sábado, 15 de maio de 2010

No dia, de manhã bem cedinho, ele chegou, com seu peito arfante

No dia, de manhã bem cedinho, ele chegou, com seu peito arfante
E um pequeno silêncio de cão;
Recostou-se em meu colo, abração minhas almofadas
E recitou alguns versos que eu julgava
Desconhecer;
De súbito, lançou as almofadas contra as paredes da casa,
Olhou-me com piedade,
E partiu antes que eu pudesse acenar-lhe um lenço.



À tarde ele retornou, e daí eu o reconheci
E tentei impedir que ele passasse por minhas portas,
Mas não pude;
Mais uma vez, ele pousou suas asas em meu leito
E se disse cansado de seus voos;
Cantou-me uma ou duas canções de ninar suavemente,
No que adormeci;
Então, vendo-me tão desprotegido, de olhos cerrados
E em sono profundo,
Abriu as venzianas e voou alto, atravessando nuvem branca
E úmida
E roubando as palavras que outrora eu tinha nos lábios.



Cai a noite; fecho portas, janelas e frestas pelas quais
Ele poderia se inserir;
Tolo que sou! Descubro-o dentro de um cinzeiro, entre cinzas de sonhos
Que ele mesmo queimou.
Tolo que sou! Aninho-me entre suas asas quentes, respiro seu ar frio,
Fingindo creem seu seus versejos e cantigas
Enaquento não se vai.




(Tolo que sou,
Desta vez, canto com ele sua canção de adeus
Enquanto sumo como um ponto no horizonte.)

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