quinta-feira, 29 de abril de 2010

The four seasons – Winter – Adler – the sense of time

A triste umidade soprando nos vitrais das casas nas colinas
O vento
Transportando ao longe pesadas neblinas.

O chão subindo e atingindo o céu branco sujo, e com este se confundindo
Em mescla
A areia fina que cisiona-se entre os dedos e na água se diluindo.

A folha amarela que se solta e, solta,
Se queda;
A estática acalma dos seixos na beira dos riachos.

Descubro-me dentro de um mundo que não me é muito estranho,
E me embebedo de seu absinto lírico e gelado;
Movo-me dentro desta vertente.
Fantasio um voo inconsequente e me sinto içado,
Não piso no campo arado nem o no impessoal e duro cimento;
Neste momento, sou alado, e capturo em meus braços gaivotas azuis.

Molhado de chuva, pouso no raio e me faço sua luz,
Propago-me e possuo o domínio de todo o espaço,
Me faço, pelo instante de um relâmpago,

Mas apago.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Vede como somente os restos de lixo urbano

Vede como somente os restos de lixo urbano
Atingem o nível maior de perplexidade perante seus donos
E proprietários?
Quietos, silenciosos, espreitam os portões e vielas
Vigiam as sarjetas,
Atentos a cada movimento.
Olham as crianças correndo nas ruas,
As mulheres com seus sacos de compras e brincos de strass,
Os homens engravatados beijando os filhos sonolentos,
Os carros rodando a esmo;
E estes, perplexos, estes azuis, pretos e marrons sujos
Fedendo a laranjas e cinzas de cigarro (cheiro de certos maridos)
Não compreendem como tantos, em chintz ou lycra, no brilho ou na sombra,
Correm e andam, sentam e param, riem ou fingem sorrir.

Tanta energia desperdiçada,comentam entre si em seus redutos particulares,
Seus guetos;
Tantas palavras, gestos, atos, vácuos, vácuos,
Vácuos;
Estes, pensam eles, de tudo fazem para preencher seu intenso
Vazio;
E, no instante derradeiro de sua partida, quando homens alaranjados
(Uma cor entre o sóbrio e o alegre)
Capturam-nos por suas pontas, por vezes por suas alças,
Eles rompem com sua própria perplexidade,
Mas recusam a contemplar-se;
No seu instante de ida, eles mais intensamente observam a pequenez do homem,
A igualdade de suas condições
E riem, riem muito.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Conto tardio

E sabe o que mais eu fiz? Visitei aquele lugar quente e silencioso em que nos conhecemos (bem que podia ter sido um pequeno útero). Defronte aquelas pequenas inscrições na pedra, mantive-me numa espécie de transe respeitoso. Sensação estranha. O homem ao meu lado tinha uma expressão abrupta no rosto; trajava um casaco de abas longas e rotas, e olhou-me só uma vez, como que para certificar-se de minha presença ali, ao seu lado. Lado a lado como dois estranhos.

Cansam-me um pouco estas visitas. Quando sua expressão atenuou-se um pouco, pedi-lhe que fôssemos embora. Hesitou um pouco, releu as inscrições, beijou-me a testa e foi-se. Sozinho.

Acredito que nunca irei perdoá-lo por tamanha injúria.

domingo, 25 de abril de 2010

Só agora percebo

Só agora percebo que já é dia claro. O Sol surge no horizonte, mais invulgar que nunca. Como todo bom vampiro, ele se desvaneceu numa nuvem de névoa esverdeada. Finalmente cumpriu sua promessa. Em diversas vezes que parávamos para apreciar um prédio em construção – “os prédios quando estão sendo construídos assemelham-se às flores desabrochando; cada viga, janela, parede, é uma pétala que se acrescenta até o desabrochar, no final. é preciso ter a sabedoria de apreciar esse nascer”, dizia -, sempre com aquele ar absorvido, como um jardineiro observando atento e quieto o crescimento de suas hortênsias, pensando se elas precisariam de um pouco mais de adubo, sussurrava: “qualquer dia eu vou desaparecer numa nuvem de vapor verde, mas sei que você entender então.”

Nunca imaginei que seria tão compreensivo.

sábado, 24 de abril de 2010

Transei com um verso

Transei com um verso
E ejaculei
Palavras úmidas
Além de alguns
Espermatozoides poéticos.

Bem que mamãe falou
Pra eu casar virgem!


(manuscrito/0?/07/89)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

POESIA

E a poesia dormia,
E sonhava,
E em sonho cavalgava louca
Solta e pradarias
E uma poesia louca delirava
A pobre poesia era só sonho, e sonhava
Com seu grande dia
O dia em que, libertada,
Poderia sair do que se dizia
Impedir-se de ser mediatizada
Por um sentido que a trairia.
A poesia – amor platônico? – ria deitada
Em transe, e se imaginava poesia
Poesia não intermediada,
Poesia que o ar carregava, poesia viva,
Pois só a vida é poesia.
Mas nossa poesia, infeliz, não é vivenciada
E recusa-se a falar e, calada,
Só sonhava um sonho de maresia,
Uma maresia calma que a banhava
E cobria o sonho pouco desta poesia
De uma fina película de areia,
Areia fina,
Fria.

Poesia pouca e fria se deixava recobrir de areia
E a areia da maresia do mar da palavra porte forte de nossa pobre poesia
Calou-a, e ela se fez uma estrela marinha.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

PÔ, EMA!

“Como da planilha à flor,
No meio da quase-vasta planície,
Da pétala brota a rosa; triste rosa.
Por entre a neblina e a umidade,
Acende o cigarro. A chama é vômito do isqueiro,
E rapidamente dissipa-se na superfície.
Da luminosidade difusa, pendem as cintilações
Ora multicores, ora raiadas de preto e branco.”

Às vezes não se o por quê do tomar da caneta;
O por quê de palavras soltas às linhas/versos
O por quê dessa fluência plena de criação
Das razões que levam o poeta na sua caminhada
Pluritemática.
Mas talvez o poeta seja uma grande incógnita
Uma sinfonia e alguns concertos a cada poema
E, se sorte tiver,
Alguns secos aplausos.

E talvez seja o ser uma grande incógnita
A única razão da existência do poeta.
Incógnita que pode assumir todos os valores
Inclusive nenhum deles.

Talvez.

terça-feira, 20 de abril de 2010

O tempo

O tempo
é momento
insincero
nos leva
a pensar
que dele
haveria
uma leve
permanência,
mas nada fica;
pulsamos
em seus
pedaços
(fragmentos?)
e,
ao fim,
descobrimos
que o tempo
não existe.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

OS APOSENTOS

O QUARTO DE DORMIR

- Quanta coisa, né?
- É, é.
Pausa.
- É.
Mas por que ele tinha que falar das tantas coisas que se acumulavam? Talvez sem importância para nós – dois intrusos – mas, se aqueles novelos de lã pudessem dizer-nos algo, protestariam, veementes.
- Não nos toquem, intrusos.
- Vão embora.
- Deixem-nos em paz.
Pausa.
- Se a Velha Senhora visse o que vocês estão fazendo...
Nada de condenável. Mera curiosidade. Tanto ouviram falar daqula grande e interminável tapeçaria que quiseram vê-la com seus próprios olhos. Tocá-la, enroscarem-se nela. Fazer dela um objeto com uma existência, fios trançados, temente de Deus e de traças.
- Está vendo alguma coisa?
- Não.
- Nem eu.
Pausa.
- Talvez fosse melhor a gente ir embora.

O HALL DE ENTRADA

- Fiquei cansado de tanto andar.
- Eu também.
Pausa.
- Eu também.
A casa vazia, encolhida como um balão murcho e caído. Umas réstias de luz, um castiçal, cacos de copos trincados perto de nossos pés.
- Você acha que ela vai notar algo?
- Que nada.
- Tolice?
Pausa.
- Bobagem.
As réstias de vidro, nosos pés trincados.

O JARDIM DE INVERNO

- Talvez ela note algo.
- Talvez.


Pausa.


(Talvez).

domingo, 18 de abril de 2010

O grande erro de deus

O grande erro de deus
Foi não ter feito o homem
À imagem de Aristóteles.

Poderíamos ter tão somente páginas arrancadas
De um livro qualquer de álgebra booleana.

Ou quem sabe Platão.

Seríamos corações de longas barbas
E sem corpo.

Aos que preferem bigodes,
Nistszche é a solução.

(Que bigodão!)

Aos lustrosos,
Foucault e seus reflexos/reflexões
Históricos.

Uma macieira com cem quedas
para a política
De Newton/Washington,

Um corvo de Poe.

sábado, 17 de abril de 2010

Artistas, dizem as más línguas...

Artistas, dizem as más línguas, não tem os olhos de toda a gente;
Artista, poeta, tem olhos que são sádicos e masoquistas, tem olhos com cheiro de vinho
E sangue;
Artista de verdade não pode enxergar, tem que ser cego de todo
E só ter olhos para tudo que seus olhos não o obrigam a ver;
Ter olhos de vidro fundo, fosco, onde um toureiro acena uma túnica
Oscilante no seu desespero.
O olhar do artista é vazio como um buraco negro, para que todos enxerguem nestes
O mundo e o vácuo, os mesmos e seus parentes opostos.
O artista não tem mãos, pés, dentes, boca, tórax, coxas, sexo,
Cérebro;
Tudo nele é acessório e descartável, pois nele nada pertence aos séculos,
Nada nele é passível de ter uma existência,
Muito pouco lhe pertence de fato;
Seus olhos, eles exprimem este horrível de condição humana,
Esta farsa de arlequim;
Por se submeter mais que qualquer outro a este martírio voluntário,
Emerge nele a sua arte.
O artista deve ter olhos de feto, olhos que nunca viram nada
Ou que nada aprenderam a ver;
Suas órbitas devem ser infláveis ao ponto de se tornarem translúcidas
Para que todos vejam que ele é como todos,
Sem seu ser interior;
O artista apreendeu a melhor maneira de conviver com este fantasma encapsulado em nós que alguns chamam
Alma,
E a respeita como respeita todas as lendas, e a ama como a todos os ritos, e tem com ela conversas
Quase sempre intermináveis.
Nos olhos do artista, só um elemento é real, palpável: sua lágrima
Que é a única coisa que lhe dá um sentido de direção;
Ela brota de suas extremidades mais internas como um gérmen o faz no solo,
E caminha, rápida ou devagar, por toda sua face e, se apanhada por outrem,
Ela parecerá salgada, apesar de, para o artista, esta se tornar, neste exato momento,
Ainda mais doce, posto que, em sua mais profunda ausência,
Todo artista reside
Em sua lágrima.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A SALA DE ESTAR

não é possível que tantos pequenos objetos
(um buda, dois cinzeiros, poltronas)
possam ter
algum fim.

parece difícil de acreditar.

mas é mais conveniente acreditar no inverossímel.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

poema triste

na intensidade da poesia mesma,
escrevo uma poesia
que se pretende igualmente intensa

em minha tristeza de tango quieto,
delineio o que bem pode ser
um pedacinho do mundo, um cordãozinho barato.

o ar que respiro enquanto escrevo aqui está,
e contempla o resto do ar
e tudo lhe soa tremendamente indistinto.

em minha tristeza de menino sem doce,
eu olho.

a poesia que se apresenta aqui bem poderia ser
o copo de água ao sedento, brindado
com um sorriso manso.

ela poderia ser um porquinho-da-índia fugitivo
e inquieto, tão esvaziado dos adjetivos
que dele vemos emanar, um a um;

ela poderia ser aquele momento de silêncio.

ela poderia ser o bibelô lançado a um canto,
a xícara de asa quebrada, uma folha desprendendo-se
e tornando ao solo de onde veio seiva, um dia,

ela poderia ser a pergunta boba, a queda, o tropeção,
ou o caminhar sem rumo.

e meu poema triste contempla tantos outros poemas nobres
e resigna-se a comentá-los, fazê-los vistos, para que cada vez mais
a poesia volte ao mundo.

e meu poema triste sorri uma lágrima de embevecimento.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A gente senta no banco da calçada...

A gente senta no banco da calçada, num pedaço de sarjeta
e pensa na vida e em tudo que a cerca de fumaça
E neblina fria.
A gente para num canto da esquina e olha os carro passando tão rápido...
(Nem sei te dizer quanto)
A gente se descobre empacada como um burro velho num pichado de musgo,
E se pergunta o que fazer;
A gente rasga as roupas e xingo todo mundo bem alto na pretensão de se sentir mais livre,
E se percebe somente um pouquinho mais tolo que antes;
A gente que pensa ser tantos e tanto, tropeça num pedinte
e sente tanto, tanto nojo de nós mesmos......
A gente que sorri com os dentes perfeitos num peito enegrecido e cinzento,
a gente que só consegue sonhar com aqueles minutos de paz depois do expediente,
a gente que encontra o cinzeiro cheio de bitucas de ilusões amassadas nas mãos,
a gente que
a gente
a gente
a gente.

A gente que se cansa de tudo isso e se rasga nas costas pra ver se saem umas asas com muitas penas de qualquer cor, pra gente voar mais alto,
e percebe que só tem sangue.
A gente que pensa deveria ter um eco acoplado para poder crescer bastante, e ficar tão grande
quanto realmente é.
A gente, sentada num banco da calçada, olha os carros passando bem depressa e fica só pensando no que fazer,
enquanto mastiga o musgo do muro (que tem gosto de piche, cinzas,
sangue.)

terça-feira, 13 de abril de 2010

OPIUM

Tenho em meus pés o dom de minhas memórias, memórias que cheiram forte
e que tem calos e feridas
Aberta, além de cicatrizes.
Tenho neles todas as minhas andanças, tudo o que vi ou tudo o que viram por mim;
Lembro muito de Opium; era uma cidadela pequena, algumas mulheres nas igrejas
E nas janelas, um cheiro forte de feijão cozinhando na lenha.
Opium é um campo devassado, uma linha de horizonte no infinito das coisas
De onde objetos sobem e descem, onde à luz sucede-se o sonho e os fatos
(Que afinal, não são tão diferentes assim.)
Vi o homem que seguiu o Sol, paciente e lento, em sua jornada ao crepúsculo,
E o rodopiar alucinado da noite que o seguia.
Ele não se cansava; dia após dia, observava este movimento contínuo;
Somente em certas noites muito especiais ele descansava.
Aos poucos eu fui compreendendo sua paciência; sem que nada me dissesse,
Percebi que ele buscava, em cada dia, em cada noite, uma única diferença,
Um único pedaço ou partícula que diferenciasse os dias e noites de outros
Dias e outras noites. Minuciosamente polia suas retinas e, silencioso, observava
Cada movimento do sol em direção ao alto, cada raio de luz que chegava até ele,
As gotas de orvalho sobre as copas das árvores; tudo observava e analisava
Num trabalho arqueológico, mas nada conseguiu.
Pela primeira vez, sentou-se. A própria treva permaneceu indecisa mas, vendo-o
Sentado, imaginou que se tratava de mais uma suscetibilidade dos homens, e pôs-se
A rodopiar ao brilho da primeira luz da noite – não uma estrela, mas sim o lampião
Que sempre carregava consigo.
Era como se sentisse com ele seu peso, sua sensação de angústia, uma enguia
Agitando-se no baixo ventre. Tudo era tremendamente claro e simples: um pouco
De cada vez, sempre, irregular. Não mais se importava em perder a única coisa
Que talvez tivesse; noite após noite, até durante alguns dias, ia saindo de mansinho,
Devagar. Pouco a pouco fui deixando-o e, no último momento – o derradeiro – tinha
Uma violeta enrolada num pedaço de sua própria pele. Quando o deixei, seus olhos,
Apesar de úmidos, eram dois livros sem página, ocos, vagos.
Era outono; folhas começaram a cobrir-lhe as pernas e o peito
Enquanto eu contemplava, sentado numa beira de vidraça provençal,
As duas esferas de fumê que se aqueciam à luz desta noite de outono.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

PRE OPIUM Terceiro

Vi o homem que seguiu o Sol com seus próprios olhos, do nascer ao crepúsculo,
E a noite que se seguia ao cada dia;
Vi também o torpor que dele se apoderava, como um mormaço viscoso
Que nele se infiltrava e que, ao fim de algum tempo,
O arrebatava de si mesmo.

Vendo este homem numa tarde de outono,
Uma brisa fria soprou em minha nuca.

domingo, 11 de abril de 2010

PRE OPIUM Segundo

Libers, Libers, Libers.
Quo vadis?

Ha.

A liberdade de uma ave tem seus grilhões em seu voo.

sábado, 10 de abril de 2010

PRE OPIUM Primeiro

Sacolejar os elementais: alegria a tristeza techinicolor (R)
de Montparnasse
E afundar as braguilhas numa almofada em carne viva.
Ai ai, um cisco de ópio riscou meu olhar de vidraça fumê
E se pode ouvir
Burbulhos de sal de fruta, passinhos macios sobre a pele do asno,
Um brinco derrubado sem ruído nos pelos densos.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Gestalt

(a Délia)

Por tudo eu opto; por tudo, é uma questão de opinar
Ou não;
Opto nosso ópio, opto nosso opto; opto nossa onanição;

Ou ainda redijo linhas mal traçadas de intenções obscurecidas
Por névoa prenhe e batida de fera;
Revestida de linhaça e pão, recoberta de mofo e hera;

Por tudo procuro, e essa busca não me estafa, nem me conduz
A um supremo além;
Por tudo procuro, e isso me leva a todos e a ninguém;

Nestas tentativas, me centuplico e me retraio em meu corpo,
Me contraio em convu[l]sões em meu próprio ventre,
Talvez tentando nunca nascer, nunca este ser que não o é para sempre;

Invento as posturas e semeio o trovão,
Me pinto de picadeiro e pulo sobre o palhaço,
Só para, assim, sufocá-lo em meu mormaço;

Me distraio de versos modos, e em prosa também;
Nesta posta postura,
Me posto penoso num parto de alguém;

Desse alguém, que me leva a todos, que me leva a ninguém.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Emudecimento

E o homem confrontou-se frente a frente com seu silêncio
E principiou uma reflexão que nunca viria a terminar.

O homem viu-se calado na possibilidade de seu silêncio,
E viu o quanto ele permeava todas as suas falas e ações
O homem viu na morte o silêncio aonde o tempo se extingue
E viu na palavra o silêncio enganoso oferecendo-se em mudez
De princípios. E o homem pensou tolices.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Noite

Cada noite é um grito rouco e fino
Do que dia que se foi,
Falando da dor da partida,
Grito ferino
Anunciando a luz que breve
Se fará parida.

Esta noite, em seu gemido calado,
Expõe uns caninos amarelos de sol;
O céu de sua boca vazado em furos,
Alguns homens pichando os muros
Sob os rasgos deste vasto anzol
Aninhando-se aonde o horizonte fecha um olho cego.

A noite, sedução de quem busca aninhar-se nela,
E dela faz seu recanto, refúgio, vento, vago
Subterfúgio;
Noite mãe de onde todo homem tem seu início
E seu fim,
Sem precipício;
Noite de rangidos, de tudo o que é vago,
Em mim trago a noite,
Tanto quanto ela me traz,
Em mim,
O tanto de mim
Onde eu a trago.

terça-feira, 6 de abril de 2010

AMOR

o amor,
tempo vago;

o amor
é rede
vazada;
enlaça
e sobe
ao cimo,
enrodilha-se
e,
quando se dá
conta,
já nos recobre
de uma pele
segunda
e nos afaga
com um riso
maroto.

mas ele é mau,
uma estrela
sombria
piscando
e
piscando, mais
e mais, até que,
um dia,
nossa noite
amanhece
num sol cáustico.

se temos asas
em voo,
cegamos;
se nos dói
e fere, dentro,
quedamos e,
feridos,
estiramo-nos
à espera
que este sol
nos incinere.




até a próxima noite fria.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O LAR

O lar em que penso
Parece próximo,
Vizinho familiar
De tantos outros
Já conhecidos,
Todos semelhantes
E homogêneos.

O lar em que me proponho
Parece-me tolo
Com tapetes aspirados,
Como tantos outros
Já habitados;
Vassouras, esfregões,
Um pano de pó alaranjado.

O lar de que falo
É um lar adjetivado
E substantivo,
Singular no plural.

domingo, 4 de abril de 2010

Estou com uma percepção aguda e fria e cortante...

Estou com uma percepção aguda e fria e cortante: o quanto as pessoas comprazem-se em permanecer à superfície das coisas. Aprofunde-se um pouco, e todos sentem vertigens, ou contemplam o abismo com um ar bastante apalermado. Alguns – ou todos, cara bióloga? – dos peixes abissais são bioluminescentes. Lance-os em água doce; não soaria estúpido demais peixes – se peixes têm um senso, igualmente estúpido enquanto senso mas, ainda assim, um senso, de estupidez –, não soaria de uma estúpida estupidez um peixe iluminando, já que iluminado, um peixe em luz dentre tantos outros? E eu me pergunto: e durante a neste deste lago, não seria esta luz presença incômoda, medo, distanciamento entre este e outros peixes? A luz não atemoriza simplesmente por sua presença: ela representa uma abissalidade a que os peixes, em seu temor, nunca chegarão a atingir. A luz do abissal remete à noite: ela é a própria noite materializada em sua antítese e, por isso, mais forte. A noite do que é abissal, ele a carrega dentro de si: a luz é mero indício.

Mas, então, não torno irreconhecível, ilegível aos meus demais? Mas o que devo fazer eu? É certo que por vezes me comprazo nesta existência confusa – uma vez que, por vezes (muitas), indecifrável. Mas é de uma imensa dor que este homem se constitui. E trazer à dor o gozo é uma sabedoria que envelhece, é o sustentáculo, a condição necessária para que o abissal não sucumba à tentação de arremessar-se em seu abismo.

Ah, a queda, a queda. Às vezes ouço meu canto e encanto-me; penso: seria este meu canto do cisne? Estaria eu à beira de mim? Quanto ainda me resta de tempo, senhor? “... a ampulheta se quebra, o vidro rompe e a areia cai.” Não é este o fim da ‘noite 459’ d’O Lar’? Seria este meu canto o eco deste abismo, estaria minha voz ecoando na proximidade do mais profundo? Ah, eu vejo a dor e ouço meu canto, e sei que os pássaros cantam sua canção mais bela só por uma vez. Como eu disse, estou embevecido comigo mesmo; seria chegada a última hora? Quantos passos separam-me da queda, o vento açoitando-me o rosto, o estômago e as vísceras frias numa massa informe?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A ARTE DO POETA

O poeta, se sobrevivente de seu próprio parto, limita-se a agonizar
Quase que eternamente.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A AZIA DO POETA

Poeta, invariavelmente, sofre de náusea;
É sua condição de existência.