domingo, 28 de fevereiro de 2010

RETIFICO

retiraram o relógio em frangalhos
não soube a hora, e isso foi demais para um relógio de família
até hoje não retornou.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

numa casa de família

tavali.
não cheguei a ver por algum motivo qualquer.
tavali.

não cheguei a notar não sei porquê.
não notei a presença
sequer a ausência
do mesmo.

tavali.

esquisito.

tavali.

nunca saberei o quê,
será eterno vácuo.

mas tavali.

um fragmento nulo de nada,
um pedacinho de algo que não sei o quê.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

PENUMBRA

É noite. A casa dorme soturna e sossegada na madrugada que acena longinquamente um adeus. O garoto continua em sua indiferença quase mórbida, de olhos cerrados, fechados, quietos com os lábios. A sala exibe sinais, código de uma festa antepassada, fóssil, antiga, anterior aos próprios habitantes. No armário da cozinha, esse recanto familiar e culinário, só a vela ainda pensa, maquina ebriamente, de pensamentos embargados de vinho, táticas e guerra, poderes e podres, lutas e batalhas. O mundo será meu, diz ela inaudível.
Estamos salvos. Pelo menos até a próxima festa.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

HEI

Tchau, tchau, tchau, ...................

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

BOLÃO

A criançada esfomeada resguardava impaciente um lugar, já que a disputa era acirrada. O garoto (ainda) indiferente tomava lugar de honra na mesa de fórmica. Patati, patatá, blábláblá. Glub, glub, glub. A faca penetra o bolo guiada pela mão certeira e indiferente do garoto. Nhac, nhac, nhac, nham, nham. A vela azul, antes acesa, recosta-se vagarosamente na dobra da toalha, descansando um pouco para, breve, dar início ao seu grande plano.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

RÉPIBÃRTDAITOYÚ

O bolo era redondinho e simples, de chocolate e coco. Coisa pequena para esses tempos duros de austeridade econômica. A mãe subia e descias as escadarias da casa tal qual barata tonta, apressada nos preparativos finais da festinha. O menino jogado a um canto da sala vendo televisão desatentamente. Num canto esquecido a vela azul eclodia em silêncio sua consciência adormecida por séculos e séculos, já imaginando algum plano maquiavélico. Dois aniversários nunca são iguais, meditava de si para si.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

SPLASHHH

E, por fim, veio o dilúvio. Raios saíam do olhar, faíscas nada desprezíveis de Belo e de Todo. Arrebatou-a com todos os drapeados num ciclone molhado de chuva e, sobre os pingos que lhe escorriam pelo rosto, nuvens descarregavam seu contéudo sem pesares. A borrasca foi intensa, e breve. Retirados os furacões pela porta dos fundos na cândida superfície daquele (assim suposto) calmo lago de águas calmas, restava um pequeno bote. Nele, um frade fazia o sinal da cruz.
Amém.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

OOOOOHHHHH!

De sandálias saltinho anabela, entra um daqueles franciscanos com cara de malucos que, quando em vez, apareciam nas portas das igrejas e dos açougues para pregar as tentações da carne e do espírito. Geralmente são divertidos, mas ligeiramente impróprios para os menores de treze primaveras, graças ao conteúdo explicitamente explícito de seu fraseado borbulhante como champagne e do cativante brilho de seu olho nu. Sentou numa das mesas de canto, discreto como nunca o fora. Anos e anos de sedento o fizeram assim, calmo, calado, apesar de agitarem-se as águas sob sua superfície de lago plácido. Uns pressentiram que sua tempestade se formava, mas outros nem isso fizeram.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

TRÈS EXCITANT

O perfume dele era estonteante, rescendia a fêmeas em êxtase, fogosas, sedentas, bem ao estilo sexo-explícito-em-cima-da-mesa-de-jantar-num-domingo-vendo-sílvio-santos. Ela era máscula em sua virgindade franciscana, só depurada e deliciada pelos dedos que lhe adentravam zíper nas noites de drive-in. Na danceteria da cidade, eram os únicos que dançavam em plena liberdade. Os outros se ocupavam com aspectos mais importantes desses mesmos eventos, como jogar dominó ou coçar ora com a esquerda, ora com a direita : um pouco de criatividade no sexo torna as coisas mais divertidas, sussurravam entre si, entre aspargos e cenouras defumadas que ninguém comia. Eu, hein!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

D’AMOUR

Parabéns, queridinha, dizia o noivo extasiado.Você está perfeita esta noite. Não sabendo o porquê da ênfase do dito cujo, apesar de também se achar ótima naquele drapeado, sorriu um sorriso descartável e ensaiou mais alguns passos ondulantes. Charlestown é simplesmente adorável, não é?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

surpresa

sempre me apanho em devaneios largos ou as coisas me apanham: um tropeção, o bom dia velho de todas as manhãs, ou mesmo um miserável anônimo. ontem foi um velho sem uma das pernas, esta manhã presenteou-me com uma menina e um bebê que ele carregava. não vi seus olhos (e eu sei, ela os tinha, quem não os tinha era eu); rápido, tirei uma nota dobrada e entreguei a ela, que assentiu. todos tão conformados, ela e eu, o devaneio e o bebê olhando sem surpresa para a fila de carros (que a ele devia parecer interminável). pressinto: passarão os anos, eu por eles talvez mais que eles por mim e, enfim, o reverso das coisas virá; serei eu o anônimo no vaso comunicante das misérias.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

CLIC

Acaba a força, os personagens estacionam. Parados na tela como imagens de vento, de vapor, de cera, estáticas, inertes, sem vida. O garoto faz um muxoxo, ameaça chorar. A mão da mãe sugere que desligue o vídeo, é hora de nanáa. Ai, tá bom, vai! Amanhã será um novo dia, amanhã haverá sol, brinquedos, sorvete no congelador, poeira no tapete da sala.
Clic. As manchas se desvanecem, e o bebê dorme quieto.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

OPS

Não sabem o que fazer quando veem-no com um Arno na mão. Céus, gritam em uníssono, sendo a cor rosada de suas faces lívidas subitamente substituída por um amarelo-bu-que-susto-não?. Nada se fala mais, nada se diz. Só o cheirinho de sachê de pêssego na sala de visitas. Quero mais bolacha, grita o minino. O filme tá bãããããão!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

FADUS FADUM

Ora, pois, pois, não é que adentra salão adentro um casal de portugueses abstracionistas (não sei se Mabe ou Fukushima). Plenos de vitalidade, a mancha amarela enlaça com pura graça o roxo-esverdeado da cintura, sorrisinho indelével, esboço de saltito. Mas que lindinhos são!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

AIUI AIAI UIAI UIUI

Rola a roleta, a esfera corre em círculos. Luz vermelha bate e volta ao holofote. Qual? Difícil dizer. São tantas as lâmpadas que eu me perco na procura. Esses cassinos são importantes apesar de não essenciais. No prazer do ludismo afoga suas mágoas, sufoca-se nas anáguas das prostitutas que povoam os dados. Uma, duas, três, quatro, cinco, sei em cada face branca. Façam suas apostas.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

GRANDES IDEIAS EM P&B

Pulou sobre os edifícios sem ter medo de se enroscar nos fios do terror
E passou por cima de nossas cabeças, com aquele inconfundível ar de bicha louca;
Jogou tulipas e madressilvas e outros apanhados pelas matas e jardins bossais
Sem se preocupar com os comentários dos pequenos burgueses das províncias locais
Que diziam ser ele a própria encarnação da erisipela, do sarampo e da disenteria amebiana
Ignorava esses comentários ofídicos com a sabedoria de um mamute (sequer os discutia!!!)
E, apesar do espanto de todos que ouviam, achando aquilo uma ave ou uma alucinação maluca,
Balançava suas trancinhas chiquita-baiana e nem ligava.

Era um rapaz com muita personalidade, um verdadeiro avestruz sem penas.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Definição – I

Era como uma trilha fraca, frágil,
Sem profundas intenções,
Nem idéias brilhantes e sóbrias.

Um paetê sem reflexos,
Uma pluma depenada na sua essência
Mais plúmbea.

Um balão cativo cheio de vácuo,
Um vazio de ser.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

trechos da bíblia da província

no fim dos tempos

I

e eu vi com meus próprios olhos quando as águas se incendiaram em lamas
onde se afogaram todos os ímpios;
e senti o cheiro da carne ardendo em chamas, e gozei neste inferno.
e os profetas também eram ímpios, impuros, não dignos das bênçãos do senhor;
e eu os espantei em pleno vôo, como se faz a um bando de moscas enxeridas;
e eles se assustaram, e se enraiveceram, e decaíram em direção aos templos de outrora
e eu me ri da sua tola infâmia.

II

pois o senhor é meu pastor, ele está ao meu lado
e eu sou uma tola ovelhinha de quem ele retira lã e leite
e eu me excito com seu toque macio em meus seios
e me masturbo pensando em seus lábios tomando meu líquido morno;
e todos se escandalizam, e me apedrejam, e me julgam um escriba, um fariseu;
mas eu simplesmente os ignoro, e sonho todas as noites
em afogá-los num copo de leite
gelado.

III

e eu finjo que vivo, e vi os verdadeiros viventes em um ou talvez dois palcos,
encenando diodos, e meu véu se ergueu de supetão;
e todos se assustavam mais uma vez, e mais uma vez eu não me importei,
pois o senhor está comigo, ele me acompanha para onde quer que eu vá,
e ele deu uma porrada nos que me incomodavam,
e eu o beijei com gratidão.

IIII

na madrugada, coloquei uma pitada de lascívia em seus dedos rosados.
pura gratidão pela riqueza de seus enigmas (sete deles).

domingo, 7 de fevereiro de 2010

livro das províncias de ego

a mitologia segundo id

I.

exaustamente, ele criou o universo e os outros deuses, além de algumas baratas
que não ignorou, apesar de serem vãos sopros de sua formosura.
descansou semanas a fio numa casa de massagens lendo tio patinhas nas bibliotecas sem escadarias,
e assustou-se ao ver como podia fazer o tempo passar depressa
se enrolasse seus bobs.
os homens nesses tempos bravios eram fortes e vazios, com membranas de éter,
e nenhum pensamento entrecruzava esse ar, permitindo total calmaria.
mas as tempestades começaram a azucrinar os seres mais susceptíveis de tal,
e ele criou a neblina para impedir que visse além
dessa tênue cortina
imóvel.

II.

e antes que viessem as religiões e os religiosos, ele criou os puteiros
todos se deliciavam nessas centrais de orgias.
daí vieram as freiras e os padres e os rabinos e a polícia e os vizinhos,
e ele criou a impotência para castigar aqueles que o combatiam
e todos, impotentes, bateram uma punheta
em retirada.

III.

e os homens se desligaram dele, e criaram seu próprio mundo, seus próprios refrigeradores e tapetes de camurça e capachos,
e se esqueceram que algo além de aves sobrevoava suas cabeças
e ignoraram que algo além dos ventos acariciava seus rostos nos dias de desesperança;
e ele ficou triste, e ele se retirou como um relógio velho, o relógio dos tempos que se foram
sem dizer tchau;
e até hoje não voltou de seu recanto de veraneio
desejo
e frustração.

saiu de fininho, deixando a porta entreaberta e dois tomates numa geladeira desligada.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

relatos verídicos da bíblia de ego

Quem seguiu teus passos na noite escura
e pelos degraus da catedral
central
viu quando fugias pelas sacristias?
Um mistério sem solução,
Vulgar sacristão.

deixa que a virgem te abandone nessa fuga de ti;
ela te deixará sobre macias almofadas de cetim, o tecido da heresia
e dirá para repousares que a viagem foi exaustiva
e que estás cansado de si mesmo, e que não queres mais profanar
seu corpo
que fostes o melhor amante de toda a Palestina e arredores do Oriente Médio;
que só tu sabias como acariciar sua pelae de um jeito que alucina,
que só teu corpo satisfaria seu ser,
mas que era necessário que parisse mais um neto das estrelas.
para que, no futuro, quando os italianos comessem macarronada com molho
ao sugo e um pãozinho,
se lembrassem que mais alguém curita bracholas.

levassem a mão ao peito em reverência

e dessem os restos ao cachorro mais próximo.

a virgem partiria, então, com seus apetrechos de mulher e sua carne macia,
e provavelmente a primeira noite seria a pior delas,
pois acharias que jamais se habituarias a sua falta,
como poderias viver sem seu hímen ambulante?
ela era a parte de ti que perdeste nos cassinos, com outros jogadores
era o que temias ser nas vielas das ruas, quanto fostes mero passante (lembras?)
mas te habituarás entre um trago ou dois,
e acelgas e estrelas do mar iriam postar-se ao seu lado, condolentes,
e quem sabe abrisses até
um restaurante natural.

apenas um vestígio ou dois indicariam à sua clientela o ocorrido;
uma almofada pendurada em berço esplêndido em lugar de honra e síntese,
as estrelas marinhas em teus olhos, as acelgas como garçonetes,
e teu hímen choroso, às busca de quem o desvirgine.

num canto da sacristia, o cão devora os restos de massa e molho inglês.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Quieto, pede o quorum.

há espetáculos que nunca se vê.
mas visões espetaculares os precedem.
anunciam-os trombones e gritos de cães vadios
(sem rumos)

sabem para aonde não ir, os vikings do pensamento.

delírios povoam o fogos de chams que se apagam
e que se acendem

minhas riquezas são sábias,
mas não fazem grandes enigmas:
elas o são, querida, e eis aí o nada mais óbvio.

as gripes as facinam, com seus vírus purulentos
de charme vão
sem sumidades;

perguntas populam e criam margaridas,
que vendem em pequenos ramalhetes
nas esquinas de mendigos e piranhas
fauna corner

inglês aprendi, e outras línguas que não a tua ferina
que entrecorta meus lábios sem mesuras
e percorre meu corpo sem licenças

cansou-me a loquacidade dos teur termos de sábio tolo,
e milhares de vezes li nas nuvens e nas xícaras
seu hieróglifos.

querido, eu sou semita
não peças para atingir o abissal
sendo eu mero pardal.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

THALASSA!

Escrever não deixa de ser um tipo mascarado de prostituição;
É render-se a uma tentativa de comunicação
Quando se sabe que tudo que diz respeito a tudo é completamente secreto, misterioso,
In co mu ni cá vel .
Escrever é fazer uma pantomima em duas dimensões, boa ou ruim, aceita ou
Inaceitável,
Sobre como seria a comunicação entre uma clausura e as demais,
Se isto fosse possível.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

ÓSCULO

Não tenho nada a dizer.

E é neste paradoxo que desenvolvo minha antifala, meu discurso vazio
(perdão!, não vazio, com um pontinho preto numa página
Amassada):
Nada a dizer, nada a declarar, não há nada a ser dito
(o que quer dizer que há algo a se dizer).
E é neste aparente paradoxo que desenvolvo minha procura entre tanto
E tantos que dizem e que se diz, sem que realmente nada haja para ser dito:
Procuro o que não dizer, e é só isto que digo:
O que não digo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

sim, escombros restam

sim, escombros restam,
esparsamente.
estrelas se aninhavam
na onírica liturgia
da noite.

na mística,
a luz se confundia com
o colostro morno,
que o bebê deixava
escoar
sem dissabores,
sem sabores.

minerva se recolhe,
em seu leito de paz
e luxúria.