domingo, 17 de julho de 2011

Pulsar



Me sinto tolo como um menino
Atrás do seu pirulito
Perdido no parque,
Choro um choro baixinho e triste
Na balança, sem consolo.
Onde estás?
Será que eu o engoli
Numa antropofagia pirulítica?
Ou o perdi
Entre as dunas do escorregador?


Desisto da procura
E saio da metáfora.


Sou bomba ambulante
Prestes a explodir
Num puta delírio.
Sou um pesadelo dos homens,
O mais terrível deles;
Sou a imagem dos teus reflexos
Mais profundos e indesejados,
Sou a tua alucinação mais ausente,
E, delas, a mais constante
Nos teus lençóis;
Embebo-me em cada gota das tuas secreções
E, tal qual tumor maligno,
Me embrenho nos teus órgãos mais profundos.
Me cagas, me mijas, sou teu tormento
Diário à beira do vaso
Sanitário.


Bailo tua música
Como o cisne
Que aguarda o fim do dia
Num pas-de-deux
Fatídico e pulsante
Ao por do sol
No insípido horizonte
Dos teus sentimentos.


Sou pegajoso, gosmento
Escorro por teus olhos pela manhã
Saio do teu nariz nas gripes
Sou o pus da tua gonorréia
Podre parte pentecostaliana
Das tuas orações sórdidas
E caminho no fio
De tuas brumas
Cuspindo e arrotando
Esgotos e predicados
Que, por mais alternados e grandes,
Nunca penetram na tua couraça
De caramujo tolo,
Que num pisão,
Esfacelo e esmago.


Para depois lambê-lo,
Num misto de horror e ternura
E continuar meu rumo,
Não sem antes dar-lhe meu último afago
Por entre escarros a fio.

(89)

terça-feira, 12 de julho de 2011

Eu me amo

Serenamente, percorreu a face,
Trilha de sortilégios ocultos
E desmesurados;
Com audácia, tolheu-lhe o olhar
Sem expressão,
E sorriu daquilo que nunca pode
Compreender.
Tomou do lápis – lança de batalha –
E imprimiu o que seu sangue
Jorrava-lhe aos ouvidos,
Numa entonação ora doce e frágil,
Ora forte e resoluta,
Assustando até.


[Pausa para pequena tosse (cof!)]


Parou.
Abandonou o lápis e o parto
E olhou o fruto do seu labor inútil
Entre gritos e sobressaltos.
A expressão – ah, essa era indefinível
E indefinida; algo entre soluçar
E espasmo sutil.
Numa interrogação sem ponto,
Anzol ou gancho vulgar,
Postou seu corpo,
Tomou uma xícara de café
E sentou-se à mesa, dando risadas,
Esboçando sorrisos,
Contando histórias sem fim.

(1985/04)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Desculpa se me prendi

Desculpa se me prendi
Na mancha do teu olhar
Tentarei levitar.


Desculpa se me arraiguei
Nas tuas vagas promessas.
Acordarei minha minhas pernas adormecidas nessas.


Desculpa ainda a minha tolice
Manifesta nos meus beijos ardentes.
Fá-los-ei menos “calientes”.


Desculpa as carícias que te entreguei
Nos momentos de ternura.
Desculpa a insistência da amargura.


Desculpa se me enraizei
Na chama que sequer me acendeu.
Desculpa por nunca teres sido meu.

(1984)

sábado, 2 de julho de 2011

Tropicus

(pour Paulo)

I

Kant, Schopenhauer, Marx.

Pandora abre sua caixa
Mil arapongas tupiniquins
Sobrevoam sua cabeça.

No fundo desta,
O martelo de Nietzsche.

II

Mentem os que arfirmam
Que somente é possível
Filosofar em alemão.

No fundo da garganta de
Cada araponga,
Bate o martelo de um
Nietzsche tropical.

(tradução de poemas visuais)