segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

joana, a louca, faz amor com seu marido morto

eu joguei a terra sobre teu corpo pútrido
para que nele germinasse a vida
como um grão germina,
e a vida veio,
ainda que não tão bela.
mas a beleza é humana, como a morte;
tudo à volta fenece,
só o teu olho, ao não mover,
o teu cenho úmido polido outrora
atesta o roubo,
roubaram-te a centelha,
mas não permitirei que te roubem as carnes;
quão egoísta tu fosses! a vida mesma coroou-te rei
e ei-la dispersa abraçando a gema,
multiplicada no manto ácido corroendo-te as faces.
não és mais uno, porém persistes vivo nestes mil corpos
caminhando sobre o meu,
e me sussurras no gozo:
a morte nada mais é que uma das formas
de amor.

(Obs.: no título do poema, o A. escreveu a lápis, acima e abaixo de "faz amor com": deita-se com/ conhece).

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