terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Fleuma

O silêncio é uma rocha de poros abertos no vazio das coisas,
E o homem segurava esta rocha com as duas mãos, com os ossos expostos.
Ele lançou para longe de si esta pedra que lhe parecia sulcada demais,
E, pela primeira vez desde que ele foi concebido, tornou-se um mortal.
O homem não notara a mudança que se operava, nele e em seu mundo, este que sempre o rodeava à exaustão.
O homem viu seu gesto transformar-se em algo efêmero, viu o gesto encerrando-se
Sobre si mesmo, e emudecendo seu momento no momento seguinte a este,
E preferiu um mundo aonde todos os momentos fossem os seus mesmos seguintes,
Onde o gesto de seus braços movendo-se no ar fechasse sobre si seu espanto
E ele ficasse ali, braços estendidos, por todos os tempos,
E as pessoas passassem por ele, observassem e dissessem umas às outras,
“Este é o homem de que lhe falei outrora.”

O homem e a rocha mantinham entre si uma relação ambígua, tão ambígua podem ser
A dor e a cumplicidade.
Era a dor que o homem sentia ao contemplar-se nos poros desta pedra,
E era a pedra que via no homem imagem e reflexo desta mesma dor,
A dor de um espelho vazio no reflexo da imagem deste mesmo vazio,
Vazio imagem reflexo inominal de três outras imagens: o homem, a pedra
E um cão vadio que observava a ambos.

O homem e a pedra contemplam-se, ainda hoje,
Apesar da vacuidade que nos assombra quando falamos do tempo deste evento.
Ainda assim, acima de todos os fantasmas que poderiam tê-los assolado,
Um homem e um pedra contemplam-se, ainda hoje,
E nada neles pode nos levar a crer, nem a nós, nem ao cão,
Que um dia alguma das dores destas imagens ainda tão vívidas
Irá tornar-se mais amena
Na memória
Do vazio.

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