segunda-feira, 17 de maio de 2010

mas será que o amor daria conta de todos estes dias? todos

mas será que o amor daria conta de todos estes dias? todos
estes seus dias em que te arrastas a meu lado, muda mulher,
tantos dias perdidos? e daria o amor conta de todos estes astros
ligados, assim como de cada um de meus poros? não, não pode ser
o amor um monstro tão forte e impiedoso.

eu sei que tantos líricos cantaram o amor como uma pedra de mil faces,
e destinaram a ele tantos motivos... disseram do amor muitas ações
mas eu o acredito semelhante a esse homenzinho pálido e frágil
que nos sorri a cada vez que chamamos por seu nome e, em silêncio,
deixa cair sobre seus ombros a culpabilidade de todo um mundo vazio.

amor, seria o amor capaz de tantas atrocidades?
sim, você me diria, pulsos cortados, o definhar lento da amada
ou o pranto desesperado, o amor é seu padrasto e pai.
mas, amor, como tu darás conta de todos estes dias e todos estes momentos,
uma vez que nem o amor pode ser tão grande assim?

e tu me responderias, ah, amor, eu não sou só um vocativo,
e meu hábito te revela minha procedência; eu venho onde todo homem é um rei
e todo rei é um deus, e todo deus é um homem, e onde todas as coisas
cabem perfiladas em seu pranto ou em seu raiar ou simplesmente
na evocação que as faz existirem. descansa, amor, este teu fardo.

e eu te olharia, os olhos da piedade, te veria não amor, este vocativo
inflado, mas mulher fatigada de amor, e eu veria em ti no não visto,
o fardo de todos estes dias emudecidos e líricos (e talvez eu te cantasse
uma canção). e talvez eu tocasse o teu hábito (tão diário), talvez eu
te evocasse. amor, piedade, amor, que não sou deus nem rei, mas mulher,
e pesado é este meu fardo, o dos dias, o do homem. talvez eu te tocasse as mãos,
mas isto pouco importaria.

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