segunda-feira, 22 de março de 2010

Há um cheiro que se esconde

Há um cheiro que se esconde dentro de mim, amargo,
De mim emana-se;

Há muitas e mutas cousas escondidas neste odor.

No odor que escapa de mim como uma líbelula afoga-se no pântano,
Coaxam sapos sobre minha folhas;
Pode parecer tolo evocar tais imagens,
Mas de que se faz a poesia senão de uma série
De tais bobagens?

De tantas e tantas cousas outras, outras coisas
E enumerá-las pode ser uma tarefa
Arriscada.

No odor que de mim se exala esconde-se um fruto podre,
Fruto de podridão divina – a centelha da eternidade que em mim se acende
E que em mim se apaguem todos os pontos luminosos, circunscrevendo
Meu pensamento simplesmente a uma meia dúzia de pares de meias sujos,
O copo de leite esvaziado sobre a cabeceira, lençóis amarfanhando-se
Num colchão preguiçoso.
Um amanhecer onde os corpos recusam-se a deslizar
Para dentro do mundo,
Para fora de si mesmos e de seu mundo compenetradamente
Único, particular.

No odor libélula que de mim foge, batendo as asas com vigor,
Nesse odor fujão, coaxar matinal, tão amargamente cotidiano e vulgar,
Esconde-se um outro odor, esse sim,
Imperceptível.

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