quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Bestial (Catedral II)

É no Senhor que encontrarei a misericórdia de meus dia
E a sagração de minhas noites
Até à exaustão.
É nele que encontrarei o sussurro do não-dito
E o ritmo supremo de um nada infinito.
É nele que haverá a misericórdia de tudo que sou?
Não sei tampouco se seu abrigo tem a vastidão de suas posses
Ou se, nele estando, brilharei mais forte
Ou serei ofuscado por seu brilho;
Enfim, só sei, Senhor,
Que és incógnita
De questão ausente.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Das histórias da vida:

Para começar a história
Da vida
É preciso mais que a chama
Da vela
Ou umas cinzas de cigarro
Do bêbado
Para começar a história
(Velha história)
Da vida
É preciso as cinzas
Do isqueiro
Ou quem sabe até a chama
Do bêbado.
Não.
Da vida,
Só é preciso
O cigarro.
A chama, as cinzas
E o bêba-
Do
São só histórias
Da vida.

(Essas, ela as conta
Para ninar as estrelas
Que preguiçosamente recolhem seu brilho
Para um novo dia que nasce).

A vida tem seus sortilégios...



(1989)



(Curiosidade: esse poema está escrito a mão no verso de um convite para uma palestra do João Amazonas, denominada “O surgimento do movimento operário e a situação atual”, a ser proferida no Sindicato dos Jornalistas, em São Paulo, no dia 25 de março, às 15 horas. Assinatura do convite: Comissão pela legalização do PC do Brasil).

sábado, 25 de dezembro de 2010

BREAKFAST

O cosmos, esse agrupamento de pedaços de linguiça e pão.

Te conheço desde minha infância, quando te invejava eu sua grandeza de migalhas;

Hoje, sei que tenho a ti dentro de mim, que nos confundimos um ao outro em nossos folguedos de esconde esconde;

E tu, tu também sabes que na essência da minha vastidão tens uma parte do controle acionário.

E eu, eu me conheço como a teus mapas celestes,

sei onde cintilam minhas maiores constelações, e onde se enevoam plumbeamente

Minhas maiores nebulosas.

E caminho contra ti, em tua direção sinalizo e me agito.

Tuas migalhas são as minhas, teu sistemas refletem os meus, nos perdemos uns nos outros e nos encontramos.

Para finalizar, nos rompemos em fatias herméticas de pão sem casca, migalhas que os outros sartreanamente comem e digerem,

E se fazem maiores que na realidade o são; na real realidade, nesta presente verdade, nada mais são;

são mais que fatias, são a geleia que mela

que sela o pão.

Gela, cala então, e, quando se derreterem suas geleiras frígidas, encontrarão meia dezena de mamutes,

E se perguntarão pelo significado de mais esta metáfora.

Deixa que se sequem, que se sufoquem em seus próprios lenços, lençóis;

Que se atraquem entre si, nos portos, que beijem suas esposas e filhos e contem, emocionados, as peripécias desta viagem,

Das estrelas e dos cometas, dos dias e noites, dos pães e dos mamutes.


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Enigma

Senti o toque de teu olhar
Gelou-me até os ossos
Sorriso quebra-gelo boiou em minha face

A rispidez de tuas palavras
Rasgou minha pele e fez o sangue jorrar
Fiz transfusão de complacência e melhorei

Sua distância desfez-me em lágrimas
Tive desidratação
Bebi os oceanos e passou

Meus cérebros teus argumentos
Tomei de agulha e linha
E costurei tudo em ponto cheio e lantejoulas

Tentaste o último recurso: fingiste morrer
Morri também só para te caçar pelos cemitérios
Do meu corpo decomposto, só sobrou o coração
Embalsamado de amor por ti
E algumas lantejoulas do cérebro que brilharam
Mais intensas quando você chegou
Na calada da noite e roubou meu coração
Para não mais o devolver.

(1984)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Quando chegar, não bata a porta

Quando chegar, não bata a porta,
Por favor.
Seja silenciosa
Que tal antes um pequeno afago
Ou quem sabe um beijo
Por entre os olhos?
Podemos sentar-nos, frente a frente,
E entre um gole e outro
Sorver saudades amargas

Assente-se na minha poltrona;
Ela também é sua, afinal!
Relaxe,
Talvez eu esteja tenso
Talvez tremendo de febre
Ou bêbado, correndo ágil.
Talvez eu sequer esteja.

Mas não ligue para as formalidades;
Sem confissões, sem extrema-unção,
Nem uma praia deserta, ao luar
Ou um campo fértil, cheio de trigo,
Nada disso.
Quero morrer, viver essa experiência
Única e inusitada
Nesta selva, a única que sempre amei e amarei
E, quando estiver conduzindo teus caminhos
Por escuridões sempre presentes
E um verme ou outro, a esmo
Quero ver-te ao meu lado
E dar-te o último beijo.
E então o mundo estará mais leve.



(12.1984)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Fenícia

Sabeis o que sois
e de tudo aquilo que repica com o sino,
Fenícia pagã;
e tudo o que é no modelar incessante
de cada instante
e tudo aquilo que ressoa com o sino
é eterno
e tudo aquilo que fostes forma
é eterno
e no movimento do teu abandono
ressoa
e tudo quanto vibra com as cordas
é eterno
e tudo aquilo que parte
é eterno
e no movimento incessante do que gira
repica um sino.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Fenícia (demente)

já sabes o que sois
e de tudo aquilo que parte, Fenícia pagã;
pois aquilo que fostes
e o que sois formamam a roda do que
é eterno, e no movimento
incessante do que gira badala um sino,
repica.

Sabeis o quanto do teu abandono
se encerra nas feições? sabeis o quanto vibram as
cordas mais íntimas do ar insuflado em ti
quando teu nome se faz ouvir?

fenícia demente.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Fenícia (dulce)

descobri-me

sou fenícia, a pagã
demente

em mim, repica um sino
etenerante, funéreo sol
de cada instante.

e de todas as minhas cordas
ressonantes solidárias desse sino demente
cai o orvalho eterno
dos dias.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A ESCADA

a cascata retorce-se,
contorce-se
e desemboca num lago
a folha de vime se desprende
boiando num lago sem fundo,
principia a germinar
tapetes

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Poema desconexo – II

Ver-te num raio de luz
É a hora do adeus
Partir sem nem conhecido chegar
Êxtase performático
Simbolicamente sinestésico
Ou não.

As estrelas são teus olhos
A me observar
Indiferentes
Pentram no meu âmago
Minha essência
E saem, nunca os mesmos

Polarização amorosa
Sintetização dolorosa
Polimerização inerente
Sufocação permanente
Rupturas cruzadas
Amadas
Ou não.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Dívida: (pour Geninho)

O meu único pecado
É não ter feito
Um país.