sábado, 23 de janeiro de 2010

brecht

(elegia)

A alma do menino quando nasceu
prendeu-se na placenta e no cordão e ele a perdeu;
Curiosamente, o menino nasceu vivo, não perecendo,
e chorou longamente pela alma que nunca viria a ter
A mãe achou de bom grado tamanha vitalidade
e confundiu a dor do menino em vir
Para dentro do mundo desprovido para,
sorridente, ninar o filho até este dormir.
E ao acordar com o seio da mãe à face
o menino, ávido, pôs-se a este agarrar e morder
Na esperança de sugar nele a sua alma,
mas só colostro o seio parecia ter
E chorando foi este menino e sua mãe o cobria
de atenções, dando-lhe o seio, alimento,
Sono, brinquedos, tudo que ele pudesse possuir
mas do menino veio o homem
Sedento da sede do menino de outrora,
buscando em torno do mundo a alma
Roubada pela vida irrompida em seu dentro
naquela hora
E cansava-se das caminhadas que fazia,
esvaía-se em buscas incessantes e vazias,
Pois tencionava e esperava e seu verbo era a palavra,
e seu esperar era o vazar da fala que não se dizia.
E, calada e esvaziada, a palavra se ia
do homem, e a vida se consumia no seu
Buscar, dia após dia, da alma
tanto que lhe faltava a própria falta que esta lhe fazia
E, a cada palavra acabada no tempo da vida
vazada do homem, o homem vislumbrava sua vigília
E cerrava os olhos, recostava o rosto, adormecia
como se no seio do mundo que o devorava
Pouco a pouco ele encontrasse o repouso de sua procura
Até que dele saiu a última palavra, e o homem foi mudo,
para ter finalmente de volta a alma perdida pois,
Retornado ao silêncio de sua origem, o homem atracou-se
com firmeza à alma de todo o homem
Pois a alma de todo o homem só há
onde a vida do homem não haveria
E o mundo lavou-lhe o rosto com as águas das chuvas, das borrascas e das tempestades
E a vida levou as ausências em suas bagagens
E o homem, atingido por sua alma,
teve o silêncio como morada.


(dedicado a maria alice vergueiro).

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