quarta-feira, 3 de março de 2010

... e o tempo era uma casa de paredes largas

“... e o tempo era uma casa de paredes largas e caiadas quando o homem lá chegou. E estando ele cansado de sua jornada, as pernas doloridas e os pensamentos em desordem, resolveu fazer daquela pequena casa sua morada. Entrou e observou bem aquelas paredes manchadas de nada e procurou entre elas o que poderia vir a constituir o futuro, mas não conseguiu. O homem contemplava o tempo, e este, ao homem; porém, haja vista que ao tempo foi dado um fluxo, o homem, intimidado pelo que lhe pareceu uma sabedoria imensa, baixou os olhos e deixou-se contemplar. Uma vez habitando o tempo, o homem viu-se mergulhado nele; ele, um nômade, viu-se prisioneiro de um tempo que agregava tudo o que já não era – o tempo passado; de um tempo esvaziando-se a todo instante e a a todo instante remetido – o tempo presente; e de um tempo vago para o qual ele sempre se dirigia, independentemente de seu desejo – o tempo futuro. Uma vez habitando o tempo, o homem foi habitado por ele: o nômade quis partir, um dia, e, estando encharcado do sentido do tempo, este tornou-se tão caro a ele que o homem não pôde partir só. Então, tempo fez-se memória, para que o homem pudesse partir sem nunca deixá-lo.”

(Do ‘Livro de Memórias’ de Erma Bonchavis, a Tesa. Datado de 03.11.1565)

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