uma ruína que meus passos fazem solver.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Vou contar mais uma tola história

Vou contar mais uma tola história; tola como todas as histórias que estão fadadas a permanecerem nas páginas de algum livro ou folhetim,
Tola tanto quanto aqueles que crêem nisto.

Um vento frio soprava nas árvores arrancando folhas e fazendo com que as lagartas voassem alto;
o garoto intrigou-se, e perguntou ao vento como este poderia ser tão malvado, apanhando as pequenas bichinhas e fazendo com que elas se fossem de seu ambiente para um lugar tão longe, tão longe que nem ele nem ninguém saberia dizer onde.

o vento aquietou-se em seu cantinho e pensou em sorrir um riso tristonho e vivido, mas não o fez;
o vento pensou também em fazer uma pequena preleção ao menino, explicando-lhe que lagartas são lagartas e os ventos são os ventos, e faz parte da existência dos ventos assim como da das lagartas este tipo de fenômeno, pois que aos ventos foi dado o papel (por quem?) de soprar e às lagartas foi conferido o (não menor) poder de resignarem-se ao seu destino, aguardando que, enquanto mastigassem folhas, uma brisa súbita as arrebatasse e as erguesse para um lugar qualquer – já que não importava a elas qual;
súbito, isto seria discorrer intelectualmente sobre algo que não tem lógica nem nunca será passível de ser explicado; pura e simplesmente,
é.

o vento olhou fundo nos olhos do menino
e o menino olhou fundo nos olhos do vento

enquanto o menino aguardava sua vez de ser soprado para algum canto sem nome.






ambos apreciavam quietos, com uma sabedoria indolente, a imponência simples do inalterável.