quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

E os silêncios sobrepuseram-se uns aos outros

E os silêncios sobrepuseram-se uns aos outros, o do homem à pedra,
O da pedra ao cão, o de nossos três personagens
Ao leitor.

Eles sentiam-se um pouco sufocados pelo enorme volume das palavras que não eram ditas;
Havia, porém, nesse procedimento uma força insuspeita. Sim, eles pereceberam que poderiam
Simplesmente calar-se, e que o narrador – um espectador pobre de tantos diferentes eventos –
Acabaria por fartar-se em descrever um homem, uma pedra e um cão entreolhando-se
Numa absoluta ausência de sons, que se aproximava bastante
De uma reverência profunda e mútua.
Sim, surgiu entre eles algo semelhante a um elo, uma aliança, uma simbiose.
Eram três entes: um homem, uma pedra e um cão.

Mas tal silêncio emanava das entranhas desta pedra mesma – entre o silêncio e a pedra
Havia somente a distância de uma metáfora.
Súbito, a pedra pareceu uma rocha imensa ao homem; este viu-se invadido por um sentimento
Ambíguo, de desejo de possuir tamanha grandeza dentro de si e, ao mesmo tempo, teve medo,
Medo de tornar-se tão vasto a ponto de perder-se, uma planície imensa ao horizonte,
Tão vasta quanto inespecífica, aberta sobre os abismos de suas fronteiras
E queda nelas.
O homem olhou a pedra, ainda observado pelo cão;
Olhou a pedra com o olhar mais profundo que um homem já dirigiu a uma pedra.
E afastou-se.

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