sábado, 17 de abril de 2010

Artistas, dizem as más línguas...

Artistas, dizem as más línguas, não tem os olhos de toda a gente;
Artista, poeta, tem olhos que são sádicos e masoquistas, tem olhos com cheiro de vinho
E sangue;
Artista de verdade não pode enxergar, tem que ser cego de todo
E só ter olhos para tudo que seus olhos não o obrigam a ver;
Ter olhos de vidro fundo, fosco, onde um toureiro acena uma túnica
Oscilante no seu desespero.
O olhar do artista é vazio como um buraco negro, para que todos enxerguem nestes
O mundo e o vácuo, os mesmos e seus parentes opostos.
O artista não tem mãos, pés, dentes, boca, tórax, coxas, sexo,
Cérebro;
Tudo nele é acessório e descartável, pois nele nada pertence aos séculos,
Nada nele é passível de ter uma existência,
Muito pouco lhe pertence de fato;
Seus olhos, eles exprimem este horrível de condição humana,
Esta farsa de arlequim;
Por se submeter mais que qualquer outro a este martírio voluntário,
Emerge nele a sua arte.
O artista deve ter olhos de feto, olhos que nunca viram nada
Ou que nada aprenderam a ver;
Suas órbitas devem ser infláveis ao ponto de se tornarem translúcidas
Para que todos vejam que ele é como todos,
Sem seu ser interior;
O artista apreendeu a melhor maneira de conviver com este fantasma encapsulado em nós que alguns chamam
Alma,
E a respeita como respeita todas as lendas, e a ama como a todos os ritos, e tem com ela conversas
Quase sempre intermináveis.
Nos olhos do artista, só um elemento é real, palpável: sua lágrima
Que é a única coisa que lhe dá um sentido de direção;
Ela brota de suas extremidades mais internas como um gérmen o faz no solo,
E caminha, rápida ou devagar, por toda sua face e, se apanhada por outrem,
Ela parecerá salgada, apesar de, para o artista, esta se tornar, neste exato momento,
Ainda mais doce, posto que, em sua mais profunda ausência,
Todo artista reside
Em sua lágrima.

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