quarta-feira, 28 de julho de 2010

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no início fora o silêncio. um silêncio tão grande que não se poderia dizer o seu tamanho. um silêncio onde seus olhos não desviaram dos olhos daquele homem que lhe abrira o abismo de si mesmo. um silêncio destes pode abarcar uma vida toda, às vezes. mas o homem era uma necessidade, e passado aquele instante onde eles se tocaram tornou a fisionomia mais contrita, mais circunspecta e um pouco compassiva. depois, pigarreou, desviando os olhos dos olhos suplicantes de César, desabrochando um incômodo. mas César teve forças para deter-se um momento mais, até que sucumbiu num sorriso.
- o senhor quer dizer que eu estou grávido?
o médico viu-se restituído à humanidade daquele silêncio anterior pelo espanto. sua fisionomia relaxou-se, a boca carnuda e vermelha entreabriu-se. com uma sabedoria que nem sua esposa o julgaria capaz, disse então, muito velho:
- sim. ele era de novo um médico, não mais um homem. sim, pode-se ver deste modo.
- e pode-se já saber o sexo desta criança?
- ah, uma menina, de grandes olhos...
- como os do pai, disse César num êxtase.
como se tudo houvesse sido dito, César ergueu-se.
- penso que você deve comunicar o fato ao...
- pai da criança? mas é claro, doutor. ele será o primeiro a saber.
o sorriso o havia deixado, mas não a alegria de seu rosto. o médico, sentado à mesa, não ergueu os olhos até que César deixasse a sala. ao som da porta fechando, recostou-se melhor na cadeira e lançou ao céu um longo suspiro.

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