segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

maresia

aos jesuítas

eu me iludi por muitos tempos julgando-te mais próximo de mim
nos movimentos, no vento, no caminhar, nos passos dados, nas marés
acotovelando-se,
eu iludi-me achando que a cada onda o mar iria ser mais próximo de mim.
até que me tragasse e me fizesse onda, sereia,
ou espuma roçando a areia.
eu até fecundei a orla com um bastão. dediquei-lhe, senhor, palavras
afogadas nas salinas do mar dessas águas, senhor,
serei eu indigno?
senhor, este teu servo deitou-se durante dias e noites à beira de teu ventre
e estas águas tão-somente mantiveram-se distantes, circunspectas,
impassíveis ao meu silêncio (não respondido), às minhas súplicas (desesperadas)
eu ignoro,
eu ignoro, senhor, porque não me recebes em tuas águas, porque não me comunga os pulmões,
ignoro o porquê deste mar vasto sobre quem caminhei com pernas de raízes decepadas
ignora-me,
logo a mim, senhor, a mim querendo estar dentro de ti em sua divindade,
compartilhar de sua luz. eu, aos pés de teus pés à espreita, estirado,
em silêncio, em oração,
em espera.
espero as águas ascendentes das marés, espero os teus braços molhando
minha túnica, conduzindo-me ao teu interior. sim, o teu dentro.
pois onde mais podes estar, senhor,
senão nestas vagas, serenas águas do mar?
senhor, não te afastes assim. não me exijas a temperança,
a exaustão, a contemplação; duas ou três vezes vi seus olhos distantes
e não pude ler nos olhos mortos deste homem afogado, senhor, que eram teus olhos,
mortos, olhos além dos homens, olhos daquele que hoje habita o seu lado.
senhor, eu me deitarei aqui agora, e permanecerei para todo o meu sempre
que eu sei pouco perante a eternidade a quem pertences, mas serei como ti,
o homem de olhos umedecidos por suas águas, o homem transfigurado como tu
o homem que vestiste em um manto de algas, o homem, ah, senhor, isso,
me abraça, a tua túnica é fria, a tua morada é longínqua, eu o
vejo melhor agora, ele tem os olhos marejados. isso senhor,
cega meus olhos para tudo o que não for teu, me leva à
luz do

teu amor

Nenhum comentário:

Postar um comentário