terça-feira, 29 de novembro de 2011

Temporalidade III

O mesmo que não o é;
É outro.



(manuscrito)

Portrato

Olhei fundo nos lagos azuis de
Bette Davis
E me descobri,
Descobri-me sentado num de
seus rochedos.

Caravelei até lá,
o vento em minhas velas de
Portugal,
rendadas em clássico.

Foi o mais belo naufrágio.



(manuscrito)

Ambiguidade

O mesmo que não o é;
É, isto,
Um outro.


(manuscrito)

Sociedade I – o moderno

O meu corpo é formado por algumas partes, a saber:
corpo 1, corpo 2, corpo 3.
O corpo 1 seduz o corpo 2 (que é virgem)
O corpo 3 seduz o corpo 2 (que é virgem)
O corpo 2 pensa ser um irresistível homem
O corpo 1 e o corpo 3 são muito mentirosos;
O corpo 2 é um eterno tolo.
O corpo 3 conversa, às vezes.
O corpo 1 escreve sonetos.
O corpo 2 e o corpo 3 são intelectuais.
O corpo 3 é viado assumido.
(Os outros dois são enrustidos)
O corpo 1 gosta de samba,
Enquanto 2 dança sobre veludo
E 3 toca um bumbo.
O corpo 2 é justiceiro,
O corpo 3 é locutor de rádio
O corpo 1 vai a Santa Sé aos domingos,
O corpo 2 levanta pesos,
O corpo 3 abre a janela.
Os corpos 1 e 3 são nudistas
(À revelia do corpo 2 que, como já se disse,
É virgem, além de puritano).
O corpo 3 bebe um wiskey,
O corpo 2, adrenalina.
O corpo 3 estava na Inconfidência,
Enquanto o corpo 1 viajava pra Parati.
Todos os três são bastante coloquiais.

Algo me diz que nenhum deles
Gosta de mim
Ou de você.

(São todos muito anti-sociais).


87/02 (manuscrito)

sábado, 26 de novembro de 2011

A gde. foda da vida




A gde. foda da vida
É torcer-se o coração
E notá-lo cheio
De amor e amargura
De amores não dados
De amargura recebidas
Porra, eu quero
Esporrar amor pelos poros
Mas nunca encontro óvulos
Fecundáveis
Mais:
Nunca encontro vaginas
Penetráveis
O que fazer?
Auto-felação,
Homossexualismo (não, isso não),
Castração
Ou suicide?
Vejo-me perante três hipótese
Tão horrorosas
Quanto prováveis.

Mas, enquanto minha insegurança
Segura as pontas,
Dos meus seios flácidos escorre
O colostro
Que, por razões desconhecidas,
Ninguém quer sugar.
Que terrível sensação
De ser uma ejaculação
Ambulante,
Das pessoas acharem-me
Viscoso,
Viscoso de sêmen maldito
Embebido em lágrimas
E sangue de abortos!
Quão pedante, quão indescritível
A emoção
De explicar-se como um coração vazado
Que tenta molhar tudo que toca
Num misto de amor e leite!
(Que noje!)
Vomitem, amigos e irmãos!
Pois, enquanto me decido
Minha posição é do chafariz
Jorrante
Assistindo a náusea da coletividade
Até que picaretas me quebrem
Ou que eu me afogue
Nos meus próprios excrementos
De afeto.

(manuscrito)

(sem título)



Se os sentidos me bastassem,
estar só seria o fato;
Se meu corpo fosse tudo,
estar só seria o tempo;

Como o que é eterno não se inicia,
estar só é o princípio.


(manuscrito)