segunda-feira, 19 de abril de 2010

OS APOSENTOS

O QUARTO DE DORMIR

- Quanta coisa, né?
- É, é.
Pausa.
- É.
Mas por que ele tinha que falar das tantas coisas que se acumulavam? Talvez sem importância para nós – dois intrusos – mas, se aqueles novelos de lã pudessem dizer-nos algo, protestariam, veementes.
- Não nos toquem, intrusos.
- Vão embora.
- Deixem-nos em paz.
Pausa.
- Se a Velha Senhora visse o que vocês estão fazendo...
Nada de condenável. Mera curiosidade. Tanto ouviram falar daqula grande e interminável tapeçaria que quiseram vê-la com seus próprios olhos. Tocá-la, enroscarem-se nela. Fazer dela um objeto com uma existência, fios trançados, temente de Deus e de traças.
- Está vendo alguma coisa?
- Não.
- Nem eu.
Pausa.
- Talvez fosse melhor a gente ir embora.

O HALL DE ENTRADA

- Fiquei cansado de tanto andar.
- Eu também.
Pausa.
- Eu também.
A casa vazia, encolhida como um balão murcho e caído. Umas réstias de luz, um castiçal, cacos de copos trincados perto de nossos pés.
- Você acha que ela vai notar algo?
- Que nada.
- Tolice?
Pausa.
- Bobagem.
As réstias de vidro, nosos pés trincados.

O JARDIM DE INVERNO

- Talvez ela note algo.
- Talvez.


Pausa.


(Talvez).

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