domingo, 27 de fevereiro de 2011

Poema a um pequeno defunto

Extinta, a Alma se vai
Singela
Criança
Esperança
De que um dia
O que houver
Haja
de haver
(Semântico!)
Transplante meus lábios
Ao pequeno defunto
Não proferirei injúrias
Em teu nome
Sublime
Sobe


Adeus.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

tristeza

deveria pensar por mais trinta ou quarenta anos antes de me aventurar a dizer
de mim. mas aí outro diria, e nem de mim diria, diria de outro
com uma lembrança passageira. uma voz de mulher canta em mim
(e, pasme você, nem sou adélia prado). pensei nos domingos
dias de natureza triste, de tristeza fininha como o miado de pequenos gatos
que habitavam o quintal. eu não mais quintal.
estou triste e nem é domingo, dia onde espelho em mim
o miado escorrido das longas tristezas. estou triste e me confundo
com meu sentimento. se alguém me olhasse os olhos, pressinto que não
veria a mim; talvez, isso sim, me ouvisse baixinho.
continuo a pensar algumas tristeza, e a vertê-las: certo ocaso numa
praia do sul, os olhos longínquos de borges, um pequeno grilo esmagado
por descuido. penso também algumas tristezas mais distantes, mais alheias,
mas não me parecem autênticas. a quem vier ler este texto
evoque para si algumas lembranças, sinta marejarem os olhos.
isso é tudo que não me cabe fazer.
só posso sugerir.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Circus – Pequenos poemas - Sete Focas e Leões

1.

Momento a momento,
Sinto um tom que se abaixa
Uma oitava ao crepúsculo.

2.

O homem ´
É o Ser
Rodeado de hipóteses
Por todos os seu nadas.

3.

Um príncipe que guarda
Sua gema na coroa.
É um sorriso de luz azul, tênue.

4.

Passeando entre os caules,
Uma pequena saúva
Deposita um respingo de suor,
O orvalho da folha que acaba de cortar.

5.

No feixe de espadas,
O engolidor encontra, atônito,
Um ramalhete de violetas.

6.

A pele esverdeada e enrugada,
Suspensa por paus cheios de nódoas.
O feto aconchegante de bebês prematuros.

7.

Nas cornetas,
O solo de uma pantomima de Pirandello
Gera um (virtual)/(virtuose) espaço.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Seu Onório

Era um bêbado muito respeitado
Pois andava de cajado
E chapéu à paisana
Perambulava pelas ruas da cidade
Vivia a vida de verdade
Sem se preocupar com “cana”
Até que um dia o amor apareceu
E aquele que nunca se rendeu
A mulata agarrou
E seu Onório – velho muito respeitado
Trocou o seu cajado
Pelo avental e pelo amor!

- Oh, seu Onório, não faça isso!
Por acaso perdeste o juízo?
Casamento é coisa de louco
Apanha-se muito e vive-se pouco!

E seu Onório, muito calmo, replicava:
- Por essa vida que eu levava (avacalhada!)
Prefiro o amor de minha amada!

Mas um dia o amor acabou
E aquele que Ele levou
Para as ruas voltou

E o pessoal gritava, feliz:
- Seu Onório não troca amor nenhum
Por um copo de 51!!!

(31.10.82)