sábado, 20 de março de 2010

CONTINUIDADE – o retorno ao discurso, o enganoso retorno

mas me disseram me que muitas palavras usadas no cotidiano eram pecaminosas,
e eu passei a tremer de temor a cada vez que uma boca aberta a proferir
sortilégios e sacrilégios;
passei a pregar o retorno à simplicidade, à vida campestre e à limonada,
apesar de mais ninguém querer me ouvir.

e ficar calado, num protesto mudo, passou a configurar-se para mim
como uma solução, a melhor que havia me sido apresentada até este dia
e os seguintes;
em silêncio, comia, andava, ia aos shoppings, datilografava no escritório,
tomava banho, dançava na noite, fazia minhas compras e, aos domingos, ia à missa;
foi uma heroica tentativa: em silêncio, algumas pessoas passaram a me ouvir,
sim, sem falsa modéstia, talvez possa dizer que todos me ouviram então e,
julgando-me amparado por meu gesto, passei a falar com todos, no mais absoluto dos silêncios,
e, mais uma vez, ninguém me ouviu.

perante tudo e todos, vi uma simples verdade, a verdade que não se discursa, o paradoxal
de minha necessidade de comunicação:
resolvi me calar, me calar, calar-me da maneira a mais absoluta possível,
faze de mim uma imensa lacuna, reticências infinitas (e não delas que saem os três pontinhos?)
e, no abissal oculto em cada segundo desta minha antirredundância,
fazer emergir (ou afogar, o que é o mesmo) meu Duplo, meu inexistente Outro,
meu improvável Eu.

(87/02)

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