segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Eppur si muove:

Ah! Velhas paragens cansadas pela solidão
Bois magros a consolar sua desesperança
Clama como as águas de teus riachos secos
Resplandecendo velhas memórias.
A velha charrete ainda no mesmo lugar
Onde tantas glórias viveu; agora, esquecida
Recita mágoas às cocheiras pacientes,
Contando ciúmes do moderno quadrúpede
Nem mesmo o Sol mudou, cara risonha,
Avermelhado sorriso do amanhecer;
Tudo é ironia e desilusão no abandono
Que cerca esse lugar alegre que já foi feliz.
Os cabelos brancos, signo expresso, cavalgam
Ao vento esvoaçantes, soltando raios luminosos
Viajando sem rumo, o canto ecoa ao longe
Vozes apagadas do passado gritam velhos absurdos
Inaudíveis e irreconhecíveis aos de hoje.
O Homem vai a Lua, projeta viagens espaciais
Enquanto o cachorro sarnento rói seu osso, indiferente.
A mulher sem dentes lava a roupa suja
E as crianças pululam por todos os cantos
Irriquetamente - é a vida.


(manuscrito; 09/04/83)

Transitoriedade IV

Quando eu existia, o mundo era mais simples,
Confinava-se a perguntas e respostas.
Jovem, muito tempo pensei
Em perguntas que me eram feitas
E em suas respostas;
Pensei também nas perguntas que poderia fazer
E em que resposta obteria
Para elas.
Isso tudo foi há muito tempo
(E eu pensei que até havia me esquecido).
O tempo é uma farsa;
As perguntas não existem,
Tampouco eu.


(manuscrito/07/02...)