quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A amada em abandono




Abandonada e só sobre a cama, outra lascívia
Abate-se sobre seu corpo, agora em tormento;
Em outro leito, o homem em abandono no momento
À brisa mansa entrega a memória passiva

E não pensa no abandono que legou num momento
Da noite perpetuada em dor em outro leito agora abatida;
Em outro leito, a mulher em abandono é consumida
E pela cama vaga como o mar por uma onda, e seu tormento

Abate-se em abandono no homem de músculos rijos
Onde o lençol em ondas afaga em brisa seu ventre e o corso
Onde aquela amada ardeu seu ventre em tons lascivos

E sua voz só faz acalmar à distância o amado torso,
Soprando o vento às naus distantes em águas esquivas,
O pranto da amada, seu ventre o mar e o cais seu dorso.


(manuscrito, s/d)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Eppur si muove:

Ah! Velhas paragens cansadas pela solidão
Bois magros a consolar sua desesperança
Clama como as águas de teus riachos secos
Resplandecendo velhas memórias.
A velha charrete ainda no mesmo lugar
Onde tantas glórias viveu; agora, esquecida
Recita mágoas às cocheiras pacientes,
Contando ciúmes do moderno quadrúpede
Nem mesmo o Sol mudou, cara risonha,
Avermelhado sorriso do amanhecer;
Tudo é ironia e desilusão no abandono
Que cerca esse lugar alegre que já foi feliz.
Os cabelos brancos, signo expresso, cavalgam
Ao vento esvoaçantes, soltando raios luminosos
Viajando sem rumo, o canto ecoa ao longe
Vozes apagadas do passado gritam velhos absurdos
Inaudíveis e irreconhecíveis aos de hoje.
O Homem vai a Lua, projeta viagens espaciais
Enquanto o cachorro sarnento rói seu osso, indiferente.
A mulher sem dentes lava a roupa suja
E as crianças pululam por todos os cantos
Irriquetamente - é a vida.


(manuscrito; 09/04/83)

Transitoriedade IV

Quando eu existia, o mundo era mais simples,
Confinava-se a perguntas e respostas.
Jovem, muito tempo pensei
Em perguntas que me eram feitas
E em suas respostas;
Pensei também nas perguntas que poderia fazer
E em que resposta obteria
Para elas.
Isso tudo foi há muito tempo
(E eu pensei que até havia me esquecido).
O tempo é uma farsa;
As perguntas não existem,
Tampouco eu.


(manuscrito/07/02...)