sábado, 10 de dezembro de 2011

Repente



Da impureza do destino,
o mundo rateia
um menino;

(O sapo coaxa na lagoa,
se imerge em
uma vitória-régia
em carne viva)

De flor no chapéu
e pescoço na lapela,
no brejo se ergue
(o contornam os pés de juta
e canela)

O vapor o dissolve num beijo,
e o mumifica
Em resíduos de sal-de-fruta
amargo.



(manuscrito a lápis)

(sem título)


(sem título)

Minto
se te digo
que te venero
como o vento
À luz
Cálida.

Meu tormento,
Redemoinhos
São teus olhos
No meu globo;

Tu,
Que seduz
Gélido
Como nem tu és.


(manuscrito/sic)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Cristal

cristal (1)



seria ilegítimo acenar
tamanha estranheza;
choca-te os olhos
este meu olhar?
perdoa a ausência,
o tato é volátil.

cristal (2)



o que seria ser mulher?
o mistério persiste.
mas deita, amor,
e me permite
gozar
a sabedoria de teus lábios.

cristal (3)



pestanejei
e o mundo se desfez, refazendo-se
em seguida;
fechei as pálpebras por alguns minutos
e novamente ele silenciou;
só a eternidade do olhar impede
o calor de todos os rumores.




1989/manuscrito

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Temporalidade III

O mesmo que não o é;
É outro.



(manuscrito)

Portrato

Olhei fundo nos lagos azuis de
Bette Davis
E me descobri,
Descobri-me sentado num de
seus rochedos.

Caravelei até lá,
o vento em minhas velas de
Portugal,
rendadas em clássico.

Foi o mais belo naufrágio.



(manuscrito)

Ambiguidade

O mesmo que não o é;
É, isto,
Um outro.


(manuscrito)

Sociedade I – o moderno

O meu corpo é formado por algumas partes, a saber:
corpo 1, corpo 2, corpo 3.
O corpo 1 seduz o corpo 2 (que é virgem)
O corpo 3 seduz o corpo 2 (que é virgem)
O corpo 2 pensa ser um irresistível homem
O corpo 1 e o corpo 3 são muito mentirosos;
O corpo 2 é um eterno tolo.
O corpo 3 conversa, às vezes.
O corpo 1 escreve sonetos.
O corpo 2 e o corpo 3 são intelectuais.
O corpo 3 é viado assumido.
(Os outros dois são enrustidos)
O corpo 1 gosta de samba,
Enquanto 2 dança sobre veludo
E 3 toca um bumbo.
O corpo 2 é justiceiro,
O corpo 3 é locutor de rádio
O corpo 1 vai a Santa Sé aos domingos,
O corpo 2 levanta pesos,
O corpo 3 abre a janela.
Os corpos 1 e 3 são nudistas
(À revelia do corpo 2 que, como já se disse,
É virgem, além de puritano).
O corpo 3 bebe um wiskey,
O corpo 2, adrenalina.
O corpo 3 estava na Inconfidência,
Enquanto o corpo 1 viajava pra Parati.
Todos os três são bastante coloquiais.

Algo me diz que nenhum deles
Gosta de mim
Ou de você.

(São todos muito anti-sociais).


87/02 (manuscrito)

sábado, 26 de novembro de 2011

A gde. foda da vida




A gde. foda da vida
É torcer-se o coração
E notá-lo cheio
De amor e amargura
De amores não dados
De amargura recebidas
Porra, eu quero
Esporrar amor pelos poros
Mas nunca encontro óvulos
Fecundáveis
Mais:
Nunca encontro vaginas
Penetráveis
O que fazer?
Auto-felação,
Homossexualismo (não, isso não),
Castração
Ou suicide?
Vejo-me perante três hipótese
Tão horrorosas
Quanto prováveis.

Mas, enquanto minha insegurança
Segura as pontas,
Dos meus seios flácidos escorre
O colostro
Que, por razões desconhecidas,
Ninguém quer sugar.
Que terrível sensação
De ser uma ejaculação
Ambulante,
Das pessoas acharem-me
Viscoso,
Viscoso de sêmen maldito
Embebido em lágrimas
E sangue de abortos!
Quão pedante, quão indescritível
A emoção
De explicar-se como um coração vazado
Que tenta molhar tudo que toca
Num misto de amor e leite!
(Que noje!)
Vomitem, amigos e irmãos!
Pois, enquanto me decido
Minha posição é do chafariz
Jorrante
Assistindo a náusea da coletividade
Até que picaretas me quebrem
Ou que eu me afogue
Nos meus próprios excrementos
De afeto.

(manuscrito)

(sem título)



Se os sentidos me bastassem,
estar só seria o fato;
Se meu corpo fosse tudo,
estar só seria o tempo;

Como o que é eterno não se inicia,
estar só é o princípio.


(manuscrito)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Minha poesia

Minha poesia está assumindo em si um elemento de aridez bastante forte. Ela tornando-se árida, ultrapassando o estágio da ‘essencialidade’ de textos como ‘Tempora’ e indo mais fundo na redução de elementos. Ela começou como um homem que vislumbra de modo mais ou menos distante a possibilidade da própria extinção, da morte. Depois, este homem ficou por algum tempo num estágio liminar entre a vida e a morte. Uma vez morto, este homem-menos (porque a morte roubou-lhe algo à medida que lhe acrescentou outro algo) enquanto podemos crer que algo se passa com ele em outro lugar, que ele sobreviveu (ou sua – argh – ‘alma’) e que ele ainda existe – o que muda muita coisa. Observe um homem decompondo-se: pode-se sentir um vazio, um esvaziamento dele; ele tronou-se matéria reduzindo-se nos seus elementos mais primários de constituição, expondo as vísceras e estas, transformando-se em substâncias químicas mais e mais simples. Este processo segue. Neste momento, minha poética estrutura-se de forma tal que alguém que a seguisse em seu percurso e relacionasse seus momentos com esta analogia, ao defrontar-se com os textos de ‘Cinco prelúdios à Erma de Ronchavis, a Tesa’, não poderia deixar de achar bastante adequada a imagem de uma ossada humana recostada numa duna, o vendo carregando partículas de areia que pouco a pouco desgastam e criam sulcos naquela superfície amarelada pelo sol cáustico, vento que pode recobrir tais ossos e fazê-los desaparecer de nossos olhos definitivamente, a qualquer instante.

domingo, 17 de julho de 2011

Pulsar



Me sinto tolo como um menino
Atrás do seu pirulito
Perdido no parque,
Choro um choro baixinho e triste
Na balança, sem consolo.
Onde estás?
Será que eu o engoli
Numa antropofagia pirulítica?
Ou o perdi
Entre as dunas do escorregador?


Desisto da procura
E saio da metáfora.


Sou bomba ambulante
Prestes a explodir
Num puta delírio.
Sou um pesadelo dos homens,
O mais terrível deles;
Sou a imagem dos teus reflexos
Mais profundos e indesejados,
Sou a tua alucinação mais ausente,
E, delas, a mais constante
Nos teus lençóis;
Embebo-me em cada gota das tuas secreções
E, tal qual tumor maligno,
Me embrenho nos teus órgãos mais profundos.
Me cagas, me mijas, sou teu tormento
Diário à beira do vaso
Sanitário.


Bailo tua música
Como o cisne
Que aguarda o fim do dia
Num pas-de-deux
Fatídico e pulsante
Ao por do sol
No insípido horizonte
Dos teus sentimentos.


Sou pegajoso, gosmento
Escorro por teus olhos pela manhã
Saio do teu nariz nas gripes
Sou o pus da tua gonorréia
Podre parte pentecostaliana
Das tuas orações sórdidas
E caminho no fio
De tuas brumas
Cuspindo e arrotando
Esgotos e predicados
Que, por mais alternados e grandes,
Nunca penetram na tua couraça
De caramujo tolo,
Que num pisão,
Esfacelo e esmago.


Para depois lambê-lo,
Num misto de horror e ternura
E continuar meu rumo,
Não sem antes dar-lhe meu último afago
Por entre escarros a fio.

(89)

terça-feira, 12 de julho de 2011

Eu me amo

Serenamente, percorreu a face,
Trilha de sortilégios ocultos
E desmesurados;
Com audácia, tolheu-lhe o olhar
Sem expressão,
E sorriu daquilo que nunca pode
Compreender.
Tomou do lápis – lança de batalha –
E imprimiu o que seu sangue
Jorrava-lhe aos ouvidos,
Numa entonação ora doce e frágil,
Ora forte e resoluta,
Assustando até.


[Pausa para pequena tosse (cof!)]


Parou.
Abandonou o lápis e o parto
E olhou o fruto do seu labor inútil
Entre gritos e sobressaltos.
A expressão – ah, essa era indefinível
E indefinida; algo entre soluçar
E espasmo sutil.
Numa interrogação sem ponto,
Anzol ou gancho vulgar,
Postou seu corpo,
Tomou uma xícara de café
E sentou-se à mesa, dando risadas,
Esboçando sorrisos,
Contando histórias sem fim.

(1985/04)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Desculpa se me prendi

Desculpa se me prendi
Na mancha do teu olhar
Tentarei levitar.


Desculpa se me arraiguei
Nas tuas vagas promessas.
Acordarei minha minhas pernas adormecidas nessas.


Desculpa ainda a minha tolice
Manifesta nos meus beijos ardentes.
Fá-los-ei menos “calientes”.


Desculpa as carícias que te entreguei
Nos momentos de ternura.
Desculpa a insistência da amargura.


Desculpa se me enraizei
Na chama que sequer me acendeu.
Desculpa por nunca teres sido meu.

(1984)

sábado, 2 de julho de 2011

Tropicus

(pour Paulo)

I

Kant, Schopenhauer, Marx.

Pandora abre sua caixa
Mil arapongas tupiniquins
Sobrevoam sua cabeça.

No fundo desta,
O martelo de Nietzsche.

II

Mentem os que arfirmam
Que somente é possível
Filosofar em alemão.

No fundo da garganta de
Cada araponga,
Bate o martelo de um
Nietzsche tropical.

(tradução de poemas visuais)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Permita-me duvidar

Permita-me duvidar.
Afinal,
É um direito que me assiste.
Constitucional.
Se em sua trilha
Brotarem flores,
Regue-as.
Afinal,
Água é bom e eu gosto.
Nós gostamos.
Afinal,
Todos somos rosas
Amarelas ou violetas.
Tudo é uma questão
cromática.

Ou quase.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Saí

Saí
com um gosto de ternura
nos lábios.

Não soube dizer
Se porquê
Ou se como.

Motivos
Talvez, não sejam
Essenciais.

Tampouco razões.

O que importa
É o grande espetáculo
Que se desenrola
A cada dia.
A vida.

E a ternura
Permanece
Nos lábios já sem cor.

domingo, 10 de abril de 2011

Poema macrobiótico em 5 tempos

1° tempo
Salsinhas piquei
Abóboras, repolhos e batatinhas
Couve-flores refoguei
Com chuchus e tomates madurinhos

2º tempo
Até que concluí
Que nada mais chato que ser vegetariano

3º tempo
Acrescentei miúdos de frango
- Nenhum efeito sustou.

4º tempo
Então resolvi bancar o natural
Viver à luz do Sol.

5º tempo
Desde então,
Um pé de alface sou.

(84/nov.)

domingo, 20 de março de 2011

BREAKFAST II


Massa de pão,
miolo amassado na mesa,
Pisado no chão.
A nata fria geme,
Gela a gordura num grito fino,
Firme.

No fogão, a chama acesa esquenta
Pedaços de papel
E fantasia dura, fantasmas pálidos
De uma sombra
Esquecida num canto da cozinha.

As palavras, torradas secas,
Pulam e se enrijecem, movem-se tortuosamente
na frigideira;
Espojam-se na gordura quente até
carbonizarem-se.

Uma mão rosada toma para si,
Entre seus dedos, uma parte da massa
E a esfrega nas cinzas azuis
E mornas, uma reminiscência, uma parca
ilusão.

Mordisca,
mastiga essa ex-vívida imagem,
engole então.

sábado, 19 de março de 2011

Sem nome

Esta é a luz
Iluminando os rumos
De um sonhador
Frustrado

Farolete invisível
Como luz, intangível
Passam por meu corpo
Por um prazer
Mórbido

Paralelas se encontram
As paisagens mutantes
Passeiam por aí
Num turismo
Muito louco

Meus pés viajantes
Cansados de andar
Pisam sobre elas
Para descansar
Um pouco

sexta-feira, 18 de março de 2011

Poema inativo:

Flores murchas
Secas
Resplandecem sob o sol
Imponente
Passam num andar
Trôpegas
Sob o sol
Causticante
Cavalos de Camargue
Passeiam
Por entre as dunas
Encharcadas
Correndo como crianças
Velejam
Sob águas
Areadas
O Poema sem fim
Prossegue
Em sonetos
Desatinados
Desejo irregular
A todos
Os poemas inacabados

quinta-feira, 17 de março de 2011

Poemas são rosas

Poemas são rosas
Amarelas
Rosas nascentes no jardim
Colhê-los com delicadeza
Cultivá-los com carinho
Amor
Paixão
Ternura
É a fórmula
As notas escorrem
viscosamente pelas pautas
Assim como as palavras
vão formando ordens
Assumindo posições
Noções
Sim ou não?

terça-feira, 8 de março de 2011

A vida é efêmera

A vida é efêmera
Esvai-se
Como temo
Contagem regressiva
Da partida
Inesperada
ou não
Pertencente
A quem?
Não sei.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Poema a um pequeno defunto

Extinta, a Alma se vai
Singela
Criança
Esperança
De que um dia
O que houver
Haja
de haver
(Semântico!)
Transplante meus lábios
Ao pequeno defunto
Não proferirei injúrias
Em teu nome
Sublime
Sobe


Adeus.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

tristeza

deveria pensar por mais trinta ou quarenta anos antes de me aventurar a dizer
de mim. mas aí outro diria, e nem de mim diria, diria de outro
com uma lembrança passageira. uma voz de mulher canta em mim
(e, pasme você, nem sou adélia prado). pensei nos domingos
dias de natureza triste, de tristeza fininha como o miado de pequenos gatos
que habitavam o quintal. eu não mais quintal.
estou triste e nem é domingo, dia onde espelho em mim
o miado escorrido das longas tristezas. estou triste e me confundo
com meu sentimento. se alguém me olhasse os olhos, pressinto que não
veria a mim; talvez, isso sim, me ouvisse baixinho.
continuo a pensar algumas tristeza, e a vertê-las: certo ocaso numa
praia do sul, os olhos longínquos de borges, um pequeno grilo esmagado
por descuido. penso também algumas tristezas mais distantes, mais alheias,
mas não me parecem autênticas. a quem vier ler este texto
evoque para si algumas lembranças, sinta marejarem os olhos.
isso é tudo que não me cabe fazer.
só posso sugerir.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Circus – Pequenos poemas - Sete Focas e Leões

1.

Momento a momento,
Sinto um tom que se abaixa
Uma oitava ao crepúsculo.

2.

O homem ´
É o Ser
Rodeado de hipóteses
Por todos os seu nadas.

3.

Um príncipe que guarda
Sua gema na coroa.
É um sorriso de luz azul, tênue.

4.

Passeando entre os caules,
Uma pequena saúva
Deposita um respingo de suor,
O orvalho da folha que acaba de cortar.

5.

No feixe de espadas,
O engolidor encontra, atônito,
Um ramalhete de violetas.

6.

A pele esverdeada e enrugada,
Suspensa por paus cheios de nódoas.
O feto aconchegante de bebês prematuros.

7.

Nas cornetas,
O solo de uma pantomima de Pirandello
Gera um (virtual)/(virtuose) espaço.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Seu Onório

Era um bêbado muito respeitado
Pois andava de cajado
E chapéu à paisana
Perambulava pelas ruas da cidade
Vivia a vida de verdade
Sem se preocupar com “cana”
Até que um dia o amor apareceu
E aquele que nunca se rendeu
A mulata agarrou
E seu Onório – velho muito respeitado
Trocou o seu cajado
Pelo avental e pelo amor!

- Oh, seu Onório, não faça isso!
Por acaso perdeste o juízo?
Casamento é coisa de louco
Apanha-se muito e vive-se pouco!

E seu Onório, muito calmo, replicava:
- Por essa vida que eu levava (avacalhada!)
Prefiro o amor de minha amada!

Mas um dia o amor acabou
E aquele que Ele levou
Para as ruas voltou

E o pessoal gritava, feliz:
- Seu Onório não troca amor nenhum
Por um copo de 51!!!

(31.10.82)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Sou um reles palhaço.

Sou um reles palhaço. E o que mais pode-se esperar de um ser humano? Não riam, por favor. Sou um palhaço, e sei que sou indigno de seu riso. Um palhaço estuporado, desesperado, acabado, findo. Uma semente de uva rio abaixo, abaixo, abaixo abaixando mais e mais. Não riam por favor: sou um palhaço. E nisso consiste a minha, a nossa desgraça. Nossa mais sincera presença neste picadeiro: a Vida.

Meu pai foi um palhaço; meu avô também. Já nasci rindo e fazendo rir. (Pausa) É uma sina, algo no sangue como uma bactéria: fazer rir. Ra, ra, ra. Perverti-me . (Irônico) Perdoem-me, papai, vovô, toda a minha família, perdoem-me minha pátria amada, meu povo, minha humanidade. Vim um palhaço às avessas, não sei fazer rir. Um anti-palhaço. Isso mesmo: se, no fantástico circo, nas paisagens imaginárias das pessoas, coubesse um a-palhaço, um não-riso, eu teria o meu lugar. Num silêncio, numa lágrima, que fosse, lá estaria eu. Uma materialização, corporificação de um eu mais profundo e mítico, mais metafísico e sincero que duas dúzias de dentes entalados entre pedaços de carne fresca. (Pausa) Não, um anti é um espaço negativo, não poderia ocupar um lugar sem ser destruído, retornado ao nada que o delimita sem o ser. (Pausa, olhando para o público). Mas perdão, senhores, perdi-me em minhas divagações. Um palhaço deve manter seus lábios cerrados – como os senhores – a não ser que seja para sorrir. Bem vulgar, não?

Mas basta. Revelei-me em meu esqueleto. Já puderam cheirar meus ossos e sentiram o vácuo em que me encerro. Nada mais há a se fazer, se é que, em algum dia, houve algo a ser feito. Palhaço: retira-te. Engano-me! Não existe mais nenhum palhaço. Talvez tudo não passou de uma grande farsa. (Ri). Uma farsa. Gostaria de poder reunir-me a vocês, colegas. Mas uma farsa, por mais que nunca tenha existido, tem que continuar. (Em off) É nosso dever dar-lhe seguimento.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Três ratos cegos

Três ratos cegos
Põem-se a roer
Roem Roem Roem.
Roem tumbas, carrancas
Roem folhas, madeira
Roem, crédulos,
O tempo.

Três ratos cegos
Roem Roem Roem
Sonhos, açúcar
Roem fios, tecidos
Toem tudo que supõem
A roer.

Três ratos cegos
Que roem o tempo,
Sapatos, cerâmicas

Três ratos não tão cegos
Roem o homem que há dentro
De cada um de nós.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Fragmento

De todas as utopias
Brandas ou inatingíveis
Eis a mais mirabolante
Extravagância:
Minha pequena pérola
Ornamentada de ouro
Diamantes da solidão
Só multiplicam
A intensidade do seu brilho
(Secretamente?) angustiado

E eis que o Ocaso se aproxima
Corro ao horizonte – ei-la
Desaparecendo por detrás do mar
Carregada pelas ondas
Pura ilusão
Pois sei que há de renascer
Durante a noite
Mergulhada, incrustada
Num teto de estrelas
(E, é claro, não sem o seu brilho branco
Alvo, fofo, brando
Leitoso, até.)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O AMOR QUE MOVE O SOL E AS OUTRAS ESTRELAS (ou “A ÚLTIMA MOLDURA”)

“PRA QUE VIVER?”
“SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO!”
“ABAIXO OS JUDEUS!”
“VIVA O ABORTO”
“AMAI-VOS UNS AOS OUTROS!”
“MORTE AO DELFIN!”
“QUEREMOS TRABALHO!”
“OH, ADMIRÁVEL MUNDO NOVO QUE ENCERRA CRIATURAS TAIS!”
“QUERO LIBERDADE!”
“FORA!”
“SIM!”
“NÃO!”
“É!”
“SERÁ?”
“EU NÃO ACREDITO!”
“HEI DE FAZER DESSE PAÍS UMA DEMOCRACIA!”
“QUALQUER MANEIRA DE AMAR VALE A PENA!”
“ABAIXO OS ‘GAYS’!”
“O MUNDO VAI ACABAR ONTEM!”
“DEPRAVADO!”
“L’ETAT C’EST MOI!”
“ALEA JACTA EST!”

CHEGA!!!
(SILÊNCIO)

VIVER
SEM UM SENTIDO
PRA QUÊ?
CONCEITOS CORTARAM MEU,
SEU, NOSSO
CÉREBRO
TAL QUAL TRESLOUCADA CHUVA DE COMETAS
INCANDESCENTES.
QUERO DESCOBRIR MINHA REALIDADE,
AFLORAR MINHA SENSIBILIDADE.
DESCOBRIR MINHA (HOMO?) SEXUALIDADE
FORA DE PRESSÕES,
PRÉ-CONCEITOS,
GENERALIDADES,
ABOBRINHAS,
MOLDURAS E ESTEREÓTIPOS.
SENTIR MEU “EU”
DESNUDO E CRU.
ETERNO ORGASMO A SE PROPAGAR
PELOS RECÔNDITOS DO MEU SER
LIVRE!
TAL QUAL PÁSSARO
BATER AS ASAS
E CONQUISTAR OS CÉUS,
OU O INFERNO, QUEM SABE?
VAGANDO
PELA VASTIDÃO DO INFINITO...

NÃO, NÃO SOU UM DEU,
NÃO SOU NADA.
PEQUENO FRAGMENTO DE MATÉRIA
PENSANTE,
SENSÍVEL,
MAS POSSO TENTAR ENCONTRAR
ALGO,
ALGUÉM
QUE CONDUZA
A INOVAÇÕES
LOUCAS SENSAÇÕES

.......

EI-LO!
MEU “EU”
SENSÍVEL,
PULSÁTIL,
PENSANTE,
VIVO!!!
QUE SE FRAGMENTA EM
MIL,
MILHÕES
DE PEQUENOS PEDAÇOS
QUE DEIXAREI POR ONDE PASSAR
POR TODOS OS CORAÇÕES,
MENTES,
ALMAS E CORPOS
QUE ENTRAREM EM CONTATO COMIGO.
MAS, EIS UMA PARTE QUE PRESERVO.
A MAIS BELA, DOCE E PROFUNDA
A QUAL DAREI A UM GRANDE AMOR
AMIGO,
AMANTE QUE SOU
PRESERVO,
RESERVO
A DULCÍSSIMA PAIXÃO
A UM CORAÇÃO QUE A MEREÇA
E QUE ESTEJA PREPARADO
PARA A GRANDE SÍNTESE.
E DAÍ, ENTÃO,
GRAVITAR PARA OUTROS MUNDOS
E UNIVERSOS
INEXPLORADAS EMOÇÕES.
INESPERADAS SENSAÇÕES.
E LÁ VIVER
ETERNAMENTE.
SOBREPUJAR O MITO DA VIDA
E DA MORTE
SIMPLESMENTE SENTIR
E EXISTIR
PELO PURO PRAZER
DE AMAR,
SONHAR
E VIVER
O LOUCO SONHO DA EXISTÊNCIA
ENFIM

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

IMPERIUS

Deleite de poucos, estes privilégios demoniacais;

Neosutilmente, apaga as luzes
E o neon de meus olhos lumia a candeia da escuridão;
Sim, sou eu.
No teu falo, escoa todo o muco do meu corpo;
Meu lar é teu gozo,
Habito cada canto dos teus pelos,
Eu te excito, e eu o sei muito bem.
Penetre, e daí não saias, pois esta é tua lápide,
o teu thanathos é o meu eros.
Rio-me de teus gemidos; e assim é desde que te conheci.
Era uma garoa fina que se depositava sobre meus seios,
E entendi o seu sinal molhado.
Umedeci meus lábios com a ponta de teus lóbulos,
E me decidi.
Fugi de mim para melhor me encontrar, mas nem sempre me encontrei,
Desconfio que tens as chaves, aqui mesmo, no teu escroto,
E eu sugo teus bagos sentido o teu gosto,
Sentindo-te dentro de mim.

Não passas de um mero exercício do meu auto-erotismo senil.

Mas gosto, sequer me importo
com o fato de não ser um gênio,
nem um imperador, ou um prostituto invulgar,
ao que nos assemelhamos: dois vermes
rastejando sempre, duas temáticas primárias seguindo noite afora,
um par de ejaculações sem nexo, dois tiros ao ar.
Percebi isto – ou diria percebemos isto? – num sorvete,
numa festa, que sabe até num passeio de olhares, sorrisos
de fato e as carícias – ah, aquelas carícias!
bastou para que soasse meia noite: compreendemos o que acontecera então.
você virou uma abóbora, uma grande abóbora cor de abóbora.
que diria! você, uma grande abóbora vermelha, sem pelos, sem bagos,
sem todo o seu sex-appeal. de certa forma, estacionei o carro
e desci; um cigarro ou dois bastariam em outras ocasiões, mas não agora.

Chegamos aos limites dos fatos: fechei o livro e adormeci
nos lençóis molhados de sêmen.

“A Gata Borralheira” sem dúvida é excitante nas noites do inverno da vida.