terça-feira, 11 de maio de 2010

carta de caminha ao rei quando de sua chegada aos infernos

senhor, estas terras não ousamos navegar, ainda que nossa raça seja de destemidos e bravos; o lodo destes pântanos em muito se assemelha aos nossos mares. barcas e mais barcas poderiam flutuar por aqui sem se tocarem mutuamente. a ausência ecoa de forma a confundirem alguns de nós tal lugar com um deserto sem luz, ou um labirinto virtual, onde perdemo-nos em não nos movermos a parte alguma, mas a sensação infere algo destas. corre a lenda de que heráclito esteve aqui mas, aos seus primeiros passos sobre o leito de pedras de um dos pântanos, lançou um grito e desapareceu. dizem-no um dos pântanos, o único cuja água seria potável, reconhecível por seu uivo aos passantes. mas todos os pântanos aqui lançam uivos, talvez naquele instante heráclito tenha-se tornado todos os pântanos daqui ou outros homens tenham-se tornado heráclito e todos os pântanos. sabemos da profundeza das águas do mar, mas nada é comparável a isto. os homens aqui entreolham-se com muito mais profundeza, relatam-se até alguns involuntários afogamentos, o que leva os homens a evitarem-se mutuamente os olhares. o calor constante reconforta à exaustão, tem-se a impressão das águas daqui serem oriundas de nosso suor, alguns de nós temem desfazerem-se e tornarem-se mais um charco anônimo. mais que o silêncio, deve-se guardar o silêncio. a sede nos queima enquanto buscamos no profundo dos uivos o homem que é todos e nenhum, o homem que talvez seja qualquer um de nós, que sua água nos reconforte e nos redima de nossa culpa de ainda sermos nós mesmo, heráclito de éfesos e seu uivo, o primal de tantos ecos.

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