quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Sou um reles palhaço.

Sou um reles palhaço. E o que mais pode-se esperar de um ser humano? Não riam, por favor. Sou um palhaço, e sei que sou indigno de seu riso. Um palhaço estuporado, desesperado, acabado, findo. Uma semente de uva rio abaixo, abaixo, abaixo abaixando mais e mais. Não riam por favor: sou um palhaço. E nisso consiste a minha, a nossa desgraça. Nossa mais sincera presença neste picadeiro: a Vida.

Meu pai foi um palhaço; meu avô também. Já nasci rindo e fazendo rir. (Pausa) É uma sina, algo no sangue como uma bactéria: fazer rir. Ra, ra, ra. Perverti-me . (Irônico) Perdoem-me, papai, vovô, toda a minha família, perdoem-me minha pátria amada, meu povo, minha humanidade. Vim um palhaço às avessas, não sei fazer rir. Um anti-palhaço. Isso mesmo: se, no fantástico circo, nas paisagens imaginárias das pessoas, coubesse um a-palhaço, um não-riso, eu teria o meu lugar. Num silêncio, numa lágrima, que fosse, lá estaria eu. Uma materialização, corporificação de um eu mais profundo e mítico, mais metafísico e sincero que duas dúzias de dentes entalados entre pedaços de carne fresca. (Pausa) Não, um anti é um espaço negativo, não poderia ocupar um lugar sem ser destruído, retornado ao nada que o delimita sem o ser. (Pausa, olhando para o público). Mas perdão, senhores, perdi-me em minhas divagações. Um palhaço deve manter seus lábios cerrados – como os senhores – a não ser que seja para sorrir. Bem vulgar, não?

Mas basta. Revelei-me em meu esqueleto. Já puderam cheirar meus ossos e sentiram o vácuo em que me encerro. Nada mais há a se fazer, se é que, em algum dia, houve algo a ser feito. Palhaço: retira-te. Engano-me! Não existe mais nenhum palhaço. Talvez tudo não passou de uma grande farsa. (Ri). Uma farsa. Gostaria de poder reunir-me a vocês, colegas. Mas uma farsa, por mais que nunca tenha existido, tem que continuar. (Em off) É nosso dever dar-lhe seguimento.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Três ratos cegos

Três ratos cegos
Põem-se a roer
Roem Roem Roem.
Roem tumbas, carrancas
Roem folhas, madeira
Roem, crédulos,
O tempo.

Três ratos cegos
Roem Roem Roem
Sonhos, açúcar
Roem fios, tecidos
Toem tudo que supõem
A roer.

Três ratos cegos
Que roem o tempo,
Sapatos, cerâmicas

Três ratos não tão cegos
Roem o homem que há dentro
De cada um de nós.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Fragmento

De todas as utopias
Brandas ou inatingíveis
Eis a mais mirabolante
Extravagância:
Minha pequena pérola
Ornamentada de ouro
Diamantes da solidão
Só multiplicam
A intensidade do seu brilho
(Secretamente?) angustiado

E eis que o Ocaso se aproxima
Corro ao horizonte – ei-la
Desaparecendo por detrás do mar
Carregada pelas ondas
Pura ilusão
Pois sei que há de renascer
Durante a noite
Mergulhada, incrustada
Num teto de estrelas
(E, é claro, não sem o seu brilho branco
Alvo, fofo, brando
Leitoso, até.)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O AMOR QUE MOVE O SOL E AS OUTRAS ESTRELAS (ou “A ÚLTIMA MOLDURA”)

“PRA QUE VIVER?”
“SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO!”
“ABAIXO OS JUDEUS!”
“VIVA O ABORTO”
“AMAI-VOS UNS AOS OUTROS!”
“MORTE AO DELFIN!”
“QUEREMOS TRABALHO!”
“OH, ADMIRÁVEL MUNDO NOVO QUE ENCERRA CRIATURAS TAIS!”
“QUERO LIBERDADE!”
“FORA!”
“SIM!”
“NÃO!”
“É!”
“SERÁ?”
“EU NÃO ACREDITO!”
“HEI DE FAZER DESSE PAÍS UMA DEMOCRACIA!”
“QUALQUER MANEIRA DE AMAR VALE A PENA!”
“ABAIXO OS ‘GAYS’!”
“O MUNDO VAI ACABAR ONTEM!”
“DEPRAVADO!”
“L’ETAT C’EST MOI!”
“ALEA JACTA EST!”

CHEGA!!!
(SILÊNCIO)

VIVER
SEM UM SENTIDO
PRA QUÊ?
CONCEITOS CORTARAM MEU,
SEU, NOSSO
CÉREBRO
TAL QUAL TRESLOUCADA CHUVA DE COMETAS
INCANDESCENTES.
QUERO DESCOBRIR MINHA REALIDADE,
AFLORAR MINHA SENSIBILIDADE.
DESCOBRIR MINHA (HOMO?) SEXUALIDADE
FORA DE PRESSÕES,
PRÉ-CONCEITOS,
GENERALIDADES,
ABOBRINHAS,
MOLDURAS E ESTEREÓTIPOS.
SENTIR MEU “EU”
DESNUDO E CRU.
ETERNO ORGASMO A SE PROPAGAR
PELOS RECÔNDITOS DO MEU SER
LIVRE!
TAL QUAL PÁSSARO
BATER AS ASAS
E CONQUISTAR OS CÉUS,
OU O INFERNO, QUEM SABE?
VAGANDO
PELA VASTIDÃO DO INFINITO...

NÃO, NÃO SOU UM DEU,
NÃO SOU NADA.
PEQUENO FRAGMENTO DE MATÉRIA
PENSANTE,
SENSÍVEL,
MAS POSSO TENTAR ENCONTRAR
ALGO,
ALGUÉM
QUE CONDUZA
A INOVAÇÕES
LOUCAS SENSAÇÕES

.......

EI-LO!
MEU “EU”
SENSÍVEL,
PULSÁTIL,
PENSANTE,
VIVO!!!
QUE SE FRAGMENTA EM
MIL,
MILHÕES
DE PEQUENOS PEDAÇOS
QUE DEIXAREI POR ONDE PASSAR
POR TODOS OS CORAÇÕES,
MENTES,
ALMAS E CORPOS
QUE ENTRAREM EM CONTATO COMIGO.
MAS, EIS UMA PARTE QUE PRESERVO.
A MAIS BELA, DOCE E PROFUNDA
A QUAL DAREI A UM GRANDE AMOR
AMIGO,
AMANTE QUE SOU
PRESERVO,
RESERVO
A DULCÍSSIMA PAIXÃO
A UM CORAÇÃO QUE A MEREÇA
E QUE ESTEJA PREPARADO
PARA A GRANDE SÍNTESE.
E DAÍ, ENTÃO,
GRAVITAR PARA OUTROS MUNDOS
E UNIVERSOS
INEXPLORADAS EMOÇÕES.
INESPERADAS SENSAÇÕES.
E LÁ VIVER
ETERNAMENTE.
SOBREPUJAR O MITO DA VIDA
E DA MORTE
SIMPLESMENTE SENTIR
E EXISTIR
PELO PURO PRAZER
DE AMAR,
SONHAR
E VIVER
O LOUCO SONHO DA EXISTÊNCIA
ENFIM

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

IMPERIUS

Deleite de poucos, estes privilégios demoniacais;

Neosutilmente, apaga as luzes
E o neon de meus olhos lumia a candeia da escuridão;
Sim, sou eu.
No teu falo, escoa todo o muco do meu corpo;
Meu lar é teu gozo,
Habito cada canto dos teus pelos,
Eu te excito, e eu o sei muito bem.
Penetre, e daí não saias, pois esta é tua lápide,
o teu thanathos é o meu eros.
Rio-me de teus gemidos; e assim é desde que te conheci.
Era uma garoa fina que se depositava sobre meus seios,
E entendi o seu sinal molhado.
Umedeci meus lábios com a ponta de teus lóbulos,
E me decidi.
Fugi de mim para melhor me encontrar, mas nem sempre me encontrei,
Desconfio que tens as chaves, aqui mesmo, no teu escroto,
E eu sugo teus bagos sentido o teu gosto,
Sentindo-te dentro de mim.

Não passas de um mero exercício do meu auto-erotismo senil.

Mas gosto, sequer me importo
com o fato de não ser um gênio,
nem um imperador, ou um prostituto invulgar,
ao que nos assemelhamos: dois vermes
rastejando sempre, duas temáticas primárias seguindo noite afora,
um par de ejaculações sem nexo, dois tiros ao ar.
Percebi isto – ou diria percebemos isto? – num sorvete,
numa festa, que sabe até num passeio de olhares, sorrisos
de fato e as carícias – ah, aquelas carícias!
bastou para que soasse meia noite: compreendemos o que acontecera então.
você virou uma abóbora, uma grande abóbora cor de abóbora.
que diria! você, uma grande abóbora vermelha, sem pelos, sem bagos,
sem todo o seu sex-appeal. de certa forma, estacionei o carro
e desci; um cigarro ou dois bastariam em outras ocasiões, mas não agora.

Chegamos aos limites dos fatos: fechei o livro e adormeci
nos lençóis molhados de sêmen.

“A Gata Borralheira” sem dúvida é excitante nas noites do inverno da vida.