quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

surpresa

sempre me apanho em devaneios largos ou as coisas me apanham: um tropeção, o bom dia velho de todas as manhãs, ou mesmo um miserável anônimo. ontem foi um velho sem uma das pernas, esta manhã presenteou-me com uma menina e um bebê que ele carregava. não vi seus olhos (e eu sei, ela os tinha, quem não os tinha era eu); rápido, tirei uma nota dobrada e entreguei a ela, que assentiu. todos tão conformados, ela e eu, o devaneio e o bebê olhando sem surpresa para a fila de carros (que a ele devia parecer interminável). pressinto: passarão os anos, eu por eles talvez mais que eles por mim e, enfim, o reverso das coisas virá; serei eu o anônimo no vaso comunicante das misérias.

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