segunda-feira, 31 de maio de 2010

Pescaria

O barco e as ondas brincavam; subia e descia, ia e vinha.
A linha translucidava e, lúcida, emborcava, mergulhava e emergia.

Neste aquário, o pescador solitário persistia em sua façanha:
Retirar destas falésia marítima o que nunca existira,
Romper o véu tênue que separa a realidade da fantasia.

Com sua vara e seu anzol, sua linha de nylon e suas iscas,
Submergia e respirava o ar puro de suas águas e nelas, delas
Renascia, anfíbio fragmento de uma infindável metamorfose, névoa serena de orvalho matinal.

domingo, 30 de maio de 2010

LAMBDA

Passada a tempestade, uma poça forma-se no calçamento de arenito rosa.

Um cãozinho sedento lambe e sacia-se no centro deste pequeno lago,

Passando a língua rosada e comprida no céu que se projetava, que nesta

Se refletia.

Amanhecendo um novo dia, vem o sol e evapora um sonho bom.

sábado, 29 de maio de 2010

ÉPSILON

Uma concha que rola pela areia fofa da praia.
Toma a mesma entre as mãos brancas, e ouve o mar,
Os sons serenos escondidos nos caracóis e medusas.
Atendendo ao canto desta melodiosa sereia, agarra-se à sua cauda aquática
E mergulha fundo, aprofunda-se nas cataratas abissais do espelho d’água.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

SIGMA

Marginais às águas lamacentas dos ribeirões, existem diamantes.

Com a bateia em punho, perscruta os depósitos de lodo e procura.

Surpreso, se depara com um caco pequeno de vidro fosco, sujo de areia.

Limpa a lama, sua imagem reflete-se emoldurada pelo céu aberto.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Eu andava na rua

Eu andava na rua
Quando o homem olhou-me;
Ele não viu meus versos de poeta,
Pediu-me pão.
E o poeta negou-lhe o pão,
Desviou o rosto.
O homem sujo poderia ter matado o poeta
E sua impotência,
Fazendo do poeta um homem
E do homem, poeta,
Mas ele preferiu buscar o próximo que,
Como eu,
Simplesmente o ignorou.
E a poesia tornada impotência
Aspirou à vida à própria morte;
Porém, covarde que é,
Fez-se verso,
Embora o poeta mentalmente beijasse
As mãos do maltrapilho,
Em bênção.

terça-feira, 18 de maio de 2010

prelado

minha alma tem catedrais de longas naves esparramando-se
para além do milharal de corvos negros e espantalhos de palha.
observo o horizonte e vejo a água do mar.
olho para cima e vejo o infinito pensar.
ajoelho sobre a terra e a acaricio, pois ela sou eu
ou o que serei um dia. minha é uma catedral de longo curso
onde padre navegante iças as velas e grita: homem ao mar!

minha alma menina urina na coma pela noite com medo do bicho papão
que o escuro do quarto esconde ao lado das bonecas perfiladas e minha
saia amassada é carranca sinuosa. mamãe, tira esse bicho daqui que
eu tenho medo. e a mãe cuidadosa é reverso de meu medo descuidado
virando para o lado, agarrando as cobertas como quem esconde
um segredo maior.

minh’alma seria chama, se todas não fossem
minh’alma seria sopro, se todas não fossem
minh’alma seria fóssil se todas não fossem.

mas mina minha alma o segredo de uma menina de mãe cuidadosa,
laço de fita em dia de festa, corando sazoneira como as cores de coralina,
alinhavada em bonecas de pano e uma saia passada, outrora plissada,
agora saia mulher, não menina. mas minha alma gregoriana canta sinuosa
a missa, e se esparrama na melodia salina subindo às naves soprando
as desditas, pensando o vento que assusta os corvos sobre o infinito da terra.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

mas será que o amor daria conta de todos estes dias? todos

mas será que o amor daria conta de todos estes dias? todos
estes seus dias em que te arrastas a meu lado, muda mulher,
tantos dias perdidos? e daria o amor conta de todos estes astros
ligados, assim como de cada um de meus poros? não, não pode ser
o amor um monstro tão forte e impiedoso.

eu sei que tantos líricos cantaram o amor como uma pedra de mil faces,
e destinaram a ele tantos motivos... disseram do amor muitas ações
mas eu o acredito semelhante a esse homenzinho pálido e frágil
que nos sorri a cada vez que chamamos por seu nome e, em silêncio,
deixa cair sobre seus ombros a culpabilidade de todo um mundo vazio.

amor, seria o amor capaz de tantas atrocidades?
sim, você me diria, pulsos cortados, o definhar lento da amada
ou o pranto desesperado, o amor é seu padrasto e pai.
mas, amor, como tu darás conta de todos estes dias e todos estes momentos,
uma vez que nem o amor pode ser tão grande assim?

e tu me responderias, ah, amor, eu não sou só um vocativo,
e meu hábito te revela minha procedência; eu venho onde todo homem é um rei
e todo rei é um deus, e todo deus é um homem, e onde todas as coisas
cabem perfiladas em seu pranto ou em seu raiar ou simplesmente
na evocação que as faz existirem. descansa, amor, este teu fardo.

e eu te olharia, os olhos da piedade, te veria não amor, este vocativo
inflado, mas mulher fatigada de amor, e eu veria em ti no não visto,
o fardo de todos estes dias emudecidos e líricos (e talvez eu te cantasse
uma canção). e talvez eu tocasse o teu hábito (tão diário), talvez eu
te evocasse. amor, piedade, amor, que não sou deus nem rei, mas mulher,
e pesado é este meu fardo, o dos dias, o do homem. talvez eu te tocasse as mãos,
mas isto pouco importaria.

domingo, 16 de maio de 2010

Ao nascer

Ao nascer
A beleza de uma tez infantil
Olhos azuis a refletir a luz do céu
Aos dez
Corria pela casa feliz
E o orgulho de uma de uma inteligência em botão
Que principia a desabrochar
Aos vinte
Garotinha cantada como mina
Pelos portões e barzinhos
E a Lua cheia a espelhar
Pérola noturna do sorriso teu.
Aos trinta
A primeira ruguinha desmponta implacável
E sente-se que a sua jovialidade
Sofre o primeiro baque
Perante a implacável (também) birthday date
Aos quarenta
Nem tudo é felicidade
Vaidade
A atormentar a tez que se dilui
Num mar de imperfeições
Talhada pelo tempo
Que já se esquivava nas trevas das
Lágrimas amargas (ou talvez não tão)
Aos cinquenta
Não mais a jovem de olhos celestiais
Cabelos escuros como a noite
E o sorriso lunar (cheio);
Os cabelos já mostram traços de Lua
Os dentes já atingem a noite
O sorriso cada vez menos celestial
Apesar dos olhos ainda evocarem estrelas
Um suave piano
Ainda que solitário
E tocado por mãos que não mais existem
Aos sessenta
A lua já dominava o seu cabelo
Os dentes já haviam sido devorados pela noite
Junto com o sorriso
Felicidade não mais.
Tudo ia assim
Tudo era assim
Tudo estava assim.
Até que, num dia qualquer,
Veio o céu
E tomou, suave, as estrelas
Para iluminar o crepúsculo que se aproximava

E ele veio
E, com ele, uma noite onde faltavam duas estrelas
Que tocavam piano
Para o Sol que se ia.

E se foi.

sábado, 15 de maio de 2010

No dia, de manhã bem cedinho, ele chegou, com seu peito arfante

No dia, de manhã bem cedinho, ele chegou, com seu peito arfante
E um pequeno silêncio de cão;
Recostou-se em meu colo, abração minhas almofadas
E recitou alguns versos que eu julgava
Desconhecer;
De súbito, lançou as almofadas contra as paredes da casa,
Olhou-me com piedade,
E partiu antes que eu pudesse acenar-lhe um lenço.



À tarde ele retornou, e daí eu o reconheci
E tentei impedir que ele passasse por minhas portas,
Mas não pude;
Mais uma vez, ele pousou suas asas em meu leito
E se disse cansado de seus voos;
Cantou-me uma ou duas canções de ninar suavemente,
No que adormeci;
Então, vendo-me tão desprotegido, de olhos cerrados
E em sono profundo,
Abriu as venzianas e voou alto, atravessando nuvem branca
E úmida
E roubando as palavras que outrora eu tinha nos lábios.



Cai a noite; fecho portas, janelas e frestas pelas quais
Ele poderia se inserir;
Tolo que sou! Descubro-o dentro de um cinzeiro, entre cinzas de sonhos
Que ele mesmo queimou.
Tolo que sou! Aninho-me entre suas asas quentes, respiro seu ar frio,
Fingindo creem seu seus versejos e cantigas
Enaquento não se vai.




(Tolo que sou,
Desta vez, canto com ele sua canção de adeus
Enquanto sumo como um ponto no horizonte.)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O CORREDOR

o corredor
para
frente
vai

no início
uma
porta
linhas
distantes
fundo
sem fundo

o
corredor

está
desnudo
por
sua
vez

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A CORTINA

poder-se-ia escrever um tango
sobre estas cortinas
(velame de algumas solitárias
janelas)

poder-se-ia agarrá-las
e esfregar-se nelas
num rito profano
de purificação

mas isto tudo é tolice.

terça-feira, 11 de maio de 2010

carta de caminha ao rei quando de sua chegada aos infernos

senhor, estas terras não ousamos navegar, ainda que nossa raça seja de destemidos e bravos; o lodo destes pântanos em muito se assemelha aos nossos mares. barcas e mais barcas poderiam flutuar por aqui sem se tocarem mutuamente. a ausência ecoa de forma a confundirem alguns de nós tal lugar com um deserto sem luz, ou um labirinto virtual, onde perdemo-nos em não nos movermos a parte alguma, mas a sensação infere algo destas. corre a lenda de que heráclito esteve aqui mas, aos seus primeiros passos sobre o leito de pedras de um dos pântanos, lançou um grito e desapareceu. dizem-no um dos pântanos, o único cuja água seria potável, reconhecível por seu uivo aos passantes. mas todos os pântanos aqui lançam uivos, talvez naquele instante heráclito tenha-se tornado todos os pântanos daqui ou outros homens tenham-se tornado heráclito e todos os pântanos. sabemos da profundeza das águas do mar, mas nada é comparável a isto. os homens aqui entreolham-se com muito mais profundeza, relatam-se até alguns involuntários afogamentos, o que leva os homens a evitarem-se mutuamente os olhares. o calor constante reconforta à exaustão, tem-se a impressão das águas daqui serem oriundas de nosso suor, alguns de nós temem desfazerem-se e tornarem-se mais um charco anônimo. mais que o silêncio, deve-se guardar o silêncio. a sede nos queima enquanto buscamos no profundo dos uivos o homem que é todos e nenhum, o homem que talvez seja qualquer um de nós, que sua água nos reconforte e nos redima de nossa culpa de ainda sermos nós mesmo, heráclito de éfesos e seu uivo, o primal de tantos ecos.

sábado, 8 de maio de 2010

o espírito santo, na forma de uma pomba, busca fecundar a virgem após a deposição de jesus morto.

estava na colina quando te vi vertida,
e a dor corrompe como a chuva ácida
sobre o solo despido: seu corpo hoje não é a chaga
de seu ventre (mãe outrora), mas jorra.
deita-te, mulher d alma pálida;
não faça da tua face o escândalo,
nem te surpreendas o gozo que te lanço;
assim como lançastes o corpo ao solo,
eu te lanço o sêmen para que o milagre se faça;
o que busco entre teus lábios entreabertos,
no silêncio abrigado, nas tuas entranhas
(pois já fostes mulher, mãe, e hoje
nenhuma palavra te apaziguaria a paz),
é menos esta fala que te soaria pouca;
meu anseio é retornar-te
ao mundo onde encontrarás teu nome
e, chamada, a paz tornaria à origem
pois o tempo se desfaria e,
em meu engodo,
seria como se tu nunca tivesses conhecido
o mundo mesmo que hoje carregas à treva.
permita-me afogar tua sombra no meu lago pouco,
mulher de olhos vitrificados,
antes que soe a hora
e eu parta – grão – para o lado da ampulheta
que a sombra mesma da vida encobre,
até que a morte também caia.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

meu navio tem dez mil velas, todas inúteis

meu navio tem dez mil velas, todas inúteis,
pois ele é do tamanho do mundo, de nada me serve;
seus cascos são de metal frio ao toque,
o dorso brilhante de toda alvorada.
montanhas não lhe faltam; é um navio singular
de colinas flutuantes que ameaçam soçobrar
por vezes. habitavam-no antes de mim aborígenes
e alguns animais de pequeno porte.

meu navio, eu lancei-o ao mar, e disseram os peixes:
não pode haver navio assim tão extenso, e eu repliquei:
sejamos justos, este navio abarca toda a extensão das coisas
visíveis (dez mil velas!), sejam razoáveis, rendam-se à evidência.
e disseram os peixes, nada mais justo, mestre e senhor,
se foi na eternidade que tal navio foi concebido nele devemos
existir (se o mundo nele cabe) para um dia sermos emanados,
e os peixes foram.

e foi o navio até as encostas mais distantes (que dele eram
próximas três dedos), e disseram os animais da terra:
ma que tamanha extensão é esta que nos abarca e lança-nos
a sombra do extenso?, e disse eu, amigos, vejam, esta é a
sombra maior, e eu lanço para tornar conhecido quão extenso
pode ser o manto da escuridão. não lhes direi que possuo o
sol, mas toda sombra é mina de direito e fato, já que é minha
toda a sombra do mundo, e disseram os animais, senhor, abrigai-nos
para além desta manta negra,
e os animais foram.

e disse noé, senhor, tua tarefa está cumprida, mas antes ela não o estivesse,
pois passei a eternidade, à tua semelhança, construindo a nau de deus, e hoje
sei como os peixes que não pode haver teu navio de dez mil velas
(como os peixes, rendi-me à evidência),
sei como os animais da terra quão extensa é a tua escuridão, senhor, eu te renego
e só te peço, faças-me navegante errante de dez mil velas, dez mil vezes, para além
de todo o teu.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Apelo à Lua

Numa de suas infindas sarjetas, o poeta murmurava.

Boa noite, piranhona. Você está bonita, sempre foi bonita. Só que nunca me deu atenção, só fica me seguindo por aí, para aonde quer que eu vá está você. Nos terraços das casas, debaixo de ti, eu só fico a me imaginar, a me locupletar de fantasias com você, sua piranhona. Você me deixa louco com essa sua cara branquinha, eu fico querendo te penetrar por todos os seus orifícios, sua maluca, e eu sei que você sabe disso. Por isso que você me azucrina, não me deixa em paz, me segue para todos os lugares que eu vou. Eu pulo, balanço os braços, tento voar para te alcançar, mas nunca consigo. você deve rir pra valer, achar uma puta graça de mim, aqui embaixo pulando e tentando te pegar, não é? Mas tudo bem, um dia eu a terei entre minhas pernas, e daí te farei gozar cem vezes, e nunca teu brilho voltará a ser tão intenso quanto nesse momento. Que eu invejo essas estrelas que estão ao teu lado, eu invejo. Gostaria de não ser tão efêmero, de ter mais tempo para te declarar amor, te deixar vermelha nas noites em que estás cheia, mais que uns míseros 40, 50, 70 anos, talvez menos que isso. Gostaria de ser como suas amiguinhas, ter milhares de anos para te dizer bobagens, para te excitar com minhas insinuações, para te levar rosas roubadas dos jardins de Zeus e escondê-las no teu lado escuro enquanto a noite não chega. Mas um dia serei como elas, as estrelas. Talvez eu consiga voar uma noite dessas, e ficarei ao teu lado. Vou te contar umas histórias doidas que te farão rir e sorrir, te encantarei com meus dotes. Serei poeta, e só então serei eu. Algo mais que efêmeras estrelas que o Sol encobre.

Levanta e se vai, sem mais nada dizer. As folhas caem de seu colo. Só a lua o acompanha em sua trilha de bêbado sem rumo certo.

Uma brisa bem, e as folhas se dispersam.

sábado, 1 de maio de 2010

Um homem docemente caminhou sobre a terra

um homem docemente caminhou sobre a terra
e não percebeu em seus pés
as raízes sólidas e dolorosas que criara,
à sua revelia.

mãe e filhos cresciam sob seus passos
como juncos desorientados e enfim feitos mais fortes
que a tormenta erguendo-o acima do solo
sempre para o alto.

gritamos todos, mãe e filhos – eu
que o amava como só se pode amar a um homem
mas todos os gritos só se perderam no torvelinho,
não grilhões, não correntes.

um homem docemente caminhou sobre a terra
e não percebeu em seus pés arrancados
nas raízes sólidas
minha alma que levava consigo.

tampouco o turbilhão;
mais e mais para o alto,
enquanto a terra de que fomos feitos gretava infértil,
à guisa de cicatriz.