terça-feira, 18 de maio de 2010

prelado

minha alma tem catedrais de longas naves esparramando-se
para além do milharal de corvos negros e espantalhos de palha.
observo o horizonte e vejo a água do mar.
olho para cima e vejo o infinito pensar.
ajoelho sobre a terra e a acaricio, pois ela sou eu
ou o que serei um dia. minha é uma catedral de longo curso
onde padre navegante iças as velas e grita: homem ao mar!

minha alma menina urina na coma pela noite com medo do bicho papão
que o escuro do quarto esconde ao lado das bonecas perfiladas e minha
saia amassada é carranca sinuosa. mamãe, tira esse bicho daqui que
eu tenho medo. e a mãe cuidadosa é reverso de meu medo descuidado
virando para o lado, agarrando as cobertas como quem esconde
um segredo maior.

minh’alma seria chama, se todas não fossem
minh’alma seria sopro, se todas não fossem
minh’alma seria fóssil se todas não fossem.

mas mina minha alma o segredo de uma menina de mãe cuidadosa,
laço de fita em dia de festa, corando sazoneira como as cores de coralina,
alinhavada em bonecas de pano e uma saia passada, outrora plissada,
agora saia mulher, não menina. mas minha alma gregoriana canta sinuosa
a missa, e se esparrama na melodia salina subindo às naves soprando
as desditas, pensando o vento que assusta os corvos sobre o infinito da terra.

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