sábado, 30 de janeiro de 2010

maria madalena contempla jesus morto

consagrei no teu corpo um pacto de pranto tolo,
o pranto que se faz força e grita uma canção.
contemplei os teus olhos cerrados, e me forcei a alçá-los
ainda que a manhã não me tivesse trazido a aurora
de outro dia.
calei no meu tato as páginas que escreveria sôfrego
e generoso, ávido, e elegi meu toque
à categoria linguística.
eu te observo agora, deitado sobre meu solo
e ouço um ecoar de desolação nestes horizontes desérticos
que se abrem agora. igualmente agora,
eu vi a piedade, a dor, a súplica e o silêncio;
meus olhos estão gastos.
o ar sopra e sopra agora, e sopra para além do agora,
e perpetua um sopro de pó.
a sua cabeça pende de meu braço e, se fosses joão batista,
ela rolaria para além de meus campos.
ah, e se tua voz se fizesse ouvir agora? e se eu tivesse
o teu verbo, qual seria?
o verbo se fez ausente; para além do quietar, do branco ou
de toda meditação possível,
a vida impôs-se em sua própria ausência.
eu verteria um pouco mais de pranto,
se ele não me soasse salgado do mar que minh’alma secou,
se o sal não afundasse nas fendas de meu rosto erodido
e gerasse outras dunas.
e o ventre mãe outrora retumba um surdo desfiar;
a memória é uma roca
e o tempo um tecelão.
fia, maldito, fia.

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