domingo, 4 de abril de 2010

Estou com uma percepção aguda e fria e cortante...

Estou com uma percepção aguda e fria e cortante: o quanto as pessoas comprazem-se em permanecer à superfície das coisas. Aprofunde-se um pouco, e todos sentem vertigens, ou contemplam o abismo com um ar bastante apalermado. Alguns – ou todos, cara bióloga? – dos peixes abissais são bioluminescentes. Lance-os em água doce; não soaria estúpido demais peixes – se peixes têm um senso, igualmente estúpido enquanto senso mas, ainda assim, um senso, de estupidez –, não soaria de uma estúpida estupidez um peixe iluminando, já que iluminado, um peixe em luz dentre tantos outros? E eu me pergunto: e durante a neste deste lago, não seria esta luz presença incômoda, medo, distanciamento entre este e outros peixes? A luz não atemoriza simplesmente por sua presença: ela representa uma abissalidade a que os peixes, em seu temor, nunca chegarão a atingir. A luz do abissal remete à noite: ela é a própria noite materializada em sua antítese e, por isso, mais forte. A noite do que é abissal, ele a carrega dentro de si: a luz é mero indício.

Mas, então, não torno irreconhecível, ilegível aos meus demais? Mas o que devo fazer eu? É certo que por vezes me comprazo nesta existência confusa – uma vez que, por vezes (muitas), indecifrável. Mas é de uma imensa dor que este homem se constitui. E trazer à dor o gozo é uma sabedoria que envelhece, é o sustentáculo, a condição necessária para que o abissal não sucumba à tentação de arremessar-se em seu abismo.

Ah, a queda, a queda. Às vezes ouço meu canto e encanto-me; penso: seria este meu canto do cisne? Estaria eu à beira de mim? Quanto ainda me resta de tempo, senhor? “... a ampulheta se quebra, o vidro rompe e a areia cai.” Não é este o fim da ‘noite 459’ d’O Lar’? Seria este meu canto o eco deste abismo, estaria minha voz ecoando na proximidade do mais profundo? Ah, eu vejo a dor e ouço meu canto, e sei que os pássaros cantam sua canção mais bela só por uma vez. Como eu disse, estou embevecido comigo mesmo; seria chegada a última hora? Quantos passos separam-me da queda, o vento açoitando-me o rosto, o estômago e as vísceras frias numa massa informe?

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