domingo, 31 de janeiro de 2010

na entrada

pedem-se garantias aos que adentram estes delicados limites, já que nem molduras os delimitam em suas ruas
sem asfalto,
e não se garante que aqueles que o adentram lograrão sair,
já que das diversas serpentes que habitam suas locações
e das aranhas e tecelãs que tecem seus fios,
poucas não são venenosas, canibais,
ou coisas tais.
te cuida ao penetrar estas vielas, pois não só poemas e urinas se escondem entre os paralelepípedos de jade,
e não só os brilhos de seu povo refletem os espelhos espalhados em lugares não pouco estratégicos,
e não és o único ao sentires uma mão encostar em teu sexo;
são muitos, eu o juro.
procures tudo aquilo que não encontrares, e quem sabe um dia te encontres
rastejando nas estepes em busca de uma gota de ti.
sedento como só tu sabes ser.


ponha alguns espaços pelas linhas de suas memórias, mas não os amplies mais do que possa suportares,
para que teus relatos sejam equânimes e permeados de uma ironia de marmelo,
com pitada de canela;


te submetes à tua própria censura, te apresentas aos teus próprios temperos,
e sintas nas vísceras os próprios temores
enquanto teu gato manso ronrona em desprezo a tua pessoa.


é provável que não peasse, mas valha-se de um dos teus peculiares fonemas,
e saia em desafio.
leve contigo o gato, ele lhe será alguma serventia nas tarefas do lar.

sábado, 30 de janeiro de 2010

maria madalena contempla jesus morto

consagrei no teu corpo um pacto de pranto tolo,
o pranto que se faz força e grita uma canção.
contemplei os teus olhos cerrados, e me forcei a alçá-los
ainda que a manhã não me tivesse trazido a aurora
de outro dia.
calei no meu tato as páginas que escreveria sôfrego
e generoso, ávido, e elegi meu toque
à categoria linguística.
eu te observo agora, deitado sobre meu solo
e ouço um ecoar de desolação nestes horizontes desérticos
que se abrem agora. igualmente agora,
eu vi a piedade, a dor, a súplica e o silêncio;
meus olhos estão gastos.
o ar sopra e sopra agora, e sopra para além do agora,
e perpetua um sopro de pó.
a sua cabeça pende de meu braço e, se fosses joão batista,
ela rolaria para além de meus campos.
ah, e se tua voz se fizesse ouvir agora? e se eu tivesse
o teu verbo, qual seria?
o verbo se fez ausente; para além do quietar, do branco ou
de toda meditação possível,
a vida impôs-se em sua própria ausência.
eu verteria um pouco mais de pranto,
se ele não me soasse salgado do mar que minh’alma secou,
se o sal não afundasse nas fendas de meu rosto erodido
e gerasse outras dunas.
e o ventre mãe outrora retumba um surdo desfiar;
a memória é uma roca
e o tempo um tecelão.
fia, maldito, fia.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ET CETERA

a J.L.Borges


“... pois Alá é bom e justo, e fez com que o tempo escoasse dentro das ampulhates e nos sopros do vento e nas gotas da chuva e em tudo que cai, e fez com que a vida se vivesse em cada grão, por cada brisa e em cada gota e em tudo, um momento de cada vez, pois que o homem, em sua infame posição, não suporta sua vida se esta lhe é posta como um todo sobre seus ombros.

Só há dois momentos na vida de um homem em que o vidro se parte e toda a vida se lhe deposita e brilha em toda a sua perene intensidade, quais sejam o orgasmo e a morte, o que nos leva perceber que estes se assemelham, sendo a morte unicamente o último estertor de um último orgasmo, onde a ampulheta se quebra, o vidro se rompo e a areia cai.”


“Do ‘Livro das Mil e Uma Noites’, noite 459).”

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

PERPETUUM MOBILE

e os homens e os cães e seus passos
e as aves e o ar e as folhas se movendo
e os prédios e as valas e os carros e
os homens e seus passos e
os homens parados
que conversavam.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

poema em mar

a estrela marinha
perguntava ao seixo:
“como deixa o silêncio
cobrir-te as entranhas?”
o seixo, sábio, responde:
“calo e não me expando,
sou de meu tamanho.
o que não é pouco”;
estrela insistente,
“mas teu silêncio perdura
e dele nada emana
a não ser uma possível candura
daqueles a quem
nenhuma palavra profana
a estupidez!”
o seixo quietou-se
até que a estrela partisse
do mar e, feita souvenir,
percebeu no seixo
a sabedoria do semelhante,
do indistinto, do silêncio,
pois este é o único que sobrevive
à intempérie de se existir.

domingo, 24 de janeiro de 2010

POEMA QUALQUER EM TRÊS VERSOS

Fui amante de três séculos, passado, presente, futuro, e dos três senti na garganta
O gozo em espasmos regulares, em pulsações vigorosas como as de qualquer mamífero,
E três vezes, ao fazê-los adormecer, fui ao vaso e devolvi ao mundo seu gosto amargo.

sábado, 23 de janeiro de 2010

brecht

(elegia)

A alma do menino quando nasceu
prendeu-se na placenta e no cordão e ele a perdeu;
Curiosamente, o menino nasceu vivo, não perecendo,
e chorou longamente pela alma que nunca viria a ter
A mãe achou de bom grado tamanha vitalidade
e confundiu a dor do menino em vir
Para dentro do mundo desprovido para,
sorridente, ninar o filho até este dormir.
E ao acordar com o seio da mãe à face
o menino, ávido, pôs-se a este agarrar e morder
Na esperança de sugar nele a sua alma,
mas só colostro o seio parecia ter
E chorando foi este menino e sua mãe o cobria
de atenções, dando-lhe o seio, alimento,
Sono, brinquedos, tudo que ele pudesse possuir
mas do menino veio o homem
Sedento da sede do menino de outrora,
buscando em torno do mundo a alma
Roubada pela vida irrompida em seu dentro
naquela hora
E cansava-se das caminhadas que fazia,
esvaía-se em buscas incessantes e vazias,
Pois tencionava e esperava e seu verbo era a palavra,
e seu esperar era o vazar da fala que não se dizia.
E, calada e esvaziada, a palavra se ia
do homem, e a vida se consumia no seu
Buscar, dia após dia, da alma
tanto que lhe faltava a própria falta que esta lhe fazia
E, a cada palavra acabada no tempo da vida
vazada do homem, o homem vislumbrava sua vigília
E cerrava os olhos, recostava o rosto, adormecia
como se no seio do mundo que o devorava
Pouco a pouco ele encontrasse o repouso de sua procura
Até que dele saiu a última palavra, e o homem foi mudo,
para ter finalmente de volta a alma perdida pois,
Retornado ao silêncio de sua origem, o homem atracou-se
com firmeza à alma de todo o homem
Pois a alma de todo o homem só há
onde a vida do homem não haveria
E o mundo lavou-lhe o rosto com as águas das chuvas, das borrascas e das tempestades
E a vida levou as ausências em suas bagagens
E o homem, atingido por sua alma,
teve o silêncio como morada.


(dedicado a maria alice vergueiro).

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Peirce (II)

sei que posso parecer estúpido,
(tolo)
ou meramente pretenso
em meu gesto de equívoco
(ou quem sabe em bênção)
onde se solvem
todos os findos instantes.

me tremem um pouco os nervos
(coisa pouca)
mas tudo é tão imanente
em meus gestos equívoco
(ou quem sabe em bênção),
equívocos estes solvidos
em toda linguagem possível.

e, findos todos os gestos,
só me restam estes pequenos equívocos;
estes (como já foi dito)
tornam toda linguagem
possível.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

E os silêncios sobrepuseram-se uns aos outros

E os silêncios sobrepuseram-se uns aos outros, o do homem à pedra,
O da pedra ao cão, o de nossos três personagens
Ao leitor.

Eles sentiam-se um pouco sufocados pelo enorme volume das palavras que não eram ditas;
Havia, porém, nesse procedimento uma força insuspeita. Sim, eles pereceberam que poderiam
Simplesmente calar-se, e que o narrador – um espectador pobre de tantos diferentes eventos –
Acabaria por fartar-se em descrever um homem, uma pedra e um cão entreolhando-se
Numa absoluta ausência de sons, que se aproximava bastante
De uma reverência profunda e mútua.
Sim, surgiu entre eles algo semelhante a um elo, uma aliança, uma simbiose.
Eram três entes: um homem, uma pedra e um cão.

Mas tal silêncio emanava das entranhas desta pedra mesma – entre o silêncio e a pedra
Havia somente a distância de uma metáfora.
Súbito, a pedra pareceu uma rocha imensa ao homem; este viu-se invadido por um sentimento
Ambíguo, de desejo de possuir tamanha grandeza dentro de si e, ao mesmo tempo, teve medo,
Medo de tornar-se tão vasto a ponto de perder-se, uma planície imensa ao horizonte,
Tão vasta quanto inespecífica, aberta sobre os abismos de suas fronteiras
E queda nelas.
O homem olhou a pedra, ainda observado pelo cão;
Olhou a pedra com o olhar mais profundo que um homem já dirigiu a uma pedra.
E afastou-se.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

TEMPORA

este tempo
tempo mesmo que nos circunscreve
a tantas monótonas ações
tempo insincero
simulando inscrever em seu ego
a tantas e tantas intenções
é tempo tolo
que finge esgotar em redoma
e engana a si mesmo
dissimulando
sua temporal finitude

este tempo
que se diz conhecer
refluindo
é tempo que,
vindo,
perpassa-se
esgota-se
vaza pelo ladrão
do mundo
e, no fundo,
tudo se passa
como se tudo
não existisse.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Fleuma

O silêncio é uma rocha de poros abertos no vazio das coisas,
E o homem segurava esta rocha com as duas mãos, com os ossos expostos.
Ele lançou para longe de si esta pedra que lhe parecia sulcada demais,
E, pela primeira vez desde que ele foi concebido, tornou-se um mortal.
O homem não notara a mudança que se operava, nele e em seu mundo, este que sempre o rodeava à exaustão.
O homem viu seu gesto transformar-se em algo efêmero, viu o gesto encerrando-se
Sobre si mesmo, e emudecendo seu momento no momento seguinte a este,
E preferiu um mundo aonde todos os momentos fossem os seus mesmos seguintes,
Onde o gesto de seus braços movendo-se no ar fechasse sobre si seu espanto
E ele ficasse ali, braços estendidos, por todos os tempos,
E as pessoas passassem por ele, observassem e dissessem umas às outras,
“Este é o homem de que lhe falei outrora.”

O homem e a rocha mantinham entre si uma relação ambígua, tão ambígua podem ser
A dor e a cumplicidade.
Era a dor que o homem sentia ao contemplar-se nos poros desta pedra,
E era a pedra que via no homem imagem e reflexo desta mesma dor,
A dor de um espelho vazio no reflexo da imagem deste mesmo vazio,
Vazio imagem reflexo inominal de três outras imagens: o homem, a pedra
E um cão vadio que observava a ambos.

O homem e a pedra contemplam-se, ainda hoje,
Apesar da vacuidade que nos assombra quando falamos do tempo deste evento.
Ainda assim, acima de todos os fantasmas que poderiam tê-los assolado,
Um homem e um pedra contemplam-se, ainda hoje,
E nada neles pode nos levar a crer, nem a nós, nem ao cão,
Que um dia alguma das dores destas imagens ainda tão vívidas
Irá tornar-se mais amena
Na memória
Do vazio.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

maresia

aos jesuítas

eu me iludi por muitos tempos julgando-te mais próximo de mim
nos movimentos, no vento, no caminhar, nos passos dados, nas marés
acotovelando-se,
eu iludi-me achando que a cada onda o mar iria ser mais próximo de mim.
até que me tragasse e me fizesse onda, sereia,
ou espuma roçando a areia.
eu até fecundei a orla com um bastão. dediquei-lhe, senhor, palavras
afogadas nas salinas do mar dessas águas, senhor,
serei eu indigno?
senhor, este teu servo deitou-se durante dias e noites à beira de teu ventre
e estas águas tão-somente mantiveram-se distantes, circunspectas,
impassíveis ao meu silêncio (não respondido), às minhas súplicas (desesperadas)
eu ignoro,
eu ignoro, senhor, porque não me recebes em tuas águas, porque não me comunga os pulmões,
ignoro o porquê deste mar vasto sobre quem caminhei com pernas de raízes decepadas
ignora-me,
logo a mim, senhor, a mim querendo estar dentro de ti em sua divindade,
compartilhar de sua luz. eu, aos pés de teus pés à espreita, estirado,
em silêncio, em oração,
em espera.
espero as águas ascendentes das marés, espero os teus braços molhando
minha túnica, conduzindo-me ao teu interior. sim, o teu dentro.
pois onde mais podes estar, senhor,
senão nestas vagas, serenas águas do mar?
senhor, não te afastes assim. não me exijas a temperança,
a exaustão, a contemplação; duas ou três vezes vi seus olhos distantes
e não pude ler nos olhos mortos deste homem afogado, senhor, que eram teus olhos,
mortos, olhos além dos homens, olhos daquele que hoje habita o seu lado.
senhor, eu me deitarei aqui agora, e permanecerei para todo o meu sempre
que eu sei pouco perante a eternidade a quem pertences, mas serei como ti,
o homem de olhos umedecidos por suas águas, o homem transfigurado como tu
o homem que vestiste em um manto de algas, o homem, ah, senhor, isso,
me abraça, a tua túnica é fria, a tua morada é longínqua, eu o
vejo melhor agora, ele tem os olhos marejados. isso senhor,
cega meus olhos para tudo o que não for teu, me leva à
luz do

teu amor

domingo, 17 de janeiro de 2010

e o tempo era uma casa de paredes largas e caiadas

“... e o tempo era uma casa de paredes largas e caiadas, quando o homem lá chegou. E estando ele cansado de sua jornada, com as pernas doloridas e os pensamentos em desordem, resolveu fazer daquela pequena casa sua morada. Entrou e observou bem aquelas paredes manchadas de NADA e procurou entre elas o que poderia vir a constituir o futuro, mas não conseguiu. O homem contemplava o tempo e este, ao homem; porém, haja vista que ao tempo foi dado um fluxo, o homem, intimidado pelo que lhe pareceu uma sabedoria imensa, baixou os olhos e deixou-se contemplar. Uma vez habitando o tempo, o homem viu-se mergulhado nele; ele, um nômade, viu-se prisioneiro de um tempo que agregava tudo o que já não era – o tempo passado; e de um tempo esvaziando-se a todo instante e a todo instante remetido – o tempo presente; e de um tempo vago para o qual ele sempre se dirigia, independentemente de seu desejo – o tempo futuro. Um vez habitando o tempo, o homem foi habitado por ele: o nômade quis partir um dia e, estando encharcado do sentido do tempo, este tornou-se tão caro a ele que o homem não pôde partir só. Então, o tempo fez-se memória, para que o homem pudesse partir sem nunca deixá-lo.”



(Do ‘Livro de Memórias’ de Erma de Ronchavis, a Tesa. Datado de 03.11.1565)

sábado, 16 de janeiro de 2010

o pequeno metro

o metro de cem centímetros parecia-me ter bem mais deles, eu sei,
mas era pequeno e contrito como a piedade de um ímpio, e lembrei-me de alguém
medindo-se, mantido dentro de seus limites, equilibrado como um pêndulo.
de que me vale o metro, se ele não me mede a fé? mas mede meus passos,
e sei: nada sei sobre quantos me distam de ser salvo, perdão, ó pequena salamandra,
é minha alma quem zomba de ti e que te diz assim, não eu.
eu sei que em três ou quatro voltas em torno de mim, de meu gibraltar a meu polo sul
(onde está meu desejo), depois de um extremo a outro de meus braços generosos e meu peito
magro, sim, você me mediria e me teria assim em medidas precisas, como meu corpo me tem
em mim, mas a alma sorri e espoja-se em sua sombra, pois dela você nada sabe, os passos
a serem dados à danação ou ao êxtase.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

guerra

diriam os relatórios oficiais, os jornais, meia dúzia de livros publicados três anos após tal holocausto: mais de dois milhões de mortos nos países baixos, centenas de milhares de bebês chacinados, algumas dezenas de cidades em escombros. penso eu em todos os outros escombros e penso em mim debruçado sobre eles. mas são sete horas, sou um bom menino, meus pais dizem que tudo isso não me diz respeito, e o corredor morno de nossa casa nem me permite a piedade nem o espanto, e a guerra é uma ruína que meus passos fazem solver.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Vou contar mais uma tola história

Vou contar mais uma tola história; tola como todas as histórias que estão fadadas a permanecerem nas páginas de algum livro ou folhetim,
Tola tanto quanto aqueles que crêem nisto.

Um vento frio soprava nas árvores arrancando folhas e fazendo com que as lagartas voassem alto;
o garoto intrigou-se, e perguntou ao vento como este poderia ser tão malvado, apanhando as pequenas bichinhas e fazendo com que elas se fossem de seu ambiente para um lugar tão longe, tão longe que nem ele nem ninguém saberia dizer onde.

o vento aquietou-se em seu cantinho e pensou em sorrir um riso tristonho e vivido, mas não o fez;
o vento pensou também em fazer uma pequena preleção ao menino, explicando-lhe que lagartas são lagartas e os ventos são os ventos, e faz parte da existência dos ventos assim como da das lagartas este tipo de fenômeno, pois que aos ventos foi dado o papel (por quem?) de soprar e às lagartas foi conferido o (não menor) poder de resignarem-se ao seu destino, aguardando que, enquanto mastigassem folhas, uma brisa súbita as arrebatasse e as erguesse para um lugar qualquer – já que não importava a elas qual;
súbito, isto seria discorrer intelectualmente sobre algo que não tem lógica nem nunca será passível de ser explicado; pura e simplesmente,
é.

o vento olhou fundo nos olhos do menino
e o menino olhou fundo nos olhos do vento

enquanto o menino aguardava sua vez de ser soprado para algum canto sem nome.






ambos apreciavam quietos, com uma sabedoria indolente, a imponência simples do inalterável.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

herr

há dias difíceis e indômitos como o curso de uma geleira
em alto mar; a vida desfaz-se sob o sol
dos trópicos. o suor do gelo é semelhante aos meus calores,
e ambos nos desfazemos: lado a lado, ele lá e eu cá,
expirando o mesmo íntimo que nos constitui, a saber,
a fria água de todo o ser,
todos os dias eu acordo algo menos
ainda que tal roubo seja um acrescento.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

a poesia me é difícil como o sorriso

a poesia me é difícil como o sorriso
ou um menino sem nome, onde ela está?
eu vi o homem jogado num canto, roto
e todas as manhãs eu me confronto com
a miséria sussurante à minha volta: bom dia, bons dias.
onde há o espaço para meu vaso de crisântemos?
o olhar que eles me lançam não é piedoso, sequer de bondade,
eu vejo a fome nos seus olhos, eu vejo meus olhos
e desvio. mas que belo portão esse! é art-déco?
nesse cotidiano, as ameaças se sucedem
e eu soçobro: (*) peçam-me versos
(é a estupidez necessária de todo escritor).
mas veja: ali vai, cabisbaixa e faminta
a poesia, fêmea de olhos lânguidos
e onde a palavra vela! em que região?
na fronte o suor,
o rosto a abrasaria; o seio, creio, o pó,
os pés (como o sorriso) lançá-la-iam a esmo;
mesmo as mãos, cujas marcas
escavadas tão bem se prestariam às
paráfrases e metonímias, mas não!
os dias cairiam como grãos
e a erosão conta dela daria.
a miséria, bem o sei, não é verbo,
substantivo;
cabe o conformar-se ao papel o verso,
pois o poema persiste
em sua sina errante de ser vivo.

(*) A partir desse ponto, o poema está escrito a mão, com várias correções.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

jesus morto contempla maria madalena

eu te pediria tempo e paciência, para além do pesar
mas ao tempo cabe os mortos
assim como aos vivos a tolerância;
mortificada, te colocas ente o que sois
e seu devir desinente de ser,
mulher de olhos gastos.
eu te contemplo agora em meu corpo trespassado
e,
se eu fosse o verbo, tu me terias calado
se fosse o vento que sopra para além,
eu seria o pó,
ainda quje não tão sereno,
eu te erodo as faces
como o mar escava uma falésia,
e roem tuas encostas;
escalavradas, em meus ouvidos moucos ecoam
os gritos das rochas tragadas pelas águas,
o cantar das pedras afogadas;
ruem as dunas.
minha dor cessa no primo precipício
aonde a tua se escancara;
rasgado o ventre mãe
corre a areia da memória (duna outrora)
atritando o tempo vítreo.
risca, maldito,
para que eu siga o teu traço duro
de tecelão.

domingo, 10 de janeiro de 2010

a viúva amamenta São Sebastião morto

eu sou morta, uma vez que uma parte de mim jaz
e uno-me em teu gemido ausente como uma cabra que bale;
meu seio é teu, pequenino, e tu o renegas
como o mundo te renegaste outrora, mas não temais
mais; nada mais tens a perder,
tudo o que tens hoje é o tudo que lhe coube,
quão magro és! eu sei que dia virá
onde o meu colostro será teu como este sangue
e ele brotará no teu dorso como petéquias em flor
e teu jazigo será florido,
tão perto tens meu seio de teus lábios,
mas a nós falta a vida, o calor do que é perpétuo,
o sopro que me fizesse leite e a ti voraz,
sumarento;
não, não me enganes, pequenino; e se não fosses a paz
onde te encerraram, eu diria que tu dormes,
não; tu dormes, sim; eu conheço este sono,
e me permito sorrir, pois sei tu mais próximo que em qualquer tempo
deste leite seco de meu seio,
sorve meu leite de dor ausente;
roçando meu seio em teu lábio,
sei que a vida é eterna,

sábado, 9 de janeiro de 2010

a poesia e o tempo - 3

carinha, afaga com a mão leve da navalha,
o tempo goiva sobre a tua mortalha. o toque é breve, contínuo se espaça,
e tua vida rota cambaleia, tropeça,
se espalha e se espoja nos talhos tantos, como o orvalho
ou o pranto. cai, ergue, vivaz, até o sereno talho
que a jaz.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

a poesia e o tempo - 2

minha palavra aspira a impotência própria de toda palavra,
já que só por uma vez o verbo fez-se,
e todo o verbo posterior não escapa de ser somente seu eco.
ela avoluma-se em avalanches, goteja como gutural goteira,
pretendendo-se abissal em suas poças sobre o soalho roto das horas.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

a poesia e o tempo - 1

são trinta e tantos anos contados nas imprecisas ampulhetas
que nada nos dizem de tão prodigiosa
sintaxe: prestidigitador, o tempo sorri os seus roubos
e furtivo acresce de mim tudo quando prescindo
no correr de meus dias. são trinta e tantos asnos
zunindo,
e não sei o que fazer.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Naja

a vida é feia,
menina de olhos estrábicos,
vemos em dobro, vivemos
pouco em cada uma de
nossas metades;
as vistas veem em dobro,
os olhos pestanejam,
o acaso é nada, corre
ao redor dos lagos
cabelos tançados, a menina
corre, o ar balouçando
nos vazios, os brados dobrados
o grito espargido.
a vida é feia, criança,
a vida é feia menina
seus olhos fechados;
a vida é um pouso
na água dos lagos

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

e as gueixas eram plumas e recortes

e as gueixas eram plumas e recortes,
origamis alados;
as gueixas calavam qualquer reflexo possível.

as gueixas pequenos animais emparelhados.



eras gueixas plumas esvoaçam.
recortam no céu
todos os origamis do possível;
eu, expectante,
era um pequeno animal acuado
a teu lado.


e cala-se qualquer reflexão possível.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

joana, a louca, faz amor com seu marido morto

eu joguei a terra sobre teu corpo pútrido
para que nele germinasse a vida
como um grão germina,
e a vida veio,
ainda que não tão bela.
mas a beleza é humana, como a morte;
tudo à volta fenece,
só o teu olho, ao não mover,
o teu cenho úmido polido outrora
atesta o roubo,
roubaram-te a centelha,
mas não permitirei que te roubem as carnes;
quão egoísta tu fosses! a vida mesma coroou-te rei
e ei-la dispersa abraçando a gema,
multiplicada no manto ácido corroendo-te as faces.
não és mais uno, porém persistes vivo nestes mil corpos
caminhando sobre o meu,
e me sussurras no gozo:
a morte nada mais é que uma das formas
de amor.

(Obs.: no título do poema, o A. escreveu a lápis, acima e abaixo de "faz amor com": deita-se com/ conhece).

domingo, 3 de janeiro de 2010

Pensei em pensar

Pensei em pensar,
Dar um lustro no
Vazio das idéias.

Pensei em mim
Pensamentos saudosos
Esparsos remorsos

Pensei em mim
Quebrei meu espelho.

Maldita maldição de bruxa sem ego.

sábado, 2 de janeiro de 2010

BYE

Um dia, segundo dizem as lendas e boatos, criaram coragem. Formaram uma comissão que o interceptou entre dois departamentos e perguntaram-lhe. “Como é que você faz isso?” Ele sorriu aquele sorriso bonito e fóssil, mas nada disse. Principiou a subir os degraus um por um, lento, calmo. Sempre subindo. Passou pela nave da construção como um sopro que se esvai na madrugada.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

BU!

A princípio imaginaram que fosse uma ilusão de ótica, algo acidental. Outros pensaram em hipóteses satânicas, com demônios que se encarregavam de descer o jovem sem o auxílio de uma escada visível. Pois que ele se comportara normalmente ao descer sua escada, escada que ninguém via e ninguém descia. Degrau por degrau, passo a passo. A princípio, um ato esporádico. Com o passar do tempo, constante. As pessoas então se assustavam, não compreendiam, olhavam para aquela figura que se esgueirava degraus abaixo com um misto de admiração e medo. Alguns o reverenciavam, outros queriam linchá-lo, achavam aquilo uma indecência. A biblioteca tornou-se um lugar maldito, temido. Aqueles que a frequentavam eram tidos como loucos ou iniciados. O que no fundo é a mesma coisa.